A Igreja existe “para comunicar a verdade, a bondade e a beleza”

GIUSEPPE CACACE:AFP

O Papa deixou uma bênção a todos os jornalistas, crentes ou não crentes ©GIUSEPPE CACACE/AFP

[Sofia Lorena|Público|17/mar/2013] “Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco”, disse o Papa Francisco na audiência aos jornalistas. “Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres”

De João Paulo II disse-se que tinha carisma, tanto que foi um Papa poster. Os 27 longos anos do seu pontificado, o segundo mais longo de sempre, foram passados a viajar pelo globo, a falar a multidões e a ser aclamado por elas, nas décadas da televisão e ainda da Internet. Quando o Papa da popularidade morreu, Bento XVI chamou-lhe “o grande Papa João Paulo II”. Ratzinger foi o intelectual, o teólogo de quem se diz não ter querido nunca ser político – até que o mundo se surpreendeu com a mais política das decisões, a da renúncia.

Francisco herda a Igreja de um e de outro. E recebe-a com sentido de humor e com a grandeza de tudo o que é simples.

Quando foi eleito, disse que queria rezar “pelo nosso Papa emérito”. Depois, o Papa que veio “do fim do mundo” despediu-se dos peregrinos em Roma a desejar-lhes “boa noite e bom descanso”. Entretanto, presidiu a uma missa perante os cardeais para lhes dizer que, “sem cruz, somos mundanos, bispos, padres, cardeais, mas não somos discípulos do Senhor”.

Na sexta-feira, ainda na companhia dos que o elegeram, voltou a prestar homenagem ao “gesto corajoso e humilde” da renúncia e afirmou que pensa no magistério do antecessor com “grande afecto”, sublinhando a sua “bondade, humildade e doçura”. Saudou os cardeais, um a um, e fez-lhes um pedido: que encontrem “novos meios de levar a evangelização aos confins da Terra”. No mesmo dia, quis agradecer a “bela carta” que recebera do superior-geral da Companhia de Jesus. Telefonou para a Companhia, em Roma, e o recepcionista pensou que era uma piada. Não era, e Andrea lá acabou por perceber que estava ao telefone com Francisco.

Ontem, ao terceiro dia do pontificado que só será oficialmente inaugurado na missa de terça-feira, foi a vez de os jornalistas fazerem fila para o Papa os receber.

Em 2005, Ratzinger já recebera os jornalistas que trabalham no Vaticano e todos os que aqui tinham vindo para acompanhar o funeral de João Paulo II e a sua eleição. Desta vez, há ainda mais jornalistas em Roma, 5600 pediram e receberam acreditações temporárias. Muitos vieram com a família e, assim, a Aula Paulo VI, o auditório que se ergue mesmo ao lado de São Pedro e por onde se entra logo depois das colunas laterais à esquerda da Basílica, encheu-se de gente adulta e também de crianças e de bebés de colo.

A audiência, um encontro informal, juntou 6000 pessoas numa sala de 12 mil lugares e aconteceu entre aplausos e sorrisos, com a assistência dividida entre os que tiravam notas, gravavam imagens e fotografavam o Papa e os que se fotogravam a si mesmos e aos filhos, com o Papa em pano de fundo.

“Vocês trabalharam, eh”

Riso fácil, espontaneidade e boa disposição, empatia. Assim se diz que era Jorge Bergoglio, quando vivia em Buenos Aires e andava de metropolitano, assim se mostrou o Papa na meia hora quase certa que passou com os jornalistas.

Chegou, acenou e depois, sempre a sorrir, sentou-se na cadeira que o esperava, no centro do palco do auditório, e começou por ler uma curta intervenção preparada – interrompida aqui e ali por momentos de improviso e de olhares dirigidos à audiência e não aos papéis que segurava na mão.

“Caros amigos, estou contente por vos encontrar no início do meu magistério na cadeira de Pedro, a vocês que trabalharam aqui em Roma neste período tão intenso, iniciado com o surpreendente anúncio do meu venerado predecessor Bento XVI, no último 11 de Fevereiro. Saúdo cordialmente a cada um de vocês”, disse Francisco.

“O lugar dos mass media foi crescendo sempre nos últimos tempos, tanto que se tornou indispensável para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea. Um agradecimento especial a vocês, pelo vosso qualificado serviço nos últimos dias. Vocês trabalharam, eh? Trabalharam!”, disse o Papa, levantando os olhos das notas para olhar os jornalistas e se rir com eles. Como também riu, ao ouvi-lo, o porta-voz do Vaticano, padre Lombardi, que tantas conferências de imprensa deu nas últimas semanas, como riram e aplaudiram os jornalistas.

Francisco quis deixar um “agradecimento sentido a todos os que souberam observar e apresentar estes acontecimentos da história da Igreja tendo em conta a perspectiva mais correcta em que devem ser lidos, a da fé”. Os acontecimentos da história, afirmou, “pedem quase sempre uma leitura complexa, que por vezes pode até incluir a dimensão da fé”.

