Católicos no mundo olham para a transição

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Católicos dos EUA, Brasil, Nigéria e Filipinas falam sobre a renúncia de Bento XVI e os desafios que esperam o próximo Papa

No Brasil, o país com mais católicos no mundo, a notícia da renúncia do Papa Bento XVI foi recebida com surpresa. Na Nigéria, onde há um cardeal apontado como favorito para ser o próximo Papa, também. Nas Filipinas, idem aspas. Mas, nos Estados Unidos, o padre Thomas Reese não se surpreendeu. “Já tinha previsto que no século XXI teríamos um Papa que poderia renunciar. Por uma razão muito simples: a medicina moderna consegue manter um corpo vivo”, diz o também director do programa de Religião e Políticas Públicas do Centro Teológico de Woodstock da Universidade de Georgetown. “Ser Papa é um trabalho difícil, física e mentalmente. Era inevitável que acontecesse a renúncia.” Apostas sobre quem será o novo Papa? Nenhum dos católicos com quem falámos, nas Filipinas, na Nigéria, no Brasil, nos Estados Unidos, ousa fazê-las. Mas dão pistas.

Thomas Reese viu a decisão do Papa como “muito corajosa, humilde”. Autor de livros como Archbishop: Inside the Power Structure of the American Catholic Church, ou Inside the Vatican: The Politics and Organization of the Catholic Church, Reese é católico como 24% da população americana – o que faz quase 75 milhões, e dos EUA o quarto país com mais católicos, dados de 2011, actualizados em 2013, do think tank Pew Research Center (de quem usámos todas as estatísticas deste artigo).

Estes são, aliás, adjectivos referidos também pelo arcebispo de Jos, na Nigéria, D. Ignatius Ayau Kaigama, pelo padre da conferência episcopal das Filipinas Francis Lucas, pelo padre na Diocese de São Paulo Denilson Geraldo, e pelo arcebispo de Brasília D. Sérgio da Rocha. Não há muitas diferenças nas descrições que fazem da forma como os católicos dos seus países estão a viver este momento. “Embora fisicamente frágil, Bento XVI mostrou-se espiritualmente forte”, diz o arcebispo Sérgio da Rocha, pois só “um homem forte, de convicções profundas e generoso, seria capaz de assumir tamanho sacrifício pelo bem da Igreja”. Acrescenta que em Brasília têm sido celebradas missas pelo Papa e as “manifestações de gratidão” têm sido constantes.

Os escândalos de abusos sexuais de menores que foram sendo revelados recentemente exigem “uma presença e administração eclesiástica bastante firme”, defende o padre Denilson Geraldo. “Isso é uma evidência. A administração eclesiástica não pode de modo algum fechar os olhos e fazer de conta que não é da sua competência. Exige uma atitude firme e clara, todas as denúncias têm que ser averiguadas.”

Com um catolicismo marcado pela “necessidade do povo, devido a situações de pobreza e miséria”, continua Denilson Geraldo, o Brasil tem a especificidade de ter uma Igreja “muito actuante e muito presente no mundo da política”, descreve. “O padre é sempre uma referência para a sua comunidade, tem uma interacção social na comunidade religiosa e na sociedade civil.”

Na Nigéria, o papel da Igreja, em crescimento na África, não tem sido muito diferente. D. Ignatius Ayau Kaigama lembra que sem ela “não teria ido à escola, estaria perdido”. Fala disso para sublinhar que os media dão demasiada enfâse aos escândalos na hora de saída de Bento XVI. “Até na Igreja há humanidade e divino, mas infelizmente o mundo secular só se foca no lado humano.”

