Bergoglio, o jesuíta modesto que chegou a Papa

[Ana Fonseca Pereira|Público|13/mar/2013]Um Papa modesto, conservador e preocupado com os mais pobres. São estes alguns dos traços do 266.º Papa, o primeiro oriundo do Novo Mundo. Jesuíta, de 76 anos, o cardeal Bergoglio é uma escolha improvável para os que previam que, depois do pontificado curto de Bento XVI, que renunciou devido à idade, o novo Sumo Pontífice seria escolhido entre os mais jovens do colégio cardinalício.

No entanto, sabe-se hoje, o arcebispo de Buenos Aires foi o principal adversário de Joseph Ratzinger na eleição de 2005, tendo chegado a reunir 40 votos dos cardeais eleitores, recorda John Allen no perfil que traçou de Bergoglio para o National Catholic Reporter. Oito anos depois, terá sido o candidato de consenso depois de afastados outros nomes dados como favoritos.

Filho de pai italiano, oriundo da região de Turim, Bergoglio estudou Teologia na Alemanha e desempenhou vários cargos administrativos na Cúria, o que lhe permite criar pontes entre os dois continentes com mais influência na Igreja Católica.

É também conhecido pela sua modéstia – Allen recorda que recusou viver no palácio apostólico, que trocou por um apartamento na capital argentina, dispensou a limusina (prefere viajar de autocarro) e cozinha as suas próprias refeições – e pela preocupação com os mais pobres. O Guardian escreveu que, em 2001, quando João Paulo II o nomeou cardeal, Bergoglio pediu aos fiéis que, ao invés de se deslocarem a Roma, distribuíssem o dinheiro da viagem entre os mais pobres. Durante a crise económica que atingiu o país, surgiu como uma voz da consciência nacional e, por várias vezes, tem alertado para as consequências da globalização desregrada para os que já sobrevivem com muito pouco.

Nascido em Buenos Aires, em 1936, entrou aos 22 anos para a Companhia de Jesus – será o primeiro jesuíta a assumir o trono de São Pedro – e após a ordenação dedicou os anos seguintes a ensinar Literatura, Psicologia e Filosofia, antes de assumir, na década de 1970, o cargo de provincial da Companhia de Jesus na Argentina. O país vivia então sob ditadura e, enquanto muitos jesuítas se aproximavam da Teologia da Libertação e viam no movimento progressista uma forma de oposição aos generais, Bergoglio insistiu para que se mantivessem fiéis aos princípios espirituais da companhia e se dedicassem ao trabalho pastoral, escreve Allen.

Como bispo auxiliar (desde 1992) e depois como arcebispo de Buenos Aires (em 1998), o cardeal manteve sempre uma posição conservadora em termos teológicos, sendo considerado próximo do movimento Comunhão e Libertação, grupo católico com grande influência junto da política italiana.

Ao longo dos anos deu prova da sua ortodoxia, manifestando a sua oposição incondicional ao aborto, à contracepção ou ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 2010, escreve o Guardian, quando a Argentina se tornou o primeiro país latino-americano a legalizar o casamento gay, o cardeal afirmou que a alteração legislativa representava uma forma de discriminação de crianças que, disse, deveriam ter o direito a ser educados por um pai e uma mãe. Ainda assim, admite o recurso ao preservativo para impedir doenças infecciosas – ficou famosa a sua visita, durante as cerimónias pascais de 2001, a um hospital para lavar e beijar os pés de 12 doentes com sida.


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