Surpresa!

PapaFrancisco2©L'OSSERVATORE ROMANO

[Filipe d’Avillez|ActualidadeReligiosa|Tinha de ser. Passámos todos os último mês a estudar todos os “candidatos” a Papa, eu fiz mais de uma dúzia de perfis de potenciais papas e a escolha foi recair sobre um homem que, honestamente, ninguém esperava. Bom, assim também é mais giro!
Que dizer então desta eleição e deste novo Papa? Em primeiro lugar destaca-se o facto de ele ser um Papa de estreias. O primeiro jesuíta, o primeiro sul-americano e o primeiro Francisco. Notável.
Confesso que fiquei muito bem impressionado com a apresentação dele. É claro que não é nem vai ser um homem muito carismático, mas a humildade que demonstrou, pedindo oração e não só incitando à oração, como rezando mesmo as orações mais básicas do Cristianismo com a multidão, foi muito tocante. Achei-o trémulo nas orações, será que não domina o italiano? Ao que parece não será um poliglota, poderá ser uma dificuldade. Por outro lado, talvez fosse só emoção.
Do que sabemos dele parece um homem que leva muito a sério os seus votos de pobreza e que, sendo jesuíta, não é da ala liberal pela qual essa ordem tem-se tornado conhecida nos últimos anos. Vive de forma humilde, cozinha para si mesmo e anda de transportes públicos. Acima de tudo parece que odeia o “carreirismo eclesiástico”, tendo evitado sempre cargos na Cúria, por exemplo.
Um conhecido vaticanista citou, no início de Março, um cardeal anónimo que teria dito que se a Igreja queria limpar a Cúria romana, então que chamassem o Bergoglio que ele tratava do assunto como ninguém. Ao que parece os outros cardeais estavam atentos e não me parece ser exagero dizer que foi mesmo para isso que o elegeram. Vejamos se isso se confirma ou não.
Este facto pode estar reflectido no nome. É preciso coragem para estrear um nome no Vaticano. Imediatamente pensámos todos em São Francisco de Assis, não só um exemplo de humildade mas o exemplo de um homem que reformou e restaurou uma Igreja a atravessar uma fase de decadência. Também já vi referências a São Francisco de Xavier, que também era jesuíta, mas pelo perfil arrisco-me a dizer que o nome é uma referência mais explícita ao primeiro.
Falemos agora da eleiçãopropriamente dita. De facto ninguém acreditava que Bergoglio seria uma possibilidade forte, apesar de se dizer que no último Conclave ele tinha sido o segundo classificado, sobretudo por causa da sua idade, 76 anos, e tendo em conta que todos falavam de um Papa mais novo.
Não acredito que Bergoglio tenha sido um nome forte logo à entrada para o Conclave. Inclino-me mais para outra interpretação, ressalvando que isto é tudo especulação. Penso que nas primeiras votações poderá ter acontecido como no Conclave de 1978 que elegeu João Paulo II. Dois blocos aparentemente irreconciliáveis, a dividir os eleitores.
Perante este cenário, e sem soluções ao fim de um dia e meio de votações, os cardeais poderão ter optado por um candidato de compromisso, alguém que tem, sim, fama de reformador, e que não é nem demasiado liberal nem demasiado conservador. Até a idade poderá ter-se tornado, neste caso, uma vantagem, uma vez que sendo assim não é de se esperar um pontificado muito longo. Surgirão, como sempre surgem, alegados relatos do que se passou mesmo no Conclave, mas certezas nunca teremos.
O que podemos esperar de Sua Santidade Francisco para os próximos anos?
Diálogo inter-religioso: O Papa vem do país sul-americano com maior número de judeus e de muçulmanos. Os primeiros, em particular, têm-no em alta estima. A julgar pelo nome que escolheu, estará certamente disposto a estender a mão aos muçulmanos também.