Com quase 76 milhões de católicos, 81,4% da população, as Filipinas são o terceiro país com o maior número de membros desta religião. Bento XVI abriu uma porta, e deu uma grande lição, ao “abdicar do poder”, mudando a concepção de “poder, serviço, Igreja”, diz Francis Lucas. O cardeal filipino Luis Tagle, um dos mais novos, com 55 anos, tem estado na lista dos “papáveis”. Francis Lucas defende que é preciso uma mudança no sínodo e diz que a comunicação com os fiéis deve ser uma prioridade. Nas Filipinas, as igrejas estão cheias de gente aos domingos, a juventude continua a ir à missa, a devoção aos santos continua a existir, o que “é muito importante para o futuro da Igreja.” A Ásia é, de resto, outra zona do globo onde o catolicismo continua a crescer, ao mesmo tempo que na Europa os números descem.

O padre filipino acredita que a renúncia abrirá portas: “Qual será a nova tradição que emerge do facto de o Papa aceitar a sua fraqueza? Direi que terá impacto no significado do exercício do poder e do serviço dos líderes da Igreja. Até no estatuto da autoridade: Bento XVI tem dito que temos que fazer as coisas a partir de um lugar de humildade.”

Para Thomas Reese, o gesto de Bento XVI não deverá trazer mudanças porque “ordenou quase 60% dos cardeais que vão escolher o Papa, e eles vão escolher quem concorda com ele na maioria dos temas que dizem respeito à Igreja.”

Nos Estados Unidos, os escândalos de abusos sexuais de menores, com a polémica sobre o cardeal Roger Mahony, acusado de encobrir alguns casos, teve “um impacto desastroso.” “Foi a pior coisa que aconteceu à Igreja Católica nos Estados Unidos, primeiro para as vítimas – a Igreja deve ajoelhar-se e pedir desculpa, desculpa, desculpa, desculpa”, diz. Da sua perspectiva americana, o grande desafio para o novo Papa será na forma como “prega o Evangelho de modo a ser perceptível e atraente para as pessoas do século XXI”. “Não podemos continuar a repetir as fórmulas teológicas do passado. A Igreja precisa de levar a sério a evolução, a ciência, a economia, os problemas económicos e políticos e ambientais e o papel das mulheres.”

O grande desafio do próximo Papa é, para D. Ignatius Kaigama, “trazer as pessoas de volta a Deus”, essa deve ser a prioridade porque o Papa “não deve fazer as coisas para agradar um mundo secular” que quer uma Igreja à sua imagem, quando “a Igreja não é democrática.” “O próximo Papa deve assegurar a unidade da Igreja”, independentemente de ser italiano, nigeriano ou filipino.

D. Sérgio da Rocha, que fala da “descristianização da Europa”, defende que é necessário um “diálogo com as outras Igrejas cristãs sobre o futuro do Cristianismo no continente europeu, pois o problema não se restringe à Igreja Católica”. Defende também que um dos desafios do novo Papa é o diálogo “amplo no interior da Igreja e na sociedade globalizada, na perspectiva proposta pelo Concílio Vaticano II”. “A administração da Cúria Romana e o enfrentar problemas internos da Igreja não podem implicar um fechamento intra-eclesial, mas devem ser acompanhados de atitude de abertura, diálogo e serviço num mundo globalizado”.

E quem deve ser o novo Papa? Se tivesse que escolher um tipo de personalidade, Thomas Reese diria que seria alguém “com capacidades diplomáticas, empenhado no consenso, que saiba como unir as pessoas”: “Seria uma boa mudança. Há temas demasiado grandes e complexos na Igreja para serem resolvidos por uma única pessoa, e a Igreja tornou-se demasiado dividida.”

Francis Lucas responde: “Deveria ser um Papa que não se preocupe apenas com a Itália, Roma e a Europa, mas que perceba as necessidades do Terceiro Mundo, porque temos proclamado que a Igreja é a Igreja dos pobres, que precisam de ajuda e de amor.”

E que Papa imagina o Brasil? Pode ser mais novo, pode ser não-europeu, pode ser de África ou do Brasil, mas isso são factores “secundários”, diz Denilson. “Seja um Papa europeu, latino-americano, africano, a missão vai ser sempre universal.”

|Público|01/03/13


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