“Sinto vontade de lhe dizer: “Não vás, precisamos de ti””

Bento XVI num momento da sua última aparição pública, que foi acompanhada por vários cardeais GABRIEL BOUYS/AFP

Bento XVI despediu-se de uma “Igreja viva”, numa praça cheia de emoção contida. Lembrou os momentos “de alegria e de luz” e as “águas agitadas” dos seus oito anos de pontificado

Luisa Borgia já tinha estado em São Pedro no funeral de João Paulo II e na sua beatificação. Já tinha visto Bento XVI à janela e naquela mesma cadeira, no altar diante da basílica. Gostou de ter vindo à sua despedida. “O povo católico sabe unir-se quando é preciso. Estivemos nós aqui e sei que estiveram tantos em oração com ele, em todos os cantos do mundo”, diz a professora de Bioética, ao lado do marido e do filho.

Este Papa não voltará a acenar aos fiéis da varanda, não voltará a percorrer a Praça de São Pedro no Papamóvel, acenando com tempo e sorrindo aos que o queiram saudar. Não mais se sentará na cadeira ao centro do altar para falar ao mundo católico nem voltará a erguer-se, de braços levantados e sorriso franco e agradecido, a saborear um longo aplauso.

“Não o vi cansado nem curvado pela idade ou pelo frio. Vi-o abalado, mas pela emoção. É um Papa muito reservado. Mas hoje custou-lhe esconder os sentimentos”, diz Luisa.

Os fiéis viram que se emocionava e emocionaram-se com ele. O último acto público do Papa Bento XVI foi a audiência geral aos bispos de ontem de manhã. Os bispos ocuparam os seus lugares nas escadarias, mas quem encheu a praça de sorrisos e suspiros, de olhares e de silêncios cúmplices, foram dezenas e dezenas de milhares de fiéis comuns, homens de batina e gente só de fé.

“Estou realmente comovido”, disse Bento XVI. “Obrigado, obrigado”, “Obrigado, Santidade”, assim o receberam os fiéis, entre aplausos e agitar de bandeiras, de Itália, do Vaticano, de Portugal, dos Estados Unidos, da Índia, da África do Sul, da Alemanha, de Espanha, do Brasil… “Viva o Papa, viva o Papa!”, assim se despediram, uma hora e meia depois da chegada a São Pedro, que pela última vez percorreu no interior do Papamóvel.

“Não creio que possamos compreender os motivos da sua decisão. Renunciar foi algo que ele teve de fazer… E que nós aceitamos. É um momento profundamente difícil, para o Papa e para o homem”, afirma Luisa.

“Agradeço a todos o respeito e a compreensão com que acolhestes a minha decisão”, ouvira antes Luisa a Bento XVI. Uma escolha “grave” e “rara”, admitiu Ratzinger, mas tomada “com profunda serenidade de espírito”, disse o Papa, que partilhou ter pedido “com insistência a Deus” que o iluminasse para o “fazer tomar a decisão mais justa”. “Não para o meu bem, mas para o bem da Igreja.”

Os homens de fé não estão livres de dúvidas e Ratzginer recordou que já antes duvidara e rezara, a 19 de Abril de 2005. “Senhor, por que me pedes isto? É um grande peso que coloco sobre os ombros. Mas, se me pedes, confio em ti.”

A praça, que o escutou sempre no silêncio quase absoluto, interrompeu para o aplaudir. E de novo, mais à frente, quando disse: “Amar a Igreja significa ter a coragem de fazer escolhas difíceis, sofridas”, disse, antes de evocar “os momentos de alegria e de luz” “e os “momentos não-fáceis” que marcaram o seu pontificado. As “águas agitadas” que também experimentou aos comandos da barca de São Pedro, oito anos de intervenções teóricas e encíclicas sem poder ignorar os escândalos de corrupção e as denúncias de abusos sexuais, a terminarem na explosão da polémica dos documentos roubados que fazem o retrato de uma Cúria dominada por lobbys de interesses antagónicos.

Permanecer na cruz

Eram 10h35 quando o Papa chegou à Praça de São Pedro. Doze horas em ponto em Roma (uma hora a menos em Lisboa) quando desceu do altar e entrou de novo no Papamóvel. Entre a chegada e a partida, foi tempo de comunhão. “O Papa pertence a todos e todos lhe pertencem”, disse. “A minha decisão de renunciar não muda isto. Não abandono a cruz, permaneço nela. Continuarei a dedicar-me à Igreja.”

O guião estava escrito: percorrer a praça no Papamóvel, saudar os fiéis, caminhar até ao altar, sentar-se, ouvir os bispos lerem a Carta de São Paulo aos Colossenses em oito línguas, incluindo o português, discursar aos fiéis, ler a catequese em várias línguas e ouvir, de novo em várias línguas, os agradecimentos dos peregrinos de todo o mundo, rezar o Pai Nosso em latim, pela última vez, regressar ao Papamóvel para as despedidas finais.

O guião não dizia que Bento XVI tivesse de sorrir tanto, que os fiéis que o ouviam de olhos marejados contivessem as lágrimas, que o Papa se demorasse tanto nos acenos, que estivesse comovido e ao mesmo tempo de mãos tão firmes, enquanto segurava as páginas do seu último discurso. O guião até previa a multidão e o céu de azul-claro e manso, o sol quente a temperar o frio de fim de Fevereiro em Roma. As palavras de agradecimento trocadas. Mas não podia prever tantos sorrisos e emoções partilhadas em silêncio.

