As confissões do Papa Francisco. Para conhecer melhor o pensamento do Papa Francisco.

Apresentação de trechos do livro “O jesuíta”

[Alexandre Silva|Aleteia.org|16/mar/2013]Como é o Papa Francisco? Ele mesmo respondeu a esta pergunta, em conversas com os jornalistas Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, nas quais fala de tudo: amor pelo tango, vocação, nova evangelização.

Apresentamos alguns trechos das “confissões” do novo Papa, extraídas do livro “O jesuíta” (Editora Vergara, Argentina).

Trabalho
Agradeço tanto a meu pai que tenha me mandado trabalhar. O trabalho foi uma das coisas que mais bem me fez na vida e, particularmente, no laboratório aprendi o bom e o mal de toda tarefa humana (…). Lá, tive uma chefe extraordinária, Esther Balestrino de Careaga, uma paraguaia simpatizante do comunismo que anos depois, durante a última ditadura, sofreu o sequestro de uma filha e de um genro, e depois foi raptada (…) e assassinada. Atualmente está enterrada na igreja de Santa Cruz. Eu a amava muito. (…) Ensinou-me a seriedade do trabalho. Realmente, devo muito a essa grande mulher. (p. 34)

Vocação
Quando rondava pelos 17 anos, em um 21 de setembro (dia em que na Argentina os jovens celebram o dia do estudante), preparava-se para sair para festejar com seus companheiros. Mas decidiu começar a jornada visitando sua paróquia. Quando chegou, encontrou-se com um sacerdote que não conhecia e que lhe transmitiu uma grande espiritualidade, motivo pelo qual decidiu confessar-se com ele. “Nessa confissão ocorreu-me algo raro, não sei o que foi, mas mudou-me a vida; eu diria que me surpreenderam com a guarda abaixada”. Mais de meio século depois o interpreta assim: “Foi a surpresa, o estupor de um encontro; dei-me conta de que me estavam esperando. Isso é a experiência religiosa: o estupor de encontrar-se com alguém que está te esperando. Desde esse momento, para mim, Deus é o que chega na frente. Você o está buscando, mas Ele te busca primeiro. Você quer encontrá-lo, mas Ele nos encontra primeiro”. “Contei primeiro a meu pai e lhe pareceu muito bem. Mas a reação de minha mãe foi muito diferente. A verdade é que ela não gostou.” (p. 34)

Nova Evangelização
“A Igreja, por vir de uma época onde o modelo cultural a favorecia, acostumou-se a que suas instâncias fossem oferecidas e abertas para aquele que viesse, para aquele que nos buscasse. Isso funcionava em uma comunidade evangelizada. Mas na atual situação, a Igreja necessita transformar suas estruturas e modos pastorais orientando-os de modo que sejam missionários. Não podemos permanecer em um estilo ‘clientelar’ no qual passivamente espera que chegue ‘o cliente’, o freguês, mas precisamos de estruturas para ir aos que necessitam de nós, para ir aonde estão as pessoas, até aqueles que desejando-o não se aproximarão de estruturas e formas caducas que não respondem a suas expectativas nem à sua sensibilidade. Temos que ver, com grande criatividade, como nos fazermos presentes nos ambientes da sociedade fazendo que as paróquias e instituições sejam instâncias  que se lancem a estes ambientes. Revisar a vida interna da Igreja para sair em direção ao povo fiel de Deus. A conversão pastoral nos chama a passar de uma Igreja ‘reguladora da fé’ a uma Igreja ‘transmissora e facilitadora da fé'”. (p. 77-78)

Divorciados na Igreja
– O que diria aos divorciados que estão em uma nova união?
-“Que se integrem à comunidade paroquial, que trabalhem ali porque há coisas em uma paróquia que eles podem fazer. Que busquem ser parte da comunidade espiritual, que é o que aconselham os documentos pontifícios e o Magistério da Igreja. O Papa assinalou que a Igreja os acompanha nessa situação. É certo que dói a alguns não poder comungar. O que é preciso nesses casos é explicar-lhes bem as coisas. Existem casos em que isso se torna complicado. É uma explicação teológica que alguns sacerdotes expôem muito bem e as pessoas entendem”. (p. 91)

