Um novo Papa

PapaFrancisco2©L'OSSERVATORE ROMANO

[Frei Bento Domingues|Público|16/mar/2013]1. Desde o passado dia 13, o Vaticano tem novo inquilino. Surgiu à janela o primeiro Papa jesuíta, vestido de dominicano, com nome franciscano, muito bem-disposto, feliz pelo ministério que lhe foi confiado, sem a estola do poder e, antes de distribuir bênçãos, pediu para ser abençoado.

Na Companhia de Jesus, aliás, como nas outras ordens religiosas, apesar do que se diz, os seus membros não são todos clonados. Conhecer um, não é conhecer todos. Como dizia um jesuíta brasileiro meu amigo, eu trabalho com os pobres contra a opressão de que são vítimas. Outros ensinam nos colégios e nas universidades donde não sairão necessariamente os defensores dos excluídos.

Mario Jorge Bergoglio nasceu em 1936. Prestou relevantes serviços à Companhia de Jesus, na Argentina, foi Provincial num tempo terrível de ditaduras militares e da louca história dos desaparecidos e despejados de helicóptero, no alto mar. Essa história envolveu muitas figuras da Igreja, embora ainda esteja escrita debaixo das emoções de terríveis memórias. Não é de admirar que o comportamento de Bergoglio possa, agora, voltar a ser evocado, por motivos evidentes, sem a devida distância, para uma apreciação isenta.

2. O novo Papa conhece bem não só a Argentina, mas toda a América Latina e os seus problemas sociais, económicos, políticos e religiosos. Não é, porém, uma pessoa que vem do fim do mundo e se encontra, de repente, no Vaticano.

Como cardeal fez parte da Comissão para a América Latina, da Congregação para o Clero, do Pontifício Conselho para a Família, da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, do Conselho Ordinário da Secretaria-Geral para o Sínodo dos Bispos, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.

O Papa Francisco está, por isso, em condições excelentes para conhecer os métodos usados no Vaticano para conhecer o mundo e governar a Igreja, mas também sabe de que se queixam os que, noutros continentes, a começar pela América Latina, não se sentem representados pela engrenagem da Cúria. Não pode fingir que ignorava a complexidade da problemática que o espera e as limpezas que tem de fazer no Vaticano, para que este não continue a escandalizar o mundo.

3. O despojamento com que se apresentou e o nome que escolheu podem sugerir que não vai entrar no jogo do culto da personalidade, nem vai ceder à “papolatria”, nem a designações que o afastem da figura de “servo dos servos de Deus”. A Igreja não é dele, nem ele é a Igreja. Tem, com os outros bispos do mundo inteiro e os seus padres, de servir um povo sacerdotal, profético, livre, composto de mulheres e homens, chamados todos à transformação da vida e à transfiguração da Terra.

Tem muito que fazer, pode contar com o Espírito Santo e com a oração da Igreja inteira. A oração não é para convencer o Espírito Santo, nem para O responsabilizar por tudo o que acontece na condução da Igreja. Os Papas também se confessam. Essa beatice seria, aliás, um mau serviço a Deus e ao Papa. A oração é para nos abrir ao desígnio libertador de Deus e escutar o rumor do mundo.

4. Há, de certeza, muita gente que está de acordo, outra em desacordo e, outra ainda, de acordo numas coisas e noutras não, acerca de tudo o que consta sobre as posições teológicas, éticas e pastorais do novo Papa. Não sei como poderia ser de outra maneira. Será importante que não use o seu ministério para levar avante as suas convicções pessoais e o que julga que é a sã doutrina. Seria terrível que não tivesse convicções profundas e bem alicerçadas, para não andar ao sabor da moda.

Todos os cristãos recebem, no baptismo, uma unção nos ouvidos e na boca. Há mais ouvidos do que boca. Este Papa será fiel ao Vaticano II se adoptar o método de João XXIII. Não é para repetir o que aconteceu há cinquenta anos. É para algo que um célebre cardeal jesuíta, Carlo Maria Martini, arcebispo de Milão, desejava que o próprio Bento XVI tivesse realizado: um novo Concílio. É preciso colocar a Igreja inteira, em todos os continentes, países, dioceses, paróquias e movimentos, a escutar a voz de Deus nos sinais dos tempos e na voz de todos os seres humanos, nas suas alegrias, nas suas tristezas, nas suas esperanças e nos seus desesperos. Não importa se um processo destes vai levar muito ou pouco tempo, pois o próprio processo é um caminho de fé e de nova evangelização. O Papa, ao visitar os países, as dioceses, as paróquias, deve dispensar os gastos e o espavento das habituais viagens de um chefe de Estado.

Se são visitas pastorais, siga o estilo sugerido pela metáfora do Bom Pastor.


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