Saudade e arrependimento

©Carlos Ribeiro

Somos aquilo que escolhemos. A nossa identidade constrói-se no tempo com o que é mais relevante nos dias. Tristezas e alegrias sucedem-se. Os dias passam por nós, um a um, ordenadamente, e nós, passamos por eles… Sucedemo-nos a nós mesmos numa construção contínua que retém a luz e a escuridão de cada hoje.

Cada vida humana é tão singular e original como dinâmica e contínua, integrando sempre várias ideias, sentimentos, espaços e tempos… perante o que fica do que passámos podemos entristecermo-nos ou alegrarmo-nos, umas coisas pesam-nos outras fazem-nos voar.

Vivemos num pedaço de tempo a que chamamos presente, numa dinâmica entre o passado e o futuro. Estes, quase nunca se tocam. Mas no arrependimento e na saudade… sim. O arrependimento é um compromisso que assumimos connosco mesmos em que apresentamos o nosso futuro como redentor da culpa passada. Funciona de forma eficaz, se formos sérios. A saudade constitui-se como a presença de algo ausente, que se perdeu no tempo mas permanece no sentimento. O saudoso vive um estado de contraste entre o que lhe é dado no presente, o que tem diante de si, e o passado, representado dentro de si… a carência que sente é acompanhada pelo desejo de recuperar o que já foi e pela consciência de que tal anseio é impossível… mas, também aqui, se pode dar um salto logicamente absurdo pelo qual o futuro dá sentido ao passado, através da livre decisão de lhe alterar o rumo.

Há quem não se arrependa, talvez na convicção de que não foi livre de escolher, donde lhe resta apenas assumir aquilo que o destino lhe reservou; outros, não se arrependem porque acreditam que é possível e desejável passar por cima de si mesmos sem deixar marca do que foram… o arrependimento surge-lhes como uma mancha que lhes estraga o projeto de serem felizes, como se a culpa não fizesse parte da vida de qualquer ser humano comum. É necessário assumir os erros passados, tê-los presentes, para que os futuros sejam diferentes. Melhores.

A vida é curta, mas suficientemente extensa para que nela caiba a verdade toda.

A multidão é composta por muitos eus que não são diferentes de mim, não há bons nem maus, há pessoas de carne e osso, cada uma com a sua vida, construindo histórias sempre simples e complicadas. São raras as que se dão conta da urgência de sermos felizes e da tamanha responsabilidade própria em relação a isso. Não, não devemos acreditar que a felicidade nos virá abraçar enquanto deitados e tristes esperamos por ela. A alegria autêntica depende de mim, depende do que eu decidir hoje. A felicidade não é um destino paradisíaco a que se chega, mas uma forma de caminhar na vida, neste vale onde se misturam as solidões e o amor, neste imenso mar de saudades e arrependimentos.

As pessoas mudam, evoluem e revelam-se…

Da solidão que me rodeia devo concluir a certeza de que dependo inteiramente de mim. No fundo do que sou posso encontrar algo mais do que sonhos e memórias, algo divino que me ultrapassa mas que me pede que seja eu a decidir, que confia no que sou para criar uma vida que seja ela própria parte da alma do mundo, que o anime e faça avançar, enfim, que a minha existência funcione como um sustentáculo à vida plena dos que estão ao alcance do meu braço e do meu abraço.

Se compreendermos a essência irreversível do tempo e assumirmos corajosamente as saudades e os arrependimentos do ontem e do anteontem, então, estaremos no caminho certo. Aquele em que se é feliz a cada passo.

José Luís Nunes Martins|JornalI|23 Fev 2013


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