O Papa não precisa de divisões

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[Teresa de Sousa|Público|15/mar/2013] Quando lhe fizeram chegar os protestos da Igreja Católica contra a perseguição dos cristãos na União Soviética, Estaline respondeu com uma frase que ficou célebre: “Quantas divisões tem o Papa?” O Papa não tem divisões. E, no entanto, quase ninguém questiona o papel fulcral de João Paulo II no derrube da Cortina de Ferro. Em 1978, a sua eleição foi uma tremenda surpresa. Vinha do lado de lá do muro que dividia a Europa, quebrando a milenar tradição dos papas italianos. Karol Wojtyla não esperou muito tempo para mostrar ao que vinha. Em 1979, na sua primeira deslocação à Polónia, perante as multidões que o saudavam, disse a frase que haveria de desencadear os acontecimentos que conduziram a 1989 e à derrocada quase pacífica dos regimes comunistas da Europa de Leste. “Não tenhais medo”. Tinha escolhido essa frase para saudar a multidão na Praça de São Pedro, quando foi eleito Papa. Repetiu-a aos polacos, uma e outra vez. “Vocês não são quem eles dizem que vocês são. Deixem-me lembrar-vos de quem vocês são. O destino da Polónia depende de vocês”. Menos de um ano depois, nascia o Solidariedade. “Mesmo que a visita de João Paulo II à Polónia possa revigorar e inspirar a Igreja Católica, não ameaça a ordem política do país ou da Europa de Leste”, escreveu o New York Times. Ronald Reagan ainda não estava na Casa Branca.

Voltou em 1983, com a lei marcial já em vigor e os líderes do Solidariedade na prisão. Encontrou-se com o general Jaruselski e com Lech Walesa. Voltou a galvanizar os polacos, exortando-os a ser “solidários”. “Lembro-me de fotografias que mostravam um tristonho general de pé perante o Papa, como o aluno perante o professor”, diz Klaus Ziemer, director do German Historical Institute em Varsóvia. “A linguagem corporal era muito importante, porque mostrava quem era o verdadeiro líder da Polónia e qualquer polaco conseguia ver isso”. Nessa altura já Reagan tinha sido eleito. Os dois estabeleceram uma poderosa aliança para pôr fim à Guerra Fria. O Papa não precisava de divisões.

“João Paulo II trouxe a Igreja de volta ao palco do mundo”, escreve Sandro Magister, jornalista italiano e grande conhecedor da Santa Sé, em 2005. “Ninguém pode ficar surpreendido por ver os três últimos Presidentes dos Estados Unidos ajoelharem-se perante o seu corpo na Basílica de São Pedro.” Os líderes de quase todo o mundo estiveram presentes no funeral do chefe de Estado do Vaticano, o mais pequeno Estado do mundo, cujo soft powernenhum deles pode ignorar.

Reagindo à eleição do novo Papa Francisco, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês disse ontem que a China estava disponível para trabalhar com o novo Papa. E avisou: “O Vaticano tem de parar de interferir nos assuntos internos da China”. O mundo deslocou-se para o Oriente. A escolha do novo Papa deslocou, ainda, a Igreja Católica para o Ocidente.

Na primeira metade do século XX, quando a Europa por duas vezes sofreu a tragédia de uma “guerra civil” de repercussões mundiais, a voz do Papa mal se fez ouvir para lá dos seus fiéis.

“A sua neutralidade entre as potências tinha associada a sua irrelevância”, diz Juan Pablo Somiedo, professor da Universidade Autónoma de Madrid. Bento XV denunciou a primeira guerra mundial como uma “matança inútil”. A Santa Sé esteve ausente das negociações de paz de Versalhes. Pio XI condenou o nazismo. Pio XII preferiu o silêncio. Também contou pouco na definição dos novos termos da partilha da Europa. Pio XII fez do combate ao comunismo a sua principal tarefa política. Foi o primeiro Papa da Guerra Fria. Aliou-se com os Estados Unidos para incentivar a integração da Europa Ocidental, incluindo a Alemanha. Adenauer, Di Gasperi, Schumann eram homens da Igreja.

Em 1963, João XXIII alterou radicalmente a política do Vaticano. Na “Pacem inTerris“, há precisamente 50 anos, o comunismo não é sequer mencionado. “É quase impossível pensar que, na era atómica, a guerra possa ser usada como um instrumento para a justiça”, disse o “Papa bom”. Defendeu o desarmamento nuclear. Quis uma Igreja da mediação e do diálogo que contribuísse para o desanuviamento. Alinhou a política do Vaticano com aOstpolitik do chanceler alemão Willy Brandt. Paulo VI seguiu-lhe as pisadas. A Igreja participou activamente na Conferência de Helsínquia, cuja Acta Final (1975) pede o respeito dos direitos humanos em toda a parte, incluindo na Europa de Leste, mas reitera o princípio da não ingerência. Foi o primeiro Papa a dirigir-se à Assembleia Geral das Nações Unidas (1965), onde proclamou a Igreja como “especialista da Humanidade”. Em 1973, recebeu no Vaticano os líderes dos movimentos de libertação das colónicas portuguesas. A Igreja tinha uma política externa. Que haveria de mudar radicalmente, no conteúdo e na forma, com a inesperada eleição, em 1978, de um Papa que vinha do Leste.

Com o fim da Guerra Fria e o início da era da globalização, João Paulo II não hesitou em criticar a superpotência solitária que passava a reinar sobre o mundo. Condenou a primeira guerra do Iraque (1991) e ainda mais veementemente a segunda. Mas legitimou a guerra no Afeganistão, em nome do princípio da legítima defesa. A sua interpretação da “guerra justa” levou-o a apoiar a doutrina da ingerência humanitária, defendendo-a como um imperativo moral. Na Bósnia e no Kosovo, para proteger as populações islâmicas. No Haiti, em Timor e nos Grandes Lagos, onde aconteceu uma das maiores catástrofes humanitárias sem que o Ocidente interviesse.

Muita gente pensou que o seu sucessor devolveria a Igreja a uma dimensão geopolítica menor. Não foi exactamente assim. “João Paulo tinha um desígnio geopolítico específico desde o início do seu papado: a queda do comunismo. Bento tem um desígnio mais geocultural, quer provocar uma crise de consciência num Ocidente fechado à fé”, escreve Andrea Riccardi, da Comunidade de Santo Egídio. Denunciou o novo “totalitarismo” que via crescer na Europa: o relativismo moral. A Europa foi o seu grande fracasso mas não deixou de percorrer o mundo, de fustigar o capitalismo sem regras, de desafiar os muçulmanos para o aggiornamento da razão. Conseguiu transformar um “incidente diplomático” (o seu discurso de Ratisbona, em 2006) numa oportunidade de aproximação ao Islão. Foi o Papa do pós-11 de Setembro, mas não chegou a ser o Papa do pós-crise financeira global.

Sem o carisma de João Paulo II e sem a sua poderosa intuição, virado para a razão e a sua compatibilidade com a fé, perdido numa Cúria em decadência, Bento XVI decidiu partir, num gesto que assinala uma nova ruptura na relação da Igreja Católica com o mundo. E o mundo é visto de forma muito diferente quando olhado do Sul.


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