“Os acontecimentos eclesiásticos não são certamente mais complicados do que os políticos e os económicos. Mas têm uma característica de fundo particular: respondem a uma lógica que não é principalmente a daquelas categorias, podemos dizer, mundanas, e mesmo por isso não é fácil interpretá-las e comunicá-las a um público vasto e variado”, descreveu.

Esta tríade existencial

“Para o vosso trabalho são precisos estudos, sensibilidade, experiência, como em tantas outras profissões, mas é precisa uma grande atenção à verdade, à bondade e à beleza, e nisto estamos próximos porque também a Igreja existe para comunicar a verdade, a bondade a beleza”, afirmou Francisco. “Deve ficar bem claro que somos todos chamados não a comunicar nós próprios, mas esta tríade existencial que é formada pela verdade, a bondade e a beleza.”

Sabia-se que a audiência seria descontraída. Mas antecipava-se igualmente que o novo Sumo Pontífice aproveitasse para explicar, uma vez mais, ao que vem.

“Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres”, disse Bergoglio. “A Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, é essencialmente espiritual: é o povo de Deus, o santo povo de Deus, que caminha em direcção a Jesus Cristo”, continuou.

Como fizera nos dois dias anteriores, quis sublinhar a centralidade de Cristo, “a referência fundamental, o coração da Igreja”: “Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam nem teriam razão de existir”.

A seguir, quis dedicar mais umas palavras a Bento XVI, que irá visitar no próximo sábado a Castel Gandolfo. “Como repetiu várias vezes Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. Em tudo o que acontece, o protagonista, em última análise, é sempre o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão de Bento XVI para o bem da Igreja; Ele falou na oração e na eleição aos cardeais. É importante, caros amigos, ter em conta este horizonte interpretativo, esta hermenêutica, para podemos pôr os acontecimentos destes dias em foco no coração”.

Nem Adriano nem Clemente

Francisco quis depois explicar pela sua própria voz a escolha do nome. “Eu conto-vos a história. Na eleição, tinha o meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e também o prefeito emérito da Congregação para o Clero, Cláudio Hummes, um grande amigo. Que, quando a coisa se tornava um pouco perigosa, me confortava. Aos dois terços, houve o aplauso, porque tinha sido eleito o Papa. E ele abraçou-me e beijou-me e disse-me “não te esqueças dos pobres”. Aquela palavra entrou aqui”, contou Francisco, tocando na sua cabeça. “Os pobres, os pobres.”

“Alguns não sabiam por que tinha escolhido o nome Francisco, e interrogavam-se se seria por Francesco Saverio [jesuíta expulso das colónias espanholas, conhecido como Francisco Xavier], Francisco de Sales [bispo de Génova] ou Francisco de Assis”, descreveu. “Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, até aos votos finais, pensei nas guerras. E Francisco é o homem da paz. E assim surgiu o nome no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa, não é?”, afirmou.

“Depois, muitos disseram que me deveria chamar Adriano porque [o Papa] Adriano VI foi um verdadeiro reformador, e é preciso reformar… Outros disseram-me que me chamasse Clemente, para me vingar de Clemente XIV, que aboliu a Companhia de Jesus”, acrescentou o jesuíta. “Francisco de Assis, da pobreza e da paz”, preferiu o arcebispo de Buenos Aires.

No fim, o Papa levantou-se e deixou-se ficar por mais uns minutos a partilhar o palco com alguns jornalistas que saudou, um a um. Ontem, foi a vez de os jornalistas fazerem fila para o cumprimentarem.

Entre os que subiram para lhe falar estava Giovanna Chirri, a jornalista da agência italiana ANSA que foi a primeira a dar a notícia da renúncia de Bento XVI, anunciada pelo agora Papa emérito sem aviso, no meio de uma intervenção em latim. Depois de noticiar a decisão de Ratzinger, contou entretanto Giovanna Chirri, a jornalista chorou. Ontem de manhã, sorriu, enquanto estendia a mão ao Papa e os colegas aplaudiam.

Houve aplausos fortes para Giovanna Chirri e também para o último homem da fila, Alessandro Forlani, jornalista da televisão pública italiana Rai que é cego e levava o seu cão pela mão. Francisco cumprimentou o jornalista e deu festas ao cão. Seguiu-se um aplauso e o momento das despedidas.

Antes de deixar a Aula Paulo VI, acompanhado de um novo aplauso, o Papa quis deixar uma “bênção não solene”, “do coração”. “Como muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica, outros não são crentes, é do coração que vos dou esta bênção em silêncio, a cada um de vocês, respeitando a consciência de cada um” e para que “cada um a receba”. “Mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus.”

Vestido de branco, sapatos pretos de atacadores e sola gasta, deixou a “bênção do coração” e recolheu-se. Hoje, o Papa volta a dirigir-se aos peregrinos e ao mundo, no seu primeiro Angelus, a oração que o Sumo Pontífice reza a cada domingo ao meio-dia.

A Câmara de Roma avisou que a área em redor de São Pedro estará fechada ao trânsito – alguns antecipam uma multidão superior à que chegará para a missa de terça-feira, dia em que o metro será gratuito até às 14h. Em Roma, hoje é domingo de Angelus com novo Papa e domingo de maratona. Desde ontem, já se podem comprar posters do Papa Francisco.


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