Jejum: itinerário para a Páscoa

Uma prática que se repete desde os primórdios do cristianismo

©patiodosgentios

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01/mar/2013 (Zenit.org)O tempo da Quaresma, que vivemos junto com a Campanha da Fraternidade da Juventude, está sendo muito especial! Acontecimentos inéditos como a renúncia do Papa Bento XVI comoveu o mundo. Nós, porém, não podemos perder a ocasião para nossa conversão. Se já temos essa caminhada quaresmal de conversão em toda a Quaresma, agora temos ainda mais sinais que nos chamam a renovar a vida. Uma das práticas quaresmais é o jejum.

A Quaresma nos leva a renovar o nosso batismo e nos conduz à Páscoa. É um itinerário que prepara para a Noite Santa da Vigília Pascal, na qual celebramos a ressurreição de Cristo. Os exercícios quaresmais não visam um desprezo pelo corpo. Mas antes querem ser uma reflexão sobre a vida humana, suas vontades e orientações. Para onde estou direcionando minha vida?

Uma das propostas da Igreja para este rico tempo da espiritualidade litúrgica é o jejum. Embora o jejum seja uma prática muito antiga (faz parte da cultura religiosa de vários povos), porém o jejum praticado pelos cristãos tem suas raízes na experiência do povo de Deus. Ainda existem muitas pessoas que têm dúvidas em relação a esta prática cristã.

O primeiro ponto a ser refletido refere-se à natureza humana. Pelo pecado o homem se torna um ser ‘ferido’ que necessita de cura. Sua natureza criada por Deus com graça original, com o pecado torna-o um ser que tende para não vivenciar a graça. Os gestos e o próprio ser do homem trazem a marca do pecado, da quebra da comunhão com Deus, com os outros e consigo mesmo. Mas sabemos que a graça superabunda no homem. Devido à tendência da natureza humana “decaída”, tal intento não se concretizará se o homem não tiver aprendido, através da força da graça redentora de Cristo, a vencer-se a si mesmo. Ora, um desses meios de mortificação é precisamente o jejum. Ele não pode ser fim em si mesmo e nem se esgotar nos exercícios, como abstinência de alimentos. São Leão Magno nos recorda que, “aquilo que cada cristão deve praticar em todo o tempo, deve pratica-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas, sobretudo abstendo-se do pecado”. O Jejum é meio para a pessoa se libertar do domínio da carne e aceitar sobre si o domínio de Cristo. Espaço para a ascese, que nos ajuda a dominar as desordens das paixões e estimula o compromisso concreto com Deus e com o próximo. Além de que, a Igreja não recomenda somente o jejum neste tempo quaresmal; fazem parte também da vida de mortificação e penitência dos cristãos a oração e a esmola, que traduzimos por caridade feita ao outro. O tema da caridade foi justamente o da quaresma deste ano aprofundando a fé no Deus amor que nos conduz para amar os irmãos e irmãs com todas as consequências. Em síntese, esses sinais exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros.

O jejum é em sua essência um antídoto que a Igreja nos oferece para combater em nós toda inclinação de satisfação de nossas vontades, sejam corporais ou não. Não nos esqueçamos de que pelo pecado o homem está como que ‘ferido’, ou seja, necessitado da cura – que não é o jejum, mas Cristo. O jejum nos ajuda a buscar nossa configuração maior a Cristo. Portanto, a Quaresma, com suas práticas e exigências para uma autêntica vida cristã, irradia a força da graça divina, encorajando a todos, homens e mulheres, crianças e jovens a uma caminhada na fé, peregrinando sob a tutela da Igreja, a qual Cristo, seu Esposo, ornou com dons os mais diversos, para que todos possam encontrar nela o Senhor de suas vidas.

Aproveitemos este tempo de conversão que o Ano Litúrgico nos apresenta e abramo-nos à graça redentora de Cristo para chegarmos alegremente às comemorações de sua Páscoa. Assim ensina-nos o grande teólogo, Santo Agostinho: “Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não se pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza o nosso progresso, e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigos e tentações”. Por isso neste tempo propício somos ajudados no combate com os meios que nos dispõe a Santa Igreja: o jejum, a oração e a esmola.

Tudo isso deve nos conduzir a uma celebração penitencial que nos faz experimentar a misericórdia de Deus e renova a nossa vida cristã. Essa prática não pode faltar na Quaresma, e é um dom para todos nós. As práticas quaresmais devem nos renovar, e só se concretizarão ao recebermos a absolvição de nossos pecados.

Que tenhamos uma santa Quaresma e caminhemos pressurosos para celebrar, com corações renovados, a Páscoa do Senhor!

          † Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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