Aborto e direitos da mulher
– A batalha contra o aborto eu a situo na batalha a favor da vida desde a concepção. Isso inclui o cuidado da mãe durante a gravidez, a existência de leis que protejam a mulher no pós-parto, a necessidade de assegurar uma adequada alimentação dos filhos, como também brindar uma atenção sanitária ao longo de toda uma vida, o cuidar de nossos avós e não recorrer à eutanásia. Porque também não se deve “sub-assassinar” com uma alimentação insuficiente ou uma educação ausente ou deficiente, que são formas de privar de uma vida plena. Se há uma concepção a respeitar, há uma vida para cuidar.
– Muitos dizem que a oposição ao aborto é uma questão religiosa.
– Ora… A mulher grávida não leva no ventre uma escova de dentes; nem um tumor. A ciência ensina que desde o momento da concepção, o novo ser tem todo o código genético. É impressionante. Não é, então, uma questão religiosa, mas claramente moral com base científica, pois estamos na presença de um ser humano.
– Mas a graduação moral da mulher que aborta é a mesma de quem a pratica?
– Não falaria de graduação. Mas sim, a mim me dá muito mais – não digo lástima -, senão compaixão, no sentido bíblico da palavra, ou seja, de compadecer e acompanhar, uma mulher que aborta por vá-se saber quais pressões, do que aqueles profissionais – ou não profissionais – que atuam por dinheiro e com uma frieza única. […] Essa frieza contrasta com os problemas de consciência, os remorsos que, ao cabo de alguns anos, têm muitas mulheres que abortaram. É preciso estar no confessionário e escutar estes dramalhões, pois sabem que mataram um filho. (p. 91)

Educação sexual
A Igreja não se opõe à educação sexual. Pessoalmente, creio que deve existir ao longo de todo o crescimento das crianças, adaptada a cada etapa. Na verdade na verdade a Igreja sempre compartiu a educação sexual, embora aceite que nem sempre o fez de um modo adequado. O que acontece é que atualmente muitos dos que levantam as bandeiras da educação sexual a concebem separada da pessoa humana. Então, ao invés de se contar com uma lei de educação sexual para a plenitude da pessoa, para o amor, cai-se me uma lei para a genitalidade. Essa é nossa objeção. Não queremos que se degrade a pessoa humana. Nada mais. (p. 92-93)

Cozinha
– Cozinha atualmente?
– Não, não tenho tempo. Mas quando vivia no colégio Máximo, de San Miguel, como aos domingos não havia cozinheira, eu cozinhava para os estudantes.
– E cozinha bem?
– Bom, nunca matei ninguém…
(p. 31)

Ping-pong de perguntas e respostas
– Como se apresentaria a um grupo que não o conhece.
– Sou Jorge Bergoglio, padre. É que gosto de ser padre.
– Um lugar no mundo?
– Buenos Aires.
– Uma pessoa?
– Minha avó.
– Como prefere inteirar-se das notícias?
– Lendo os jornais. Ligo o rádio para ouvir música clássica.
– Por que terminou o namoro?
– Descobri minha vocação religiosa.
– Tem algum familiar que também abraçou a vocação religiosa?
– Sim, o filho de minha irmã Marta. É sacerdote jesuíta como eu.
– Algum hobby?
– Quando jovem colecionava selos. Hoje, ler, que me agrada muito, e escutar música.
– Uma obra literária?
– A poesia de Holderlin me encanta. Também. muitas obras da literatura italiana. Li quatro vezes “I promesi sposi” (“Os Noivos” de Alessandro Manzoni, NT). Outro tanto li a Divina Comédia. Também me chegam Dostoievsky e Marechal.
– Borges? Você escreveu sobre ele.
– Nem o que dizer. Ademais Borges tinha a genialidade de falar praticamente de qualquer coisa sem enrolações.
– Borges era agnóstico.
– Um agnóstico que todas as noites rezava o Pai-Nosso, porque o havia prometido a sua mãe e que morreu assistido religiosamente.
– Uma composição musical?
– Entre as que mais admito está a abertura Leonera número três de Beethoven na versão de Furtwängler, que no meu entender é o melhor diretor de algumas de suas sinfonias e das obras de Wagner.
– Gosta do tango?
– Muitíssimo. É algo que me sai de dentro. Creio conhecer bastante de suas duas etapas.
– Sabe dançá-lo?
– Sim. Dancei quando jovem, embora prefira a milonga.
– Seu esporte preferido?
– Quando jovem praticava o basquete, mas gostava de ir ao estádio ver futebol. Íamos toda a família, incluída minha mãe, para ver o San Lorenzo, o time dos nossos amores: meus pais eram de Almagro, o bairro do clube.
(p. 118-120)

Nomeação
– [Depois de uma conversa o Núncio] “me informa: “Ah… uma última coisa… Você foi nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires e a designação será tornada pública em 20…” Assim, sem mais, ele me falou.
– E qual foi sua reação?
– “Fiquei bloqueado. Como assinalei antes, como conseqüência de um golpe, bom ou mal, sempre me bloqueio”.
– Diga-nos, pelo menos, o que sentia quando via seu nome entre os grandes candidatos a Papa… [sobre o Conclave de 2005].
– Pudor, vergonha. Pensava que os jornalistas estavam loucos.
(p. 125-126)

Dor e ressentimento
A dor, que é também outra chaga, é um campo aberto. O ressentimento é como um cortiço, onde vive muita gente apertada que não tem o céu. Enquanto a dor é como uma favela onde as pessoas também se amontoam, mas também se vê o céu. Em outras palavras, a dor está aberta à oração, à ternura, à companhia de um amigo, a mil coisas que dignificam a pessoa. Ou seja, a dor é uma situação mais sã. Assim me dita a experiência. (p. 143)


Um Comentário


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s