O testamento do Papa Bento XVI

©Reuters/Osservatoreromano

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Agora, é apenas Papa emérito. Mas que ninguém se preocupe com os dois Papas vivos, pois Ratzinger retirou-se, para rezar, meditar, ouvir e tocar música, investigar, “desaparecendo” para o mundo.

Joseph Ratzinger também teve o seu momento de rebeldia e de progressismo, no Concílio Vaticano II. Chegou a dizer nas aulas, em Tubinga: “em Roma, como sabem, não se faz boa Teologia.” Durou pouco tempo esse tempo. A sua orientação teológica agostiniana – Santo Agostinho não tinha em muito boa consideração o mundo – inclinava-o mais para uma visão conservadora. A mudança teve como ponto decisivo os excessos de 1968, com o radicalismo ateu dos estudantes de Teologia.

Reconhecido pela sua inteligência brilhante e uma rara cultura – dialogou com grandes intelectuais, incluindo Jürgen Habermas -, é mais um intelectual e um professor do que um pastor. As circunstâncias quiseram que este homem afável, tímido, “honesto, íntegro e encantador no trato pessoal”, como reconhece também o teólogo J. I. González Faus, deixasse a vida académica, se tornasse arcebispo de Munique, seguisse para Roma como “inquisidor”, condenando muitas dezenas de teólogos e a Teologia da Libertação, e se tornasse Papa – quando aconteceu a eleição, lembrou-se da guilhotina.

Deixa três encíclicas: a primeira, para dizer que a verdadeira “definição” de Deus é que é Amor; a segunda, para convocar os cristãos e todos os homens à esperança; a terceira é sobre “a caridade (o amor) na verdade”. Nela, condena as posições neoliberais, cujo único objectivo é o lucro; reafirma a doutrina essencial de que a economia e o desenvolvimento só são verdadeiros se estiverem ao serviço do homem todo e de todos os homens; que, em ordem ao seu correcto funcionamento, a economia precisa da ética, “uma ética amiga da pessoa”; que, para conseguir o governo da economia mundial, o desarmamento, a segurança alimentar e a paz, a salvaguarda do meio ambiente e a regulação dos fluxos migratórios, “urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos”.

Ideia nuclear é a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer. No cristianismo, acolhe-se a fé, dando lugar à descoberta do “Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor”. Aí está o vínculo indissolúvel entre Razão, Verdade e Bem.

Na Sexta-Feira Santa de 2005, ainda cardeal, disse aquelas palavras: “quanto sujidade na Igreja! A traição dos discípulos fere mais Jesus.” Referia-se certamente ao escândalo da pedofilia, à figura sinistra do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, ao que se passava na Cúria. Quando assumiu funções, foi exemplar, pondo Maciel fora da vida pública, pedindo perdão às vítimas da pedofilia e tomando medidas drásticas e consistentes, para que os crimes se não repitam.

Não conseguiu reformar a Cúria nem pôr termo às intrigas, ao carreirismo, às lutas pelo poder, aos escândalos, desde a corrupção à lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano e ao Vatileaks. Sem forças “no corpo e no espírito”, renunciou, “em consciência e plena liberdade”, para que outro lhe suceda.

Foi talvez a lição maior de Joseph Ratzinger enquanto Papa. Houve quem o criticasse, também dentro da Igreja e pensando em João Paulo II: que não se desce da Cruz e que dessacralizou o papado. Mas, afinal, o Papa é mais do que um homem? Não se trata tão-só de um cristão que leva consigo a específica missão gigantesca de ser sinal e promotor de unidade entre os cristãos e a Humanidade?

Este é o seu testamento: abandona pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço. O Deus cristão não se revela como Poder-Dominação, mas Força Infinita de criar no Amor. Bento XVI leu e recomendou que todos os Papas lessem a famosa carta de São Bernardo ao Papa Eugénio III: “Não pareces um sucessor de Pedro, mas de Constantino.”

DN|Anselmo Borges|02/mar/2013


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