Sentido de humor, gestos simples e palavras sérias

©ALESSANDRO BIANCHI:REUTERS

[Sofia Lorena|Público|15/mar/2013]”Se não confessamos a Jesus Cristo, tornamo-nos uma ONG piedosa, mas não a Igreja”, disse, de improviso, aos cardeais. Foi o primeiro dia do Papa que escolheu chamar-se Francisco, “um nome que é um vínculo” e “quase uma denúncia”

A eleição chegou como uma surpresa – para os cardeais que escolheram o novo Papa, confirmou o português D. José Policarpo, e para os fiéis que tantos “quem?” repetiram quando o cardeal Jean-Paul Tauran apareceu na varanda e disse “Jorge Mario” em italiano. Foi uma surpresa, mas uma com que muitos tinham sonhado, incluindo tantos dos que nos últimos dias passaram pela Praça de São Pedro com palavras como “simples”, “próximo das pessoas normais”, “caloroso” ou “despojado” debaixo da língua.

Logo depois de se apresentar, Francisco pediu às pessoas normais que o abençoassem (“Rezem por mim”, disse aos peregrinos), antes mesmo de as abençoar. Ainda na primeira noite, vestido de branco por ter recusado outras vestes, falou de si como bispo de Roma, não como Papa. “Agora, começamos este caminho: bispo e povo.”

Ontem, no seu primeiro dia como bispo de Roma, foi como dizem que é. Simples, espontâneo, decidido. Também foi como tantos esperam que seja: atravessou uma rua a pé, andou entre as pessoas, cumprimentou-as, lembrou-se de que tinha uma conta para pagar e tratou de o fazer.

Francisco partilhara com os peregrinos que iniciaria o seu caminho em Santa Maria Maior, a “rezar a Nossa Senhora para que abençoe toda a cidade de Roma”, e assim fez. Poucos minutos depois das 8h chegou à basílica mariana, num carro da polícia do Vaticano e sem cortejo.

Lá dentro, durante meia hora, rezou junto ao altar maior, na Capela Paulina, deixou flores no altar onde Inácio de Loyola, fundador da sua ordem dos jesuítas, celebrou pela primeira vez missa, rezou ainda na Capela Sistina e deteve-se depois diante do túmulo de Pio V. Antes de sair, voltou a pedir aos presentes para rezarem por ele. Depois, atravessou-a e saudou os estudantes que o aguardavam.

No caminho de regresso, pediu ao motorista para fazer um desvio e quis parar na Casa do Clero, perto da Piazza Navona, onde esteve hospedado nas semanas antes do conclave. Saudou quem lá trabalha, trouxe o que lá deixara e pagou a conta, contou aos jornalistas o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano. “Os responsáveis da segurança estão ao serviço do Papa e sabem-no. Procuram interpretar o que é que o Papa quer e adaptar o seu estilo ao estilo pessoal do Papa – sabendo que não são eles a ditar o jogo, mas o Papa”, explicou Lombardi.

A primeira missa

À tarde, o santo padre celebrou missa na Capela Sistina, acto que encerra o conclave, entre os cardeais. “Sem cruz não somos discípulos do senhor, somos mundanos, bispos, padres, cardeais, mas não somos discípulos do senhor”, disse aos que o elegeram, antes de lhes pedir uma Igreja a pregar os valores de Cristo e em movimento.

Primeiro, as leituras e o Evangelho: Isaías, o Salmo Responsorial e a Primeira Carta de São Pedro Apóstolo. Depois, a homilia. “Estas três leituras têm uma coisa em comum: o movimento. Na primeira, o movimento é o caminho; na segunda está na edificação da Igreja; na terceira, no Evangelho, o movimento está na confissão”, afirmou o Papa Francisco.

“Caminhar, edificar, construir, confessar”, enumerou. “Mas não é assim tão fácil. No caminhar, no construir, no confessar, às vezes há movimentos que não são movimentos no caminho, mas movimentos que nos puxam para trás”, avisou. “Nós podemos caminhar como queremos, podemos construir muitas coisas, mas se não confessamos a Jesus Cristo, algo está errado. Tornamo-nos uma ONG piedosa, mas não a Igreja”, afirmou o Papa, de improviso – as missas, pelo menos as primeiras, anunciou o Vaticano, serão em italiano, tal como os discursos, mas serão de improviso, pelo que não haverá textos nem traduções distribuídos previamente.

