Diário do #Conclave: outro fumo negro, agora “atira nomes para o ar”

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[Sofia Lorena|Público|13/mar/2013] Ainda fumo negro, o segundo, no final da manhã do segundo dia do conclave, depois da terceira votação. Inconclusiva, como se esperava. O fumo saiu pela chaminé instalada na Capela Sistina quando ainda não eram 12h em Roma (11h em Lisboa) e a Praça de S. Pedro era já um mar de gente. Como na véspera, ouviu-se um longo “ohhhh”, como na véspera muitos dispersaram depois de se despedirem. “Até amanhã, às 10h”, disseram na terça-feira. “Até logo.”

O fumo estava marcado para as 12h. Sim, estas coisas são imprevisíveis mas têm o seu guião. Chegou às 11h39 (menos uma hora em Portugal continental).

Na véspera, depois da primeira votação, o fumo saiu cedo e saiu negríssimo, para não deixar dúvidas. Nesta quarta-feira, no final das duas votações que agora serão feitas a cada manhã (seguidas de outras duas da parte da tarde), os cardeais foram menos previsíveis: votaram ainda mais depressa do que se poderia ter antecipado e de previsível só o desfecho, ainda em aberto.

Tal como os cardeais, quem tem de queimar os votos e introduzir na chaminé o químico que define a cor do fumo também tinha pressa: o segundo fumo foi negro, mas menos do que o da véspera. E os jornalistas não estavam preparados.

“O fumo de hoje não foi negríssimo, por isso alguns jornalistas tiveram dúvidas antes de enviar os seus urgentes… Grande confusão na sala de imprensa”, twittou o vaticanista Andrés Beltramo, correspondente permanente no Vaticano. “Às 11h39 saiu o segundo fumo negro do Conclave, com alguma antecipação em relação ao que se previa e isto desconcertou a imprensa”, twittou a seguir.

Pois é, e estamos a falar dos correspondentes, não dos quase 6000 jornalistas aos quais o Vaticano deu acreditações temporárias. Estes, claro, não cabem fisicamente na sala de imprensa da Santa Sé, na Via della Conciliazione. Em vez disso, têm à disposição uma espécie de pavilhão preparado no interior da Aula Paulo VI, o enorme auditório que se ergue perto da Basílica de S. Pedro, metade dentro do Estado do Vaticano, metade do lado romano da fronteira.

À entrada para um conclave, todos os eleitores sabem que podem ser eleitos. Não podem, mas podem. Se até já houve um conclave que durou mais de dois anos, dois anos e nove meses… Quando acabou, tinham morrido quatro cardeais. Aos restantes não foi fácil chegarem ao fim, mas lá sobreviveram. No fundo, tudo pode acontecer e a beleza destes dias também é essa.

Claro que as listas dos papabili, dos favoritos, estão feitas há semanas. Mas também é verdade que muitos apuraram ou alteraram os seus primeiros prognósticos à luz das congregações gerais que antecederam o conclave ou por causa do ambiente que se vive em volta do Vaticano. À luz de alguma palavra entredita ou de um feeling. Segundo a BBC, um conclave da Igreja Católica é o acontecimento não desportivo que mais dinheiro move no mundo – e as apostas, claro, continuam abertas e enquanto não houver Papa há dinheiro a ganhar e a perder.

Os pecadores jogam e os fiéis rezam pelos seus preferidos ou por ninguém em especial. Os vaticanistas sérios recusam entrar no jogo dos nomes e preferem gerir expectativas e medir palavras. Falam de probabilidades e de surpresas, explicam que a partir do terceiro dia passa mesmo tudo a ser possível. Dizem que há cardeais com mais amigos e há alianças mais óbvias do que outras. Mas lembram, a cada conversa, que estes são mesmo tempos diferentes e que este conclave é muito, mas mesmo muito diferente do de há oito anos, quando Ratzinger foi escolhido num dia de Abril, após quatro votações.

Diálogo entre dois jornalistas britânicos na Aula Paulo VI, horas antes do início do conclave:

“O que é que te parece, diz lá?”, pergunta ele.

“A minha cabeça diz Scola”, responde ela. E continua: “Eu sei que os jornais italianos são os jornais italianos mas tenho lido o Rodari e interrogo-me se devemos usar o que eles escrevem…”

“Mas se não dissermos o que escrevem os jornais italianos vamos dizer o quê, exactamente?”, responde ele.

Scola é Angelo Scola, arcebispo de Milão (visto como anti-Tarcisio Bertone, o secretário de Estado que foi a sombra mais negra de Ratzinger) grande candidato entre os italianos, e principal pretendente, diz-se por aqui, entre todos os europeus. Rodari é Paolo Rodari, vaticanista que escreve para o jornal Il Foglio.

Os cardeais estão proibidos de falar com o mundo exterior. As 90 pessoas que os servem (cozinheiros, enfermeiros, ascensoristas…) juraram segredo e se o quebrarem enfrentam a excomunhão imediata. Certo é que, de alguma maneira, alguns jornais italianos lá arranjam maneira de descrever o que se passa no interior da Capela Sistina.

Vatican Insider, publicação dedicada à Santa Sé do diário La Stampa, por exemplo, sugere que a primeira votação foi muito dividida. Scola teve votos, sim (e continua a valer pouco nas bolsas de apostas). O brasileiro Odilo Scherer também, mas aparentemente menos do que muitos previam: o último dia de congregações gerais, segunda-feira, foi dedicado a discutir os problemas do IOR, o Instituto para as Obras Religiosas, banco do Vaticano, e o arcebispo de São Paulo não só integra a comissão que vigia as actividades do IOR como terá sido demasiado entusiasta no apoio às intervenções de Bertone. Os cardeais norte-americanos também receberam votos: Timothy Dolan, de Nova Iorque, mas também Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston e o único frade franciscano entre os 115 eleitores.

Nomes muito menos presentes nas listas de papabili, daqueles que dão muito dinheiro a ganhar nas apostas, terão igualmente sido escolhidos por alguns dos seus pares. Será o caso do húngaro Peter Erdö, do argentino Jorge Bergoglio, do austríaco Christoph Schönborn (primeiro estudante e depois amigo de Ratzinger). Um pouco mais surpreendentes serão (com toda a certeza, nunca saberemos se foram) os votos obtidos pelo mexicano Robles Ortega, arcebispo de Guadalajara. Na corrida, permanecerão ainda o filipino Luis Tagle e o ganês Peter Turkson, este considerado unanimemente como o único entre os africanos com alguma possibilidade de ser eleito.

Se não for possível aos cardeais chegarem a acordo para eleger um verdadeiro outsider, o vaticanista Paolo Rodari admite que um de três ocidentais, conhecedores da Cúria, “figuras muito fortes e muito estimadas a 360 graus”, possam acabar por receber 77 votos, dois terços dos 115. Numa entrevista antes do início do conclave, Rodari enumerava-nos os nomes: Scola, “que Ratzinger tem em muito boa conta”, o canadiano Marc Ouellet e Erdö, arcebispo de Budapeste. Qualquer um destes, dizia Rodari, “representaria uma escolha segura”.

O que Rodari também nos disse na mesma conversa é que desconfia de um “conclave muito longo”. E que só um conclave assim poderá terminar com a eleição de um verdadeiro outsider, uma possibilidade que a quase inédita renúncia de Bento XVI torna quase provável.


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