Aura Miguel: ‘Vejo o Angelus no iPhone’

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[Telma Miguel|Sol|05/mar/2013] Licenciada em Direito, com especialização em Ciências da Comunicação, estreou-se como jornalista em A Tarde. Depois de uma breve passagem pelo Semanário, dirigido também por Victor Cunha Rego, entrou na Rádio Renascença. Está nesta emissora desde 1985 e em 1990 obteve a acreditação junto do Vaticano. Tem 54 anos.

É ‘o único jornalista português’ com acreditação no Vaticano [n.r.: O jornalista Octávio Carmo, da Agência Ecclesia, também tem creditação permanente junto da Santa Sé, desde abril de 2011], tendo feito 75 viagens com os dois papas. A adrenalina da rádio roubou-a à carreira diplomática. Viu a audiência de despedida de Bento XVI como um momento de luz, oposto ao «rosto sujo da Igreja».

É a única portuguesa acreditada no Vaticano. Como conseguiu?

Entre o pedido e a resposta, que veio em 1990, passaram-se dois anos. Mas nunca é explicado porquê. Sei que fazem um período de acompanhamento do trabalho do jornalista e imagino que seja avaliado o grau de representatividade do órgão de comunicação social. Não tem nada a ver com o facto de o jornalista ser católico ou não. Aliás, a maioria dos jornalistas vaticanistas não o são. Um dos jornalistas mais sabedores sobre o Vaticano que conheço, um colega da Associated Press, a quem recorro quando tenho dúvidas, é judeu.

Como foi no seu caso?

A Rádio Renascença (RR), em 1986 – quando comecei – optou por ter um jornalista a acompanhar o Papa João Paulo II, que era muito inovador no estilo de pontificado. Foi ele que inaugurou as viagens pelo mundo e isso tinha muito interesse de reportagem. E havia outros motivos: era polaco, vinha de um regime comunista. O primeiro grande acontecimento que cobri foi o famoso encontro mundial de oração pela paz em Assis e depois fui à Polónia com ele. E então, houve uma espécie de percurso de consciência da RR de que ter uma jornalista a acompanhar as actividades do Papa era interessante. E depois pensou-se na acreditação. Nessa altura a Igreja não era um tema jornalístico sequer. Lembro-me de ir a Fátima e de fazer muita impressão aos bispos a presença de uma jornalista. Não havia a cobertura mediática de agora.

Qual a vantagem da acreditação?

Abre muitas portas. Desde poder viajar com o Papa, a ter uma password para aceder aos discursos com antecedência.

Há muita comunicação do Vaticano para fora?

Todos os domingos vejo o Angelus no meu iPhone, e eles fornecem um boletim diário onde estão os actos e as decisões oficiais. Depois, é certo, temos que explorar o lado não oficial. E isso exige muito tempo e paciência, o estilo de comunicação da Igreja não é igual ao de um partido político ou de um Governo. É preciso saber esperar e ler nas entrelinhas.

Como é a assessoria de imprensa do Vaticano?

É uma equipa vasta. João Paulo II percebeu que a comunicação era muito importante e chamou dois jornalistas leigos, um para dirigir o L’Osservatore Romano outro para a sala de imprensa. O do L’Osservatore Romano não se aguentou lá muito, porque a passada da Igreja é muito lenta e para um jornalista é complicado viver sem adrenalina. Mas o outro, Joaquin Navarro Vales, um espanhol, psiquiatra de formação que em jovem tinha sido toureiro e actor, foi um porta-voz brilhante que fez passar a comunicação de uma forma mais ‘normal’. Bento XVI não quis investir tanto na comunicação e confiou essa tarefa a um padre jesuíta de mais de 60 anos.

Tornou-se difícil obter informação?

A nível oficial, passámos de um leigo que fora actor a um padre jesuíta, mas o porta-voz o que faz é apenas passar uma mensagem. O jornalista tem que investigar pelos seus meios e isso não mudou.

Sendo vaticanista isso permite-lhe viajar muito. Foi isso que a atraiu?

Estudei Direito, embora não tivesse vocação para advogada ou juíza. Pensava explorar o filão da carreira diplomática porque isso me permitia viajar. Comecei a trabalhar como jornalista enquanto esperava pelo exame de admissão para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Quando passei para a RR fiquei cativada pela adrenalina da rádio. E percebi que na carreira diplomática até podia ter azar com o embaixador que me calhasse. Não foi planeado e cá estou, após mais de 25 anos, e 75 viagens com os dois Papas.

Qual é o protocolo nas viagens?

Há regras tácitas. Antes da primeira vez que entrei num avião com o Papa fui chamada pelo assessor, que ainda lá está, e que é um pouco aterrorizador para os que começam, porque tem que ter um pulso de ferro, para aguentar os cerca de 60 jornalistas. Ele disse-me: «Há uma palavra obscena que nunca podes dizer: ‘porquê’». Sabemos que é inútil perguntar porque temos que apanhar o avião às 5h da manhã para uma missa que é horas depois. É assim e pronto. Também nunca explicam o critério de escolha dos jornalistas para as viagens. Vamos ou não.

Pode-se perguntar porquê a um Papa?

Sim, claro. Mas não é fácil ter uma entrevista exclusiva. Entrevistei o Bento XVI enquanto cardeal e tive a sorte de conviver com ele num almoço quando ele veio a Portugal com João Paulo II.

O que foi o melhor e o pior do pontificado de Bento XVI?

Foi pena não ter investido na comunicação, para que se conhecessem as reformas muito corajosas que desencadeou. Os católicos da Velha Europa estão presos a uma fé sentimental e ingénua, baseada em motivações infantis. Este Papa disse que era preciso desenvolver as motivações racionais de adesão à fé. E em alguns aspectos foi muito moderno. Todas as quartas, depois das audiências, enviava tweets com frases muito directas e de grande utilidade para viver a fé. Tive que ir abrir uma conta de Twitter para poder segui-lo. Os aspectos negativos não foram desencadeados por ele, têm a ver com o momento que a Igreja viveu, desde os graves escândalos de pedofilia, ao último golpe, que o terá afectado muito, do roubo dos documentos por parte do mordomo.

Qual o impacto de notícias sobre o alegado assédio de D. Carlos Azevedo?

Existe um «rosto sujo da Igreja», como dizia Ratzinger, mas chegámos a uma fase em que a Igreja é sobretudo retratada como museu de horrores. Sempre que os cardeais se reúnem para votar um papa há movimentações, que antes vinham das grandes potências e hoje chegam dos media. Mas além deste lado negativo, há uma luminosidade da Igreja que ficou bem patente na última audiência de Bento XVI. Faço isto há mais de 20 anos e as manifestações com o Papa são sempre de festa. Na quarta-feira havia uma nostalgia estranha: um Papa que se vai embora amado por 200 mil pessoas. Esta luminosidade é também uma maneira de definir a Igreja.


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