Francisco, o programa de acção de um Papa jesuíta

O Papa Francisco transmitiu, desde logo, uma mensagem de simplicidade ELISEO FERNANDEZ/REUTERS

[Bárbara Wong, Lurdes Ferreira e São José Almeida|Público|17/mar/2013] O que há na escolha do nome que presta homenagem a São Francisco de Assis? Um projecto de uma Igreja mais simples e virada para os pobres? Prognóstico de reconstrução?

Adúvida ficou desfeita. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco em homenagem a São Francisco de Assis, o homem que na Idade Média confrontou a Igreja por causa da opulência em que vivia, o homem que abraçou a pobreza na sua totalidade, aquele que deu os primeiros passos para compreender o outro ao ir ao Egipto e encontrar-se com o sultão Al-Kamil, que os cruzados se preparavam para atacar. Francisco, o homem que acolheu Clara e as suas companheiras, mulheres que queriam seguir o seu estilo de vida. Aquele que tratava por “irmão” todas as criaturas e coisas.

Diz a tradição que um dia Francisco foi rezar à igreja de São Damião, fora das portas da cidade italiana de Assis, e que, prostrado diante do crucifixo, ouviu a voz de Cristo: “Vai Francisco e repara a minha Igreja”. Nove séculos depois, a figura de Francisco, a sua missão, pode transformar-se no programa para o pontificado do Papa Francisco?

“Na escolha do nome, está todo um programa, há uma intencionalidade profunda”, responde Anselmo Borges, sacerdote e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra.

“Ao chamar-se Francisco, quis fazer um corte com a opulência, quis mostrar que estar ao serviço da Igreja não é ter poder, é servir a humanidade. O Papa mostra que quer que os religiosos estejam ao serviço da Igreja e que não estejam na Igreja para se servirem em proveito próprio”, interpreta Carreira das Neves, franciscano e professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

São Francisco tem uma mensagem “de grande modernidade e actualidade”, começa por dizer Vítor Melícias, superior da Ordem dos Frades Menores, os franciscanos, lembrando que o “espírito de Assis” é o da “fraternidade cósmica, da paz universal, do ecumenismo e da abertura às mulheres”. “Santa Clara pode ser uma mulher que inspire este Papa a tomar medidas de dar igualdade de condições às mulheres no exercício dos ministérios”, espera Melícias.

São Francisco teve uma grande abertura ao universo feminino e laico (permitindo as ordens terceiras), nota João Luís Inglês Fontes, investigador em História na Universidade Nova de Lisboa e na UCP. “Tinha um grande acolhimento à diversidade”.

“Esperemos que ponha em prática a opção pelos pobres e que, tal como aconteceu em São Damião, este Papa repare a Igreja que, neste tempo, está tão vacilante na sua fé”, diz Maria da Glória, superiora das Franciscanas Missionárias de Maria, em Lisboa.

Um “jesuíta franciscano”

Francisco é um “jesuíta franciscano”? Manuel Rito Dias, superior da comunidade dos Capuchinhos, em Fátima, outro ramo dos franciscanos, considera que, apesar das duas ordens terem estilos muito diferentes – os franciscanos apostados no trabalho com os mais pobres; os jesuítas com um “estilo mais intelectual, virados para a cultura e a ciência” – é possível ter “um jesuíta com um estilo de vida franciscano, sem renunciar ao seu carisma”. Ou seja, um homem que se inspire em São Francisco de Assis e em São Francisco Xavier, o jesuíta evangelizador. “Os dois completam-se naquilo que deve ser um Papa”, define.

Até porque na “espiritualidade inaciana”, de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, “há muito de São Francisco”, aponta Vítor Melícias.

O modo como nasceram as duas ordens – fransciscana e jesuíta – é muito distinta. No século XII, com o renascimento urbano, com uma sociedade urbana em explosão e a importância crescente do dinheiro, Francisco rompe com as normas, optando pela pobreza e pela penitência. “Uma opção que lhe dá grande liberdade para acolher os que mais sofrem”, explica João Luís Inglês Fontes.

