O novo Papa e o poder do simbólico

[Editorial|Públicojorge-bergoglio-el-nuevo-papa-1678185w300|17/mar/2013]O dogma teocrático já não existe, mas vivemos sujeitos ao dogma tecnocrático dos números

OPapa Bergoglio explicou ontem, de forma minuciosa, aos jornalistas que acompanham a transição no Vaticano, o caminho que o levou a escolher o nome de Francisco e o significado desse nome. “Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa, não é?”, disse o Papa sobre Francisco de Assis, em nome de quem se propõe devolver a Igreja à sua missão original, uma igreja que ele quer que seja pobre e dos pobres.

Muitos dos jornalistas que o ouviram na Aula Paulo VI eram não-crentes ou crentes de outras religiões e a todos o Papa saudou, no final, reconhecendo as diferenças entre todos os que ali estavam. Afinal, a Igreja, essa Igreja anacrónica, minada por dentro por intrigas, pela corrupção e pelo escândalo da pedofilia, ainda consegue atrair as atenções do mundo todo. Talvez isso aconteça porque o mundo inteiro está neste momento num impasse. E esse impasse é político ou, melhor dizendo, tem a ver com um impasse da política. Nomeadamente nesta Europa que perde agora para a América do Sul o monopólio do papado que ciosamente preservou durante mais de um milénio.

Fustigados pela austeridade, pelas troikas e pelas dívidas soberanas que é preciso pagar, os cidadãos europeus deixaram de ter capacidade de intervir politicamente nas suas sociedades. E isso não decorre apenas do facto de viverem sob um diktat exterior (um diktat alemão). Decorre do facto de a política ter sido substituída por um jogo de números, os números da economia, aparentemente inexoráveis e realistas. Ainda que, na verdade, eles sejam falaciosos e enganadores, como o atestam as previsões regularmente erradas do ministro das Finanças português. Supostamente, os números dizem que não é possível outra política que não a dos números, que afinal de contas estavam errados.

Por trás desta matemática, e da sua falsa objectividade, estão convicções, uma teoria económica, que, assumindo a verdade de um dogma, se sobrepõe ao político. E fá-lo à escala transnacional das políticas europeias ou pela forma como os mercados controlam em última análise as democracias.

Noutro tempo, o papado e a Igreja eram fonte de dogmas absolutos pelos quais os homens do Ocidente estavam obrigados a reger-se. Oaggiornamento da Igreja ainda está longe de ser completo, mas ela habituou-se a viver com as diferenças, a partilhar o espaço do simbólico que antes queria para si como um monopólio.

Nas democracias europeias, desapareceu a capacidade de mudar o quotidiano através do simbólico, das ideias, do político. Passámos do dogma teocrático ao dogma tecnocrático. Por isso um Papa se torna parte de uma esperança – que, um dia, as palavras voltem a valer mais que os números. Até porque as palavras podem ter mais do que um significado.


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