Livro da semana: Só o Pobre se faz Pão

Só o Pobre se faz PãoApesar de ser uma prática usual e muito comentada no tempo da Quaresma, não é muito frequente encontrarmos um aprofundamento sobre o sentido do Jejum para os cristãos. É o que nos oferece, agora, o monge português Carlos Maria Antunes, no seu livro «Só o Pobre se faz Pão». Carlos M. Antunes foi pároco, na diocese de Santarém, durante década e meia, até ter sido admitido, como monge de votos temporários, no Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Sobrado, na Galiza. Tornou-se conhecido entre nós, a nível literário, através do livro «Atravessar a própria solidão» (ed. Paulinas, 2011).

Em «Só o Pobre se faz Pão», somos convidados a viver o a prática do jejum como abertura para quatro dimensões, ou experiências, profundamente humanas e cristãs (e que constituem os passos desta obra): o desejo, a procura, o dom, e a partilha. Sem procurar “justificar” uma prática («temos de fazer jejum porque…»), o autor procura “preencher” aquele espaço que ficou vazio entre a prática ritual, legal ou tradicional do jejum – que já não encontra sentido em grande parte das comunidades cristãs – e a vivência entendida, compreendida do jejum não como fim em si mesmo, mas como lugar de encontro com a verdade do Evangelho – «o jejum aponta para», constitui uma pista (mais uma) para a descoberta de um sentido cristão da vida humana, a partir do contexto de uma sociedade fortemente desenvolvida a nível económico mas, apesar disso, situada numa profunda crise geradora de injustiças – algo que o autor não cessa de abordar. Um excerto de uma obra que pode constituir uma boa proposta de reflexão, humana e cristã, para a Quaresma, vivida como um Caminho Pascal, de transformação pessoal, familiar e social.

 «O jejum, no seu sentido mais amplo, mais do que uma prática pontual confinada a determinados dias – ainda que esta seja importante como marca que assinala um caminho -, constitui-se num convite a cultivar um estilo de vida sóbrio. Precisamos de integrar o gesto, que nalguns momentos é mais visível, numa prática que configure a vida. O jejum pode estar presente nas opções de fundo que orientam o nosso viver. Reconhecemos, com frequência, que nos deixamos seduzir por essa espiral da acumulação, que é tão característica dos nossos dias. O consumo sem critério exige de nós uma prática de resistência ativa. Esta afirmação não está inspirada por nenhum moralismo em relação à posse. O que está aqui em causa é uma conceção de vida. Se se defende o fomento de uma cultura de sobriedade é porque se entende que esta expande o horizonte da realização da vida humana, quer individual quer coletivamente. Urge que cada ser humano descubra dentro de si o seu melhor tesouro. A vida em comum não é viável sem o aprofundamento da interioridade. E isto é tão verdade para a pequena comunidade, que pode ser a nossa família, como para a grande comunidade universal» (pág. 113).

Carlos M. Antunes, «Só o Pobre se faz Pão: entrecruzando Jejum, Interioridade e Compaixão». Lisboa 2013, 126 págs.
 
Rui Vasconcelos


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