Inicialmente, Francisco de Assis é um homem que atrai muitos seguidores, num movimento de homens que não são consagrados. Francisco de Assis nunca foi padre, foi um leigo até que Roma proibiu a pregação de pessoas não-consagradas e, por isso, aceitou ser diácono.

Origem diferente tem a Companhia de Jesus, que surgiu no século XVI, como resposta ao protestantismo: eram sacerdotes que se propuseram ser um “exército dentro da Igreja para defender o Papa” através da filosofia, da teologia e da ciência, descreve Carreira das Neves. Foram também grandes evangelizadores que compreenderam que a palavra de Deus se espalha através do respeito pela cultura dos outros.

Também os franciscanos evangelizaram, recorda Vítor Melícias, mas, enquanto os jesuítas trabalhavam com as elites, os franciscanos estavam ao lado do povo, repara.

Para o jesuíta Miguel Almeida, director do Centro Universitário Padre António Vieira, em Lisboa, o grande desafio é o de ouvir os cristãos que não estão na Europa e entrar em diálogo com os muçulmanos. E, dentro da Igreja, “encontrar maneiras de ser mais comunidade, mais comunhão”, dando aos leigos um papel mais participativo.

Importância da pobreza

Oriundo da América Latina, o Papa eleito na quarta-feira é um homem que sabe o que é a pobreza e a relação da Igreja com o poder político, nota Inglês Fontes.

Depois do Concílio Vaticano II, a Companhia de Jesus assumiu a vanguarda da Igreja e promoveu a Teologia da Libertação na América Latina, chegando mesmo a envolver-se politicamente. A figura do cardeal Óscar Romero, um teólogo jesuíta assassinado por militares em São Salvador, em 1980, enquanto celebrava missa, marcou a Igreja na América Latina. Outro nome marcante foi o do teólogo Leonardo Boff, um franciscano brasileiro que acabou por se desvincular da Igreja.

No seu blog, Boff afirma que, tal como Francisco de Assis, o Papa Francisco “se deu conta de que a Igreja está em ruínas pela desmoralização dos várias escândalos que atingiram o que tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade”.

“Francisco não é um nome. É um projecto de Igreja pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres a doce palavra “irmãos e irmãs”. Francisco mostrou-se obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu o seu próprio caminho com o evangelho da pobreza na mão”, continua Boff. O teólogo vê o novo Papa como um homem que tem a experiência da pobreza e, como tem uma “nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.”

Para reconstruir “o rosto de uma igreja que está desfigurado”, tal como no tempo de Francisco de Assis, Anselmo Borges valoriza os primeiros gestos e palavras de Jorge Mario Bergoglio e acredita que apontam genuinamente para um programa “franciscano” em quatro pontos essenciais: o retorno ao Evangelho, que “é a constituição da Igreja, não a Cúria nem o direito canónico”; a descentralização, ao reafirmar-se como “bispo de Roma perante os outros bispos” e “não como monarca absoluto”; o diálogo inter-religioso e cultural; e “alguma inclusão” para as mulheres, porque “Jesus tratava bem as mulheres”, tal como Francisco.

E a mensagem do que é considerado o santo mais amado pelos católicos e também o mais radical é recuperada, como programa de acção de um Papa? Para o sacerdote-filósofo, sim. “Vivemos uma crise mundial, procuramos um novo macroparadigma, não só na Europa ou em Portugal, mas no mundo policêntrico, multipolar, poderosamente tecnológico. O mundo está a reconfigurar-se e as pessoas procuram a simplicidade, o amor e sentido para a vida, por paradoxal que pareça”. O modelo de Francisco de Assis que o novo bispo de Roma promete “é luz de esperança”.

Os políticos

“A escolha de São Francisco de Assis é a escolha de uma atitude espiritual e cósmica que hoje em dia ganha uma realidade nova, é a preocupação com os outros e com a natureza, a ideia de que não podemos explorar tudo”, afirma a professora catedrática de Literatura e ex-secretária-geral do Graal, Isabel Allegro de Magalhães, para quem “São Francisco de Assis pode ser recuperado como programa para a vida da polis e como atitude espiritual em relação à apropriação que se faz da terra”.