“Foi muito impressionante. Ver todas estas pessoas com o coração cheio”, diz Utta Graf, ao lado do marido, Jurgen, os dois protestantes de Hamburgo, contentes por estarem em Roma. “É fantástico. Ele trouxe-nos aqui, juntou-nos”, afirma Jurgen. “Estamos aqui em paz, sem pensar em dinheiro ou em problemas. Estamos todos juntos e as caras das pessoas estão brilhantes, não estão muito sérias. Gosto disso”, completa Utta.

O Papa usou o seu último discurso para agradecer, “sobretudo a Deus” e aos presentes. “Eu sempre soube que a barca da Igreja não é nossa, mas é Sua. E o Senhor não a deixa afundar. É ele que a conduz certamente, mesmo que através dos homens que escolhe”, afirmou, tantas vezes interrompido por aplausos. Essa é “uma certeza que nada pode ofuscar”.

A irmã Marianela Cruces chegou cedo, mas preferiu deixar-se ficar ao longe, debaixo das colunas laterais da praça, ora de pé, ora sentada. Não teve de correr, como outras freiras, pela Via della Conciliazione das lojas de recordações, entre polícias de trânsito e voluntários da Cruz Vermelha, funcionários da protecção civil e vendedores de jornais, guias turísticos, padres e gente de bandeira do Vaticano ao pescoço, pessoas embrulhadas nas bandeiras dos seus países, um homem com uma enorme cruz às costas.

A graça dele é a fé

Marianela percorreu devagar o caminho entre a residência onde vive e o Vaticano, e esperou sem pressas para ouvir o Papa. “É uma graça muito especial. Imagino que lhe custe tanto… Expressar o que lhe vai na alma, os seus sentimentos”, diz, feliz por se poder despedir dele, mas a pensar nas suas irmãs, que deixou no Peru. “Agora, é preciso rezar, rezar muito, a pensar nesta grande missão que têm os cardeais. Não é nada fácil, mas o Senhor também se vale dos seus instrumentos para os ajudar.”

A irmã Marianela vai rezar, sabendo que “ninguém rezará” tanto como Bento XVI. “Ele, mais do que ninguém, sabe a situação da Igreja. Ele é um homem santo, tão ligado ao Senhor, tão capaz, tão profundo”, diz. “Que pena que não o podemos ter para sempre! Sinto o desejo de lhe dizer: “Não vás, precisamos de ti”. Mas ele sabe que deve partir. Deixa a convicção de que a Igreja é do Senhor e a graça dele é a fé.”

Marianela nem imagina como terá sido difícil a Ratzinger escolher a renúncia, uma decisão tão pesada que nenhum Papa a ousara desde 1415. “Que força teve até ao último momento!”, diz a freira de 37 anos. “Mas ele está cansado e o Senhor quis que assim fossem as coisas.”

Lembrando as viagens e os peregrinos que encontrou e as cartas que tantos “irmãos e irmãs, e filhos e filhas” lhe escreveram, Bento XVI disse aos fiéis que, “hoje, a Igreja está viva” e que “a Igreja é um corpo vivo”. Um corpo que ele pôde sentir como poucos: experimentar a Igreja deste modo é quase como poder tocar-lhe com as mãos.”

Marianela emocionou-se com as suas palavras, André, seminarista brasileiro de 33 anos, comoveu-se ao “ver bandeiras de todo o mundo” e “o Papa, com toda a sua humildade”. Pascal Fomonyuy, franciscano dos Camarões a estudar em Roma, ficou com os olhos ainda mais brilhantes e o sorriso ainda mais rasgado.

Antes de se despedir, o homem que hoje pelas 20h deixará de ser Papa disse que rezará “pelos cardeais chamados a uma escolha difícil” e pelo sucessor”. Depois, pediu a todos para nunca perderem a fé. “Cada um de nós vive alegre, na certeza de que o Senhor está por perto, nunca nos abandona, está junto de nós com o seu amor. Obrigado.”

As mãos dos fiéis, muitas antes quietas e pousadas sobre o peito, puderam então aplaudir sem interrupções. Até a voz do Papa se voltar a ouvir, no Pai Nosso em latim, e a praça a rezar com ele, baixinho. Bento XVI sorriu e a praça aplaudiu de novo. Dois minutos durou o sorriso, um pouco mais os aplausos, os cardeais de pé, o resto da praça a gritar “Obrigado!” e “Viva o Papa!”.

“Nunca estarás sozinho”, lia-se num dos cartazes com mensagens para o Papa. “Que viva o Papa, que viva o Papa!”, gritou-se por fim, entre mais sorrisos e trocas de abraços. “Bento, Bento, Bento!”

“Foi um momento muito difícil para ele, cheio de amor e de dor”, diz Pascal. “O que posso fazer faço, o que não posso não faço.” Foi esta, para o frade de 36 anos, a lição de Ratzinger. Pascal vê-o “como um profeta vivo”, mas despede-se com “tranquilidade” e cheio de “encorajamento”. Agora, resta esperar pelo sucessor: “A Igreja é de Cristo, não é de Bento”.

Se pudesse falar-lhe na sua última audiência, Pascal teria poucas palavras para Bento XVI. “Coragem. Obrigado. Amo-te.” Hoje, alguns dos que ontem encheram a Praça de São Pedro voltarão para viver de perto os últimos momentos deste pontificado. André, o seminarista do estado da Paraíba, vai ficar em casa. “Vou subir ao terraço e ficar lá a olhar o helicóptero e a rezar por ele. Ele disse que vai subir o monte e nós estamos a subir o monte com ele.”

SOFIA LORENA, EM ROMA|Público|28/02/2013


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