Roma espera um milhão de pessoas na “missa simples” de Francisco

[Sofia Lorena|Público|19/mar/2013]Vêm chefes de Estado, republicanos e monarcas, vem o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e a chanceler Angela Merkel, vêm príncipes e ministros e vêm padres e bispos, vêm rabinos e imãs, vem muita, muita gente, mas o que esta manhã terá lugar na Basílica de S. Pedro “não é uma entronização”. Nem poderia sê-lo, disse o porta-voz do Vaticano: o Papa “não é um rei”.

O Papa é um padre e um padre celebra missa. É isso que Francisco fará, uma “missa simples” que durará uma hora, metade da que há oito anos assinalou o início do pontificado de Ratzinger. O Evangelho será “cantado em grego” (e apenas em grego, “porque em latim já há tanto” na liturgia) e o Papa quer começar por saudar os peregrinos e os visitantes numa longa volta pela praça, a bordo do papamobile ou, idealmente, num jipe aberto.

Como sempre até aqui, a missa será em italiano e não em latim. Mas desta vez, e ao contrário do que tem acontecido desde a eleição, na quarta-feira à noite, o Papa já preparou um texto para permitir traduções prévias. “Mas temos visto que gosta de uma certa espontaneidade, e pode dar-se o caso de que acrescente outras frases e observações enquanto fala”, disse o padre Federico Lombardi, na enésima conferência de imprensa que dá desde a renúncia de Bento XVI, a 11 de Fevereiro.

À missa assistirão os membros de 132 delegações políticas, 33 de outras Igrejas cristãs e muitos representantes do