Ecumenismo: Tem fama de promover diálogo e encontros ecuménicos no seu país. Ao ponto de alguns tradicionalistas o acusarem de ir longe de mais, (os tradicionalistas têm muito mais a dizer sobre ele… já lá vamos). Espero dele uma abertura ao diálogo e disposição a abordá-lo de forma “desarmada”, o que pode ser muito bom. Por outro lado, a sua própria falta de sentido de tradição poderá levantar suspeitas do lado ortodoxo.
Relação com os meios de comunicação social: É dúbio. Aparentemente, mesmo como bispo, não dava entrevistas. Não antevejo uma alteração em relação à linha latina que tem dominado o Vaticano desde… sempre. Isto é, forte desconfiança dos jornalistas, pouco à vontade, falta de sentido de oportunidade e de timing. Claro que isto não depende só dele… Será que vai dar espaço aos profissionais, como Greg Burke, contratados para gerir a comunicação do Vaticano? Espero que sim, mas não é uma esperança muito grande, sinceramente.
Questões “fracturantes”: Pelo que tenho visto estamos perante um homem de convicções firmes mas com flexibilidade pastoral. Penso que se isso se confirmar será uma boa notícia. Li, mas não posso confirmar, que defende o uso de preservativo para evitar contágios, mas que se opõe à mentalidade contraceptiva, o que me parece sensato. A comunidade pró-vida na Argentina ficou contente com a sua eleição, o que me parece positivo e já envolveu em “conflitos” com o Governo da Argentina por ter condenado a adopção por “casais” homossexuais, pese embora reafirme a posição católica de que as pessoas com tendências homossexuais devem ser acolhidas com amor pela Igreja.
Liturgia: Aqui não prevejo novidades muito boas. Com Bento XVI estávamos a assistir a uma “reforma da reforma” que procurava recuperar a solenidade que em muitos locais se tinha perdido com a reforma litúrgica dos anos 60. A reabilitação do rito tridentino era uma parte desse esforço, mas uma das coisas de que os tradicionalistas o acusam é de ter feito tábua rasa do “Sumorum Pontificum” na sua diocese e de ter “perseguido” os padres tradicionalistas que, por exemplo, queiram andar de batina.
São críticas que devem ser lidas precisamente com um sentido crítico, mas admito que fiquei francamente chocado com o tom da reacção num dos blogues católicos tradicionalistas mais fiáveis e influentes da Igreja. Para terem ideia, o título é “O Horror” e o texto é escrito por um argentino. Dito isto, se tivesse sido eleito D. José Policarpo, consigo imaginar muito boa gente a escrever um texto idêntico sobre ele, mas nós que vivemos mais perto, sabemos que um homem é mais do que a soma das suas falhas.
Contudo, isto leva-me ao último ponto, um que terá de ser tratado pelo Papa Francisco. A questão do diálogo com a Sociedade de São Pio X… Penso que os herdeiros de Lefebvre ainda se vão arrepender de não terem agarrado com unhas e dentes o ramo que Bento XVI lhes estendeu. Não prevejo qualquer cedência do Vaticano para eles nos próximos anos. Se isso é bom ou mau, cada um que decida, mas tenho pena pela oportunidade perdida, mais que tudo.
Finalizo com duas ideias que me parecem importantes. Não terei sido o único a sentir até um picozinho de decepção quando na varanda de São Pedro surgiu um homem inesperado, por quem não tinha nenhuma em particular. A primeira reacção de muitos terá sido algo do género: “Ah?!”
Mas embora não tenha sido nascido na altura, recordo que com João Paulo II se passou exactamente a mesma coisa. Consta que todos esperavam que surgisse um africano depois de terem ouvido pronunciar o seu nome… No entanto ele foi quem foi. João Paulo o Grande.
Pelo que citarei agora o meu bom amigo padre Arsénio que, quando questionado sobre este assunto num debate televisivo recentemente, disse apenas: “Nós [os portugueses] gostamos muito do Santo Padre. Não é por ser este ou aquele, é por ser o Santo Padre”. Parece-me a atitude certa.

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