Francisco continuou a improvisar e pediu aos cardeais que sejam todos “discípulos do senhor”: “Eu gostaria que todos nós, depois destes dias de graça, tivéssemos a coragem de caminhar na presença do Senhor, com a cruz do Senhor, de construir a Igreja no sangue do Senhor, derramado na cruz, e confessar a única glória, Cristo crucificado. E assim a Igreja caminhará. Desejo a todos nós que o Espírito Santo, a oração de Maria, nossa mãe, nos conceda esta graça: caminhar, edificar e confessar a Jesus Cristo crucificado”, concluiu.

“Os puristas choram”

Os cardeais ouviram como, na véspera, quando se acotovelavam nas varandas laterais da Basílica de São Pedro, o tinham ouvido descrever a humanidade como uma “grande irmandade” ou “grande fraternidade”.

O argentino que escolheu chamar-se Francisco – fê-lo, soube-se ontem, para assim homenagear Francisco de Assis – passou o seu primeiro dia enquanto Papa a provar merecer um nome que não precisa de ser seguido por numeração romana. “Faz a homilia sem notas escritas no altar e prega por cinco minutos improvisando em italiano. A nova liturgia avança e os puristas choram”, comentou no Twitter o vaticanista italiano Paolo Rodari.

Ontem, muitos fiéis passaram por São Pedro para rezar pelo novo Papa, incluindo muitos do que na véspera o tinha ouvido dizer “Peço-vos um favor, rezem por mim”, e depois se calaram em uníssono enquanto ele baixava a cabeça, e assim se mantiveram enquanto ele não a reergueu.

Uma revolução

Recordando as primeiras palavras – “Agora, começamos este caminho: bispo e povo” -, o diário La Repubblica (esquerda) descrevia ontem em editorial um “pedido quase juvenil, tantos anos depois”, uma “oferta de majestade à comunidade cristã”. Neste “convite insistente e convicto à oração da praça e do mundo pelo Papa”, nesta “sugestão de colegialidade”, pedia Francisco para os crentes “não o deixarem sozinho, para lhe darem aquela força que, para quem crê, deriva de Deus, mas também da convicção e da fraterna participação do povo cristão”, escreveu o jornal. Depois, Francisco calou-se e curvou-se, “na humildade de uma inclinação do sumo pontífice que nunca antes tinha sido vista na loggia” de São Pedro.

“E a prova maior desta humildade pessoal unida na ambição da mudança vem na escolha do nome, que nenhum Papa tinha ousado pronunciar para si como sucessor de Pedro: Francisco. Um nome que é um projecto e um vínculo para o pontificado, quase a denúncia programática da necessidade de um gesto extremo, de um regresso às origens, ao Evangelho, ao Anúncio, à missão de uma Igreja desencarnada do poder e da sua pompa”, escreve o director do La Repubblica, Ezio Mauro, no texto a que chamou “Uma revolução em São Pedro”.

gaffe dos italianos

Agora, é preciso esperar. Pelas próximas missas e pelos próximos gestos, pela visita prometida a Ratzinger, em Castel Gandolfo, pela escolha do secretário de Estado. É preciso esperar até para ver se o novo Papa é capaz de não perder o sentido de humor, o que o fez dizer aos peregrinos que os cardeais tiveram de o ir “buscar quase até ao fim do mundo”, o que o fez dizer, ao jantar, aos cardeais: “Que Deus vos perdoe pelo que fizeram.”

Ontem, soube-se ainda que depois de eleito aceitou os cumprimentos de pé, recusando sentar-se na cadeira preparada para o momento. Depois, fez o caminho até à residência de Santa Marta no mesmo autocarro em que seguiram os outros 114 cardeais, recusando o carro preparado para o levar.

Hoje, Francisco vai voltar a estar com os cardeais, recebendo-os numa audiência informal. Amanhã, falará aos jornalistas na Aula Paulo VI – uma sala onde cabem 12 mil pessoas -, esperando-se que aproveite para concretizar a sua agenda de mudança. Domingo será dia de rezar o Angelus; na terça-feira chega a missa que inaugura oficialmente o novo pontificado.

A tudo isto estarão atentos católicos em todo o mundo e o clero italiano. A surpresa da escolha deste Papa ficou bem assinalada pela gaffe na noite da eleição, o comunicado da Conferência Episcopal Italiana a congratular-se pela “eleição de Angelo Scola”. Scola, arcebispo de Milão, era o favorito, mas às 20h23, quando o comunicado foi enviado, já o argentino Jorge Mario Bergoglio estava há dez minutos na varanda central de São Pedro. O erro foi corrigido 50 minutos depois.


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