Uma sensação de vazio na despedida de Bento XVI

Bento XVI despediu-se ontem dos cardeais que irão escolher o próximo Papa ©REUTERS/OSSERVATORE ROMANO

Antes de deixar vazia a cadeira de Pedro, Bento XVI prometeu obedecer ao sucessor e lembrou os “momentos em que houve nuvens no céu”. Os fiéis despediram-se com lágrimas

No dia em que o Papa passou a ser “um simples peregrino”, houve católicos de coração apertado e sem poderem conter as lágrimas, invadidos por “um vazio difícil de explicar”. Pessoas que nunca mais esquecerão os momentos que passaram na Praça de S. Pedro, os últimos sorrisos e acenos de Bento XVI, as suas últimas palavras enquanto Sumo Pontífice.

Ana, Sandra e João Emanuel não sabiam se chegariam a tempo, mas algo lhes disse que tinham de tentar. “Viemos hoje de Portugal e há uma hora e meia não sabíamos se conseguiríamos…”, conta Sandra. “Saímos de Portugal num grupo de 15 pessoas e estamos aqui três”, diz João. Não se conheciam. “É como se tivéssemos sido chamados. Tínhamos de estar aqui os três”, completa Sandra. “Bem-haja este momento”, diz Ana.

Neste momento, o Papa já deixou o Vaticano. Os três portugueses esperaram por vê-lo sair do Palácio Apostólico, caminhar até à rua e depois, de carro, até ao helicóptero que o fez sobrevoar Roma e o levou até Castel Gandolfo, onde viverá nos próximos dois meses, até voltar ao Vaticano, para o mosteiro onde passará a viver. Ainda esperam para vê-lo aterrar e despedir-se.

Como todos os outros que fizeram questão de estar em S. Pedro, os portugueses só arredarão pé quando Bento XVI disser as suas últimas palavras, quando os sinos de Roma se calarem por fim.

Vê-lo partir dali, de tão perto, foi “emocionante”, diz Daniele, luxemburguesa que veio com o marido e com uma amiga só para não deixar de “estar aqui na sua despedida”. “Viemos para nos despedir, depois de termos estado em tantas das suas audiências”, diz Daniele, de 56 anos, bandeira do Vaticano erguida no ar.

O Papa despediu-se do Vaticano a vê-lo de cima e foram muitos os cartazes trazidos para o acompanhar. Muitos “obrigado” em línguas diferentes, frases a dizer-lhe que “continuarás sempre connosco”.

Na quarta-feira, quando uma multidão encheu a praça e o Papa sorriu e rezou, uma parte de Roma parou. Ontem, nem tanto. A multidão diluiu-se em poucos milhares – mais aguardavam em Castel Gandolfo – e a vida da cidade em redor do Vaticano continuou.

Em S. Pedro, o mesmo silêncio, quase intimidante, com que os fiéis presenciaram a saída de Ratzinger, foi interrompido para aplausos a cada passo da despedida e gritos de “Viva o Papa”, “Bento, Bento, Bento” e “Obrigado”.

A partida estava prevista para as 17h [hora de Roma, menos uma hora que em Lisboa], iniciou-se às 16h53, quando as primeiras imagens do Papa surgiram nos ecrãs em S. Pedro. O helicóptero só levantou às 17h07, quando os sinos já soavam. Pelo meio, Bento XVI caminhou apoiado pela sua bengala, ainda com os sapatos vermelhos calçados, foi saudado por cardeais e viu como o motorista que o conduziria até ao helicóptero se ajoelhava para se despedir em pranto. Na praça, muitos não continham as lágrimas.

Só quando o helicóptero da República Italiana levantou do chão é que os olhos dos fiéis se afastaram dos ecrãs. Saudaram-no uma primeira vez, por breves momentos, a vê-lo desaparecer atrás dos sinos. E uma segunda, mais prolongada, a deixar-se ver até atravessar o rio Tibre, antes de sobrevoar o Coliseu e deixar Roma para trás com a luz do entardecer.

“Ter podido despedir-me de Sua Santidade vai marcar o resto da minha vida”, diz Sandra, a portuguesa de 41 anos. “Agora existe uma sensação de grande vazio. É como um pai que parte e abandona os filhos. É como eu me sinto.”

Carlota Smeds, sueca a viver há 20 anos em Roma, tem ao colo o filho e nos olhos, vermelhos, tenta a custo segurar as lágrimas. “Viemos para lhe dizer que estamos com ele, que o amamos e lhe agradecemos. Para saudar o nosso amado Papa”, diz, de si e da amiga, chegada há poucos dias da Suécia. “Sinto-me triste e vazia… Ontem, havia tanta alegria. Hoje, há muita tristeza, é um vazio difícil de explicar.”

Bento XVI deixou o Vaticano depois de uma manhã em que prometeu “obediência incondicional” ao sucessor, o primeiro Papa em 600 anos a conviver com um ex-Papa vivo, durante uma cerimónia de adeus aos cardeais que irão escolher o próximo Pontífice. Como na véspera, evocou “momentos em que houve nuvens no céu”, sem poder esquecer os escândalos de corrupção, as denúncias de abusos sexuais e a polémica dos documentos que revelam a existência de um ninho de intrigas no Vaticano.

Os fiéis reunidos na Praça de S. Pedro para o ver partir ainda o puderam ouvir e aplaudir uma vez mais, quando, às 17h37, assomou à varanda de Castel Gandolfo.

“Obrigado, obrigado do coração”, disse Bento XVI. “Caros amigos, estou feliz por estar convosco.” E depois, entre aplausos e gritos de “obrigado”: “Como sabem, este dia é diferente. Só serei o Sumo Pontífice da Igreja Católica até às 20h. Depois não serei mais o Papa, mas um simples peregrino que termina a sua peregrinação nesta terra.”

À hora marcada, os guardas suí-ços deixaram os seus lugares, no Vaticano, e o cardeal Tarcisio Bertone, camerlengo, assumiu o comando temporário da Igreja depois de destruir o anel com o selo papal. À hora marcada, iniciou-se o período de sede vacante e o Papa vivo assumiu o título de “Papa emérito”.

“Boa noite. Obrigado a todos”, foram as últimas palavras de Ratzinger Papa aos fiéis. Hoje, acordou já livre do peso que aceitou carregar em 2005, sabendo que dificilmente será “um simples peregrino”.

SOFIA LORENA, EM ROMA|Público|01/03/2013


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