Por isso Isabel Allegro de Magalhães considera que a escolha do nome Francisco “é uma atitude de simplicidade, mas de proposta para mudança da Igreja”, pelo que “é, nesse sentido, uma proposta de grande radicalidade”.

Por sua vez, o professor universitário e ex-líder parlamentar do BE, José Manuel Pureza, considera que “o ideário franciscano, que é o amor pelos pobres e pelo que é frágil, tem uma dimensão política fortíssima”, e prevê consequências. “É uma opção pelo estilo de vida, não é apenas discursos, é uma prática política que está a aparecer numa estrutura de poder como o Vaticano”, o que a torna “ainda mais interessante”. E assume: “Estou com grande expectativa sobre como se vai resolver este impacto de uma mensagem de defesa dos pobres numa estrutura de poder como a Igreja Católica.”

Isto porque Pureza considera que “só será de facto operante se houver um discurso forte contra as estruturas do pecado, que são as estruturas de exploração e opressão, sobre a precarização”. E afirma: “O Papa vai ter que fazer mais do que um discurso piedoso sobre o que é o sistema financeiro.”

Não escamoteando que o Papa tem já 76 anos e “perdeu parte dos pulmões”, o deputado do CDS João Rebelo diz que “poderá pôr as pessoas e a fé no centro da sua acção e não tanto a preocupação com a organização e com os agentes”. E com alguma ironia, conclui: “Neste sentido podemos dizer, como ouvi ao meu pai, que o Espírito Santo estava a olhar para os cardeais e os inspirou. Para quem acredita que a Igreja é combate pelas pessoas e um olhar para as pessoas, esta nomeação é uma vitória.”

Paulo Rangel, eurodeputado do PSD que se assume como “cristão de cultura católica”, considera que esta escolha do Papa não trará uma “perspectiva política”, mas sim “consequências políticas”. Ou seja, “o programa do pontificado terá implicações práticas, a questão social vai ser uma prioridade, bem como o equilíbrio norte-sul e as assimetrias”. E lembra que “é um Papa que vem de um país, a Argentina, que há mais de uma década está sob resgate e onde apoiou os pobres”.

Defende assim que “haverá o reforço de uma mensagem social com mais clareza e visibilidade, que lhe dará tom político”. Mas acrescenta que o Papa já declarou que a Igreja “não era uma ONG”. O que, para Rangel, significa que o novo Papa “contextualizou a questão social na mensagem religiosa, não a desvalorizou”. Advinha que “a doutrina social da Igreja vai passar para a frente, assim como a luta contra as injustiças”. E “haverá também uma consequência interna de purificação de despojamento da Igreja”.

O eurodeputado avança ainda com um outro ângulo de análise. “A Igreja tem sido atacada pelas posições em relação às questões morais, ao centrar a mensagem na questão social e ao pôr na penumbra a questão moral de vida de cada um, este Papa poderá conseguir um espírito que gerará maior consenso”.

Franciscanos versus jesuítas

Quanto ao facto de o Papa poder abraçar um programa de inspiração franciscana quando tem uma formação de jesuíta, Isabel Allegro de Magalhães considera que “é exagerado pôr os jesuítas no topo da hierarquia intelectual da Igreja, outros grupos têm preparação”. Se há o hábito de “vê-los ligados à Inquisição e ligados às elites, há muitos jesuítas na América Latina que têm apostado na causa dos pobres”. Conclui: “Os jesuítas têm uma forte convergência de pensamento, mas há uma grande pluralidade, como, por exemplo, o padre Arrupe e muitos outros casos na Europa e mesmo em Portugal”. José Manuel Pureza recorda que “a história dos jesuítas na América Latina é uma história e um património de luta, logo no seculo XVII estiveram ao lado dos guaranis”.

Por sua vez, Paulo Rangel diz que ser jesuíta e seguir o ideário franciscano “é compatível” e que “os franciscanos também têm cultura”, lembrando Santo António de Lisboa, um doutor da Igreja que era franciscano.


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