Mensagem quaresmal do cardeal de Buenos Aires

A comunidade iMissio continua a partilhar alguns dos escritos do Papa Francisco com o intuito de o melhor conhecermos. Hoje apresentamos a última Mensagem quaresmal do  cardeal Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Buenos Aires, 13.2.2013, Quarta-feira de Cinzas.

Como síntese selecionamos este pensamento de São João Crisóstomo: «Nenhum ato de virtude pode ser grande se dele não resulta proveito para os outros… Assim pois, por mais que passes o dia em jejuns, por mais que durmas sobre o chão duro, e comas cinza, e suspires continuamente, se não fazes bem a outros, não fazes nada grande».

©Enrique Garcia Medina

©Enrique Garcia Medina

Mensagem quaresmal do cardeal Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Buenos Aires, 13.2.2013, Quarta-feira de Cinzas

«Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao Senhor, vosso Deus,
porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 13)

Pouco a pouco acostumámo-nos a ouvir e ver, através dos meios de comunicação, a crónica negra da sociedade contemporânea, apresentada quase com perverso regozijo, e também nos acostumámos a tocá-la e a senti-la em torno de nós e na nossa própria carne.

O drama está na rua, no bairro, na nossa casa e, por que não, no nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que destrói famílias, aviva guerras e conflitos em muitos países do mundo. Convivemos com a inveja, o ódio, a calúnia, o mundanismo no nosso coração.

O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos esbofetear; o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos frágeis não nos são tão distantes; o império do dinheiro com os seus efeitos demoníacos como a droga, a corrupção, o tráfico humano – incluindo crianças – a par da miséria material e moral são moeda corrente.

 A destruição do trabalho digno, a emigrações dolorosas e a falta de futuro unem-se também a esta sinfonia. Os nossos erros e pecados como Igreja também não ficam fora deste panorama.

Os egoísmos mais pessoais justificados, e não por causa disso menores, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que faz metástases nas famílias, na convivência dos bairros, vilas e cidades, falam-nos da nossa limitação, da nossa debilidade, e da nossa incapacidade de transformar esta lista inumerável de realidades destrutivas.

A armadilha da impotência leva-nos a pensar: Será que faz sentido tentar mudar tudo isto?  Podemos fazer algo diante desta situação? Vale a pena tentá-lo se o mundo continua a sua dança carnavalesca disfarçando tudo por um tempo? No entanto, quando a máscara cai, aparece a verdade e, embora para muitos soe anacrónico dizê-lo, reaparece o pecado, que fere a nossa carne com toda a sua força destrutiva, desfigurando os destinos do mundo e da história.

A Quaresma apresenta-se-nos como grito de verdade e de esperança certa que nos responde que sim, que é possível não nos maquilharmos e esboçarmos sorrisos de plástico como se nada se passasse.

Sim, é possível que tudo seja novo e diferente porque Deus continua a ser «rico em bondade e misericórdia, sempre disposto a perdoar», e encoraja-nos a começar uma e outra vez.

Hoje, novamente, somos convidados a empreender um caminho pascal até à Vida, caminho que inclui a cruz e a renúncia; que será incómodo mas não estéril. Somos convidados a reconhecer que algo não está bem em nós mesmos, na sociedade ou na Igreja, a mudar, a fazer uma viragem, a convertermo-nos.

Neste dia, são fortes e desafiadoras as palavras do profeta Joel: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus». São um convite a todo o povo, ninguém está excluído.

Rasguem o coração e não as roupas de uma penitência artificial sem garantias de futuro.

Rasguem o coração e não as roupas de um jejum formal e de cumprimento que nos continua a manter satisfeitos.

Rasguem o coração e não as roupas de uma oração superficial e egoísta que não chega às entranhas da própria vida para a deixar tocar por Deus.

Rasguem os corações para dizer com o salmista : «pecámos». «A ferida da alma é o pecado: Oh pobre ferido, reconhece o teu Médico! Mostra-lhe as chagas das tuas culpas. E uma vez que ele não são ocultos os nossos pensamentos, faz-lhe sentir o gemido do teu coração. Leva-o à compaixão com as tuas lágrimas, com a tua insistência, importuna-o! Que ouça os teus suspiros, que a tua dor chegue até Ele, de modo que, no fim, possa dizer-te: “O Senhor perdoou o teu pecado”»” (S. Gregório Magno).

Esta é a realidade da nossa condição humana. Esta é a verdade que pode se aproximarmo-nos da autêntica reconciliação… com Deus e com os homens. Não se trata de desacreditar a autoestima mas de penetrar no mais fundo do nosso coração e cuidar do mistério do sofrimento e da dor que nos liga desde há séculos, milhares de anos… desde sempre.

Rasguem os corações para que por essa fenda possamos olharmo-nos de verdade.

Rasguem os corações, abram os vossos corações, porque só num coração rasgado e aberto pode entrar o amor misericordioso do Pai que nos ama e nos cura.

Rasguem os corações diz o profeta, e Paulo pede-nos quase de joelhos “deixai-vos reconciliar com Deus”. Mudar o modo de vida é o sinal e fruto deste coração reconciliado por um amor que nos ultrapassa.

Este é o convite, frente a tantas feridas que nos magoam e que nos podem levar à tentação de endurecermos: Rasgai os corações para experimentar na oração silenciosa e serena a suavidade da ternura de Deus.

Rasguem os corações para sentir o eco de tantas vidas rasgadas e que a indiferença não nos deixe inertes.

Rasguem os corações para poder amar com o amor com que somos amados, consolar com o consolo que somos consolados e partilhar o que recebemos.

Este tempo litúrgico que inicia hoje a Igreja não é só para nós mas também para a transformação da nossa família, da nossa comunidade, da nossa Igreja, da nossa pátria, do mundo inteiro.

São 40 dias para que nos convertamos à santidade mesma de Deus; nos convertamos em colaboradores que recebemos a graça e a possibilidade de reconstruir a vida humana para que todo o homem experimente a salvação que Cristo nos ganhou com sua a morte e ressurreição.

Juntamente com a oração e a penitência, como sinal da nossa fé na força da Páscoa que tudo transforma, também nos dispomos a começar como nos outros anos o nosso “Gesto quaresmal solidário”.

Como Igreja em Buenos Aires que marcha rumo à Páscoa e que crê que o Reino de Deus é possível necessitamos que, dos nossos corações rasgados pelo desejo de conversão e pelo amor, brote a graça e o gesto eficaz que alivie a dor de tantos irmãos que caminham ao nosso lado.

«Nenhum ato de virtude pode ser grande se dele não resulta proveito para os outros… Assim pois, por mais que passes o dia em jejuns, por mais que durmas sobre o chão duro, e comas cinza, e suspires continuamente, se não fazes bem a outros, não fazes nada grande». (São João Crisóstomo)

Este ano da fé que percorremos é também a oportunidade que Deus nos dá para crescer e amadurecer no encontro com o Senhor que se faz visível no rosto sofredor de tantas crianças sem futuro, nas mãos trementes dos idosos esquecidos e nos joelhos vacilantes de tantas famílias que continuam a dar o peito à vida sem encontrar ninguém que as sustenha.

Desejo-vos uma santa da Quaresma, penitencial e fecunda Quaresma e, por favor, peço-vos que rezem por mim. Que Jesus vos abençoe a Virgem Santa vos proteja.

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