O Papa anda de autocarro

slpfb[João Miguel Tavares|Público|15/mar/2013]Portugal: “Andava de transportes públicos em Buenos Aires.” Itália: “L”austerità è leggendaria, a Buenos Aires gira in autobus.” Estados Unidos: “Francis is humble leader who takes the bus to work.” França: “Jorge Mario Bergoglio est connu pour la vie simple qu”il a menée à Buenos Aires, voyageant en métro et en bus.” Espanha: “Es considerado como el cardenal del pueblo, se mueve en autobus.” Poupo-vos ao alemão, ao grego, ao ídiche e ao chinês, mas suponho que por estes dias haja autocarros a circular em todas as línguas pelas páginas dos jornais dedicadas ao perfil do novo Papa.

Assim se começa a delinear a imagem que durará um pontificado: a de um Papa simples e humilde, próximo das pessoas e dos mais pobres, com a vocação missionária que é própria dos jesuítas, ao qual acresce um nome triplamente perfeito. Francisco, designação inédita (um feito ao fim de 265 papados) para uma Igreja que precisa de um novo arranque. Francisco, como Assis, o mais humilde entre os humildes. Francisco, como Xavier, o jesuíta patrono dos missionários. Simples, próximo e missionário. Não se pode dizer que a Igreja não saiba fazer o seu trabalho: adeus, Bento XVI; olá, João Paulo II (outra vez).

É impossível saber se Bergoglio será, como Ratzinger certamente aspirava e não se cansava de sublinhar, o homem que irá repor a ordem no Vaticano e combater aquilo a que ele próprio chamou, com muito conhecimento bíblico e muito pouca subtileza, os “javalis que entraram na vinha do Senhor”. Mas do que parece não haver dúvidas, tendo em conta o perfil e as primeiras palavras de Francisco, é que o distanciamento intelectual do papado entrará, juntamente com Bento XVI, para um prudente retiro monástico.

Bergoglio iniciou o seu consulado com uma piada – “vocês sabem que o dever de um conclave é dar um bispo a Roma; parece que os meus irmãos cardeais foram buscar-me quase até ao fim do mundo” -, o que não deixa de ser promissor, e impensável de ouvir da boca de Bento XVI. Mas o que é extraordinário nessa frase é a semelhança com as palavras escolhidas por João Paulo II em Outubro de 1978, quando também ele se dirigiu em italiano à multidão: “Os cardeais escolheram um novo bispo para Roma. Eles chamaram-no de uma terra distante.”

Os devotos de João Paulo II, que nunca engoliram o cerebral Bento XVI – o que, na minha sondagem pessoal, devem ser para aí dois terços dos católicos -, com certeza que acordaram na quinta-feira com um sorriso nos lábios, certos de o Espírito Santo ter mergulhado a pique sobre os cardeais. Um Papa argentino que já dançou tango, gosta de futebol e tira todos os meses o passe L123 é tudo aquilo com que o catolicismo sonhava desde 2005. Francisco tem 76 anos? Sim, tem 76 anos. E, segundo consta, falta-lhe um pulmão, o que não é coisa que costume fazer bem à saúde. Mas no sítio onde ele está, ter carisma é o melhor face-lifting. E bastaram cinco minutos à varanda para percebermos que o que lhe falta em alvéolos lhe sobra em panache.

E isso, de facto, é absolutamente fundamental em 2013, porque aquilo de que a maior parte dos católicos se sente órfã não é de pensamento teológico mas de liderança carismática. Na quarta-feira à noite, as televisões mostravam uma mulher incapaz de conter as lágrimas no momento em que saiu fumo branco do tecto da Capela Sistina. Naquela altura, ela não podia saber quem era o novo Papa. Se era jovem ou velho, europeu ou americano, conservador ou progressista. Mas chorava na mesma. E chorava porque quem enche a Praça de S. Pedro sente uma necessidade imensa de exemplos inspiradores e de líderes espirituais.

Mas serão só eles? Bem vistas as coisas, há qualquer coisa de milagroso no facto de uma Europa secular continuar de olhos postos numa minúscula chaminé, à espera de fumo, quando tantos acreditam que a religião se esfumou de vez das nossas vidas. Se Christopher Hitchens estivesse entre nós, certamente escreveria algum texto brilhante sobre o tema, mas na argumentação ateia da actualidade, aquilo que se vê nas nossas televisões dá mais razão ao Alain de Botton de Religião para Ateus do que ao Hitchens deDeus não É Grande: por muito que se deteste a Igreja e o Vaticano, a sede espiritual permanece nas nossas vidas. E em tempos tão atribulados como os nossos, um Papa humilde que anda de autocarro é uma narrativa demasiado boa para poder ser ignorada.

Jorge Mario Bergoglio foi eleito um dia depois de o seu compatriota Lionel Messi ter despachado o Milão com quatro a zero e virado uma eliminatória que quase todos davam como perdida. Já que os católicos gostam de olhar para as coincidências como manifestações anónimas de Deus, eu concluo com um desejo muito simples, em forma de oração laica: que Francisco consiga fazer pelo Vaticano aquilo que Messi fez pelo Barcelona.


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