A experiência muito pouco espiritual do Papa no Twitter

Bento XVI criou uma conta nesta rede social. A renúncia ainda não foi mencionada. O próximo Papa pode evitar o Twitter.

©GABRIEL BOUYS:AFP

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Podia ter sido o tweet do século. Mas o Papa Bento XVI decidiu não anunciar a sua renúncia no Twitter, a que aderiu no ano passado numa incursão pelas redes sociais que trouxe pouco retorno espiritual e que pode ser evitada pelo seu sucessor. Obviamente interessado em evitar qualquer fuga de informação sobre a sua renúncia – o que teria sido um risco, já que os seustweets são feitos por um assistente – o Papa anunciou-a em pessoa, em latim, a um grupo restrito de cardeais. O vídeo foi depois mostrado ao mundo.

A notícia sobre o primeiro Papa a renunciar em seis séculos alastrou no Twitter, gerando 1,5 milhões de comentários nas primeiras 36 horas, segundo a análise da empresa Crimson Hexagon. Mas desses, um terço eram negativos, criticando o Papa ou a Igreja Católica, e 38% eram piadas. Apenas 7% eram positivos, expressando preocupação com o Sumo Pontífice ou esperança no futuro.

“Recebemos tweets que não são próprios do ser humano”, reagiu o arcebispo Claudio Maria Celli, chefe do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, um gabinete do Vaticano criado nos anos 1940 para responder à emergente indústria do cinema, mas que no pontificado de Bento XVI foi redireccionado para o Twitter, o YouTube e a aplicação para smartphones “The Pope App”.

Alvo fácil nos fóruns da Internet, o Papa tem sido vítimas de abusos online. “É um problema”, admite Celli, numa entrevista concedida no seu gabinete, perto da Basílica de São Pedro. “Ofender de forma vulgar não é digno do ser humano”, acrescenta.

O pontífice de 85 anos, no entanto, não foi ingénuo ao aderir a este rede demicro-blogging, que é sinónimo de notícias instantâneas, irreverência e comportamentos de multidão. “A ideia do Santo Padre era simples: ‘Quero estar onde as pessoas estão’”, explica Celli.

Twitter não deu pistas
O Papa não deu qualquer sinal da renúncia que se avizinhava nos tweetsrecentes, publicados a partir de uma sala fechada no Vaticano e através de um computador próprio para o efeito e especialmente protegido contra ataques de hackers. No domingo (10 de Fevereiro), véspera do anúncio da renúncia, Bento XVI escreveu no Twitter: “Devemos confiar na força da misericórdia de Deus. Embora sejamos todos pecadores, a sua graça transforma-nos e renova-nos.”

Desde a renúncia, no dia 11, o Papa publicou apenas uma mensagem na conta @Pontifex. Foi na quarta-feira de cinzas, quando relembrou aos seus mais de 1,5 milhões de seguidores no Twitter que se iniciou o período de reflexão e jejum: “No tempo da Quaresma, que hoje se inicia, renovemos o nosso esforço de conversão, criando mais espaço para Deus nas nossas vidas.”

O aparelho de comunicação do Vaticano, montado pelo antecessor de Bento XVI, está a lidar com as semanas mais atarefadas desde a morte de João Paulo II e a eleição de Bento XVI, em Abril de 2005. No dia da renúncia, as visitas ao site do Vaticano subiram de 14 mil para 190 mil num dia, obrigando os técnicos a passarem de um para quatro servidores, de forma a evitar que o site ficasse indisponível. Bento XVI provavelmente publicará o seu último tweet a 28 de Fevereiro, último dia do seu pontificado, antes de partir de helicóptero para Castelo Gandolfo, a residência de Verão dos Papas, onde vai ficar até à escolha do seu sucessor.

Depois disso – durante o período de “sede vacante”, em que não há Papa – a conta @Pontifex ficará em silêncio. Mas quem tiver a “Pope App” no seu smartphone poderá ver em directo a saída do fumo branco da chaminé da Capela Sistina, sinal de que há novo Papa.

A entrada de Bento XVI no mundo das redes sociais foi parte de uma das lutas centrais do seu pontificado: recuperar crentes num mundo desenvolvimento em processo acelerado de secularização. Mas o pouco sucesso desta iniciativa não garante que o próximo pontífice tenha Twitter: “Vai certamente depender dele. Quando o novo Papa for eleito, vamos dar-lhe essa oportunidade”, explica Celli: “Precisamos de atingir a imaginação das pessoas. Precisamos de tocar no seu coração. Temos muitas novas tecnologias, mas percebe como é difícil comunicar com as pessoas?”

 

NAOMI O’LEARY (REUTERS) – Público|17/02/2013


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