A radicalidade da oração

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Não abandono a cruz. Permaneço apenas de um modo novo junto do senhor crucificado. “Já não sou portador do poder do Governo da Igreja, mas continuarei, no recinto de São Pedro, ao serviço da oração”. Se dúvidas houvesse ficaram na sua última audiência, esclarecidas. O Papa não foge, não abdica, não vai gozar de uns anos sabáticos dedicados à reflexão e à música. Não voltará à sua condição de brilhante teólogo não irá viajar pelo mundo ou a fazer conferências. Não. Vai continuar, a sua mesma missão, dedicando-se a uma tarefa fulcral para o governo da Igreja. Não parte, fica. Tal como João Paulo II, também ele permanecerá junto à cruz até ao fim.

E se o Papa polaco fez do seu pontificado uma catequese da vida mostrando ao mundo (que abomina a doença e foge da velhice), o valor sagrado da vida desde a concepção até à morte natural, Bento XVI, na sua racionalidade germânica, oferece-se também ele em catequese. Mostrando-nos agora o que na Vida de um cristão é verdadeiramente essencial, importante e prioritário. Num mundo vergado ao activismo mais produtivista ele abdica do óbvio poder da acção deixando-a humildemente ao sucessor, e às suas redobradas forças, para escolher o mais difícil: confiar inteiramente na força da oração contemplativa.

E o que é a oração? Nada, a inutilidade perfeita, dirá o mundo. Tudo. Responde o Papa, guiado pela sua própria razão iluminada pela força da sua fé inquebrantável. Porque sabe e não duvida que essa mesma força moverá montanhas. Pedi e obtereis. Batei e abrir-se-vos-á. Disse o mestre.

E Bento XVI que podia limitar-se a pregar brilhantemente essa doutrina mostra-nos como se faz quando se acredita, como ele, que a barca da Igreja, não é dele, “não é nossa” mas pertence ao próprio Cristo que nunca a abandona.

Já em 2005 o então cardeal Ratzinger, a escassos dias de ser Papa, numa dorida oração da nona estação da via sacra nos falava da sua visão da Igreja como uma barca que parece pronta a afundar-se e “ mete água por todos os lados”. Oito anos depois está agora para todos os cristãos bem mais óbvia a fragilidade da barca e a violência da tempestade. Mas, por mais que as lutas de poder lhe transfigurem o rosto e as suas vestes se sujem com os pecados daqueles que deveriam servi-la, acima de tudo os sacerdotes, como não teme repetir-nos, ainda por estes dias, o próprio Papa, ele é também o primeiro a recordar-nos: descansemos, porque só aparentemente o Senhor dorme.

Para quem via neste Pedro, de hoje, o bom timoneiro capaz de controlar as ondas levando a atribulada embarcação no rumo certo não é fácil entender nem aceitar esta escolha que radica numa confiança absoluta em Deus.

A mudança radical que promoveu este Papa, na luta contra o pecado interno da pedofilia, o que fez para combater os jogos de poder e o desvio de dinheiros, o renovado alento que deu às relações com as outras igrejas irmãs e as outras religiões no mundo, como apelou ao testemunho coerente da alegria da fé, como nos recordou que a beleza e a cultura nos aproximam de Deus e fé e razão são duas aliadas e não duas inimigas, como criticou sem rodeios os vícios capitalistas, se opôs à desregulamentação do mundo do Trabalho e promoveu a Paz! Como em tudo isto parecia ir apenas a meio do bom combate fica naturalmente em aberto um “ e porquê agora?” Pode não ser fácil entender nem aceitar esta escolha que radica numa confiança absoluta em Deus. Tal como nunca será fácil (pelo menos às mulheres) entender a passagem do evangelho em que Jesus visita os amigos Lázaro Marta e Maria e nos diz de forma radical o valor da oração.  Marta afadigada a preparar o almoço para o mestre e para os companheiros reclama junto de Jesus que force a sua irmã a ajudá-la. Esta indiferente à necessidade óbvia de cuidar da refeição prostrou-se aos pés de Jesus tranquilamente a ouvir a sua palavra. À hora de preparar a mesa pôs-se a rezar!

Para os que sabem que as tarefas de Marta também são oração é ainda hoje mais difícil entender a indiferença de Jesus às reclamações de Marta e as suas palavras recriminatórias: Marta, Marta, andas afadigada com muitas coisas e uma só é importante. Maria escolheu a melhor parte e não lhe será tirada!

Hoje, como ontem, ao ouvir as palavras do Papa não é fácil ao mundo entendê-las. Se Marta tivesse a escolha da irmã e se prostrasse como ela em oração aos pés do seu Senhor quem serviria o almoço? Quem serviria a Igreja nascente, naquele grupo de discípulos esfomeados que acompanhavam o mestre na visita aos amigos de Betânia? Como perceber que Maria está a ajudar a irmã contemplando o Senhor?

Que vai agora fazer Bento XVI, despido das honras e vestes do poder? Dar-nos um exemplo de humildade e coragem que impele à mudança. Mas, acima de tudo, mostrar-nos que mesmo hoje, contra todas as lógicas terrenas, é possível ter a sabedoria e confiança suficientes para escolher a melhor parte… que não lhe será tirada!

Graça Franco, em RR!


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