Preparados para escolher um novo Papa

ARTURO MARI/AFP

[Sofia Lorena|Público|12/03/2013]Não, hoje não haverá “fumo branco” no Vaticano, mas já haverá fumo, quando tiverem passado alguns minutos das oito da noite em Roma. Hoje, abre o primeiro conclave em 600 anos depois da renúncia de um Papa. Bento XVI será o grande ausente presente de muitas formas: para além da força da própria renúncia, foi Ratzinger que nomeou 67 dos 115 cardeais e foi ele que definiu parte das regras do jogo, através das emendas à Constituição Apostólica, em 2007, e das leis que reafirmou ou introduziu no Motu Proprio de dia 25 de Fevereiro.

Antes do conclave, durante a manhã, haverá a Santa Missa Pro eligendo Romano Pontifice, presidida pelo decano do Colégio Cardinalício, Angelo Sodano, e aberta aos fiéis que couberem na Basílica de S. Pedro. À tarde, pelas 16h30, os cardeais sairão por fim em procissão da Capela Paulina até chegarem à Capela Sistina. O ritual dura perto de uma hora e acaba quando o maltês Prosper Grech rezar a extra omnes (todos fora), último acto antes do encerramento das portas.

Debaixo do tecto de Miguel Ângelo não se debate, só se vota. E assim acontecerá, uma vez mais, até que 77 cardeais, dois terços dos eleitores, tenham escrito o mesmo nome nas folhas de voto.

“O primeiro fumo dificilmente será positivo, tratando-se da primeira votação”, disse o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, na conferência de imprensa que se seguiu à última das dez congregações gerais, os encontros de pré-conclave abertos a todos os cardeais (mesmo aos que não votam) e onde tudo se pode discutir.

A primeira votação funciona como as eleições primárias de um partido e serve para identificar candidatos. A partir daí, tudo depende do número de pretendentes com hipóteses de aceder ao trono e da quantidade de apoios com que chegam ao conclave. Nos últimos 167 anos nenhum conclave durou mais de cinco dias e não se espera que este ultrapasse essa marca, disse ainda Lombardi.

Se houvesse candidatos assumidos e campanha eleitoral, esta teria encerrado no domingo, quando os 115 cardeais se espalharam pelas igrejas de Roma para rezar missa, como manda a tradição – quase todos são titulares de uma igreja na cidade que rodeia os 44 hectares do pequeno Estado do Vaticano.

Ao italiano Angelo Scola cabe a Basílica dos Doze Apóstolos, no centro antigo. O arcebispo de Milão entrou e saiu pelas traseiras, mas pelo meio veio à rua, junto dos jornalistas: “Disseram-me que vos devia benzer”, afirmou. O brasileiro Odilo Scherer entrou pela porta da frente da sua igreja, Sant”Andrea al Quirinale. Lá dentro, deixou cair uma hóstia ao chão e ofereceu a sua bênção a um casal, Carmine e Maria Persichetti, que festejavam 70 anos juntos. “Eu ainda não era nascido. Isso é mesmo possível?”, brincou Odilo Scherer.

Vigilância reforçada
Se no domingo se encerrou a campanha, ontem foi ainda dia de discussão. Nem todos os cardeais quiseram encerrar as congregações e alguns votaram vencidos, desejando mais um encontro da parte da tarde. De manhã, houve tempo para 28 intervenções; ao todo, 161 cardeais puderam falar desde que se abriu o pré-conclave, na segunda-feira da semana passada.

O tema da manhã foi o Instituto para as Obras Religiosas, o banco do Vaticano, que enfrenta problemas financeiros e foi castigado pelo Banco de Itália por violação das leis contra o branqueamento de capitais. Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI e agora camerlengo, papa interino no período de sede vacante, partilhou com os restantes os esforços da banca católica para aumentar a transparência das suas contas e negócios.

Por causa do Motu Proprio de Bento XVI, os 115 eleitores não estão só obrigados ao silêncio. A partir de hoje, serão também vigiados e “protegidos no percurso que separa Santa Marta [onde se situam os aposentos que vão ocupar a partir desta manhã e que foram sorteados] da Sistina para evitar encontros ou aproximações”. Para além dos 115 cardeais, 90 pessoas vão participar no esforço do conclave (cozinheiros, camareiros, enfermeiros…) e ontem já todas pronunciaram o seu juramento de silêncio na Capela Paulina.

Na missa que celebrou em Roma no domingo, o cardeal Christoph Schönborn contou que a demissão de Bento XVI o fez chorar, mas descreveu-a como “um gesto humilde” que “fez compreender o que é a fraternidade”. Nas congregações gerais, garantiu Schönborn, e apesar dos assuntos espinhosos, dos pedidos de consulta ao relatório sobre o Vatileaks às discussões sobre as denúncias de abusos sexuais cometidos por membros do clero, viveu-se “uma comunhão fraterna como nunca tínhamos vivido entre nós”.

“Tenho a impressão de que com este gesto tão surpreendente já se iniciou uma profunda renovação da Igreja, uma espécie de conversão pastoral”, concluiu o arcebispo de Viena, estudante e amigo de Ratzinger durante 40 anos.

Agora, falta só os cardeais votarem. Antes, uma última missa em comunhão com os fiéis. “Oremos juntos para que o Espírito Santo indique ao colégio de cardeais aquele que já foi eleito por Deus”, pediu no domingo o cardeal canadiano, Marc Ouellet, antes de falar da polémica dos documentos roubados da secretária de Ratzinger. “Até Bento XVI perdoou, antes do Natal, aqueles que o atraiçoaram”.


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