Assim Bento XVI revelou o seu coração. Artigo de Enzo Bianchi

©REUTERS/Alessandro Bianchi

©REUTERS/Alessandro Bianchi

Havia a necessidade desse testamento. Se o coração de muitos católicos havia sido profundamente abalado pela repentina renúncia de Bento XVI ao ministério petrino, as suas palavras na última audiência pública na Praça de São Pedro iluminaram ainda mais aquela decisão.

Foi significativa a escolha do trecho da Carta aos cristãos de Colossos, em que o apóstolo Paulo dá graças a Deus pelo testemunho oferecido por aquela comunidade: uma escolha feita pelo papa para poder expressar, na linha das palavras apostólicas, o seu agradecimento ao Senhor e à Igreja pela sua fé e pela sua caridade.

Esse discurso revela bem o coração de Bento XVI: há oito anos, ele aceitou com verdadeira obediência se tornar papa, fazendo ao Senhor uma pergunta: “Por que me pedes isto?”. Aos 78 anos, ele estava consciente da sua própria velhice, de não ter feito nada para ser eleito, de ter que “fazer um trabalho” duro e cansativo. Foi chamado a guiar um navio em mar agitado – um mar às vezes também em tempestade – e voltado para uma meta com os ventos contrários. Hoje, com a sua fé, ele confessa que nunca se sentiu sozinho, nem mesmo quando o Senhor parecia dormir, e alguns barqueiros não ajudavam a manter a rota, mas faziam confusão.

A fé sólida que ele sempre teve o faz dizer que ele não se sentiu sozinho, e ele havia dito isso em um momento crítico vivido na sua cúria, embora na realidade a solidão faça parte de quem preside uma Igreja com uma responsabilidade própria e única como a do bispo de Roma. Durante o seu pontificado, porém, ele sempre insistiu no fato de que os católicos devem crer e creem que a Igreja é de Cristo, não é nem do papa, nem dos cardeais, nem dos bispos, nem de qualquer “personagem católico”.

Essa distinção entre pessoa e serviço levaram o papa à renúncia, evento novo e grave – segundo as palavras do papa –, mas ditado pelo seu amor à Igreja. Aquilo que ele dizia sobre o descentramento necessário a toda autoridade na Igreja com relação ao Senhor Jesus Cristo, o papa também o realizou e o mostrou concretamente.

E aqui nos é dada uma demonstração do que significa obedecer à voz de Deus presente na consciência de cada pessoa: Bento XVI rezou, pediu a luz divina, depois tentou julgar se a escolha vinha por amor à Igreja ou por amor a si mesmo, avaliou se estava realmente na lógica do bem comum, do bem máximo da Igreja, a comunhão, e portanto, com decisão, firmeza, parrésia, isto é, franqueza, manifestou o que lhe havia sido pedido a partir do santuário da sua consciência.

Nestes dias, depois do ato da sua renúncia, sucedem-se muitas interpretações sobre o porquê dessa decisão. Acredito que é bom aceitá-la nos termos afirmados e reiterados por ele mesmo. É um papa que nunca usou a mentira, sempre considerada por ele como um das três interditos fundamentais da ética humana e cristã.

Com o discurso na última audiência, Bento XVI nos deixa um testamento, cheio de fé e de esperança, oferecido sem uma liturgia de triunfo, sem nenhuma autocelebração, sem uma despedida cenográfica e de “grande evento” espetacular. Um testemunho que nos lembra que só “a palavra de verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida”.

Eu conheci o teólogo Ratzinger, depois o cardeal e, pouco após a sua eleição, tive uma longa audiência em que pude ouvi-lo e ler junto com ele alguns temas eclesiais urgentes: o ecumenismo e a vida religiosa. Depois, encontrei-o outras vezes, encontrando nele sempre afeto e atenção, além da benevolência com a qual quis me nomear como especialista em dois sínodos gerais dos bispos.

A última vez me surpreendei, cumprimentando-me quando eu ainda estava distante: “Ah, eis um velho conhecido, o prior de Bose!”. Ele também me expressou um desejo que eu espero que possa satisfazer, embora ele não seja mais o papa, mas permanecerá sempre um como um testemunho do senhorio de Cristo e de ninguém mais.

Não sou um adulador, mas expresso a Bento XVI um “obrigado” convicto pela sua fé e pela sua humildade, por aquilo que ele foi em toda a sua vida de cristão, de teólogo, de bispo e de cardeal, por aqueles que foram os seus oito anos como papa e pelo seu gesto de renúncia que ajudará todos também a ter uma visão do primado petrino mais aderente ao Evangelho, que quer que o papa seja “humilde sucessor do Pescador da Galileia” e “servo dos servos do Senhor”.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 28-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Lido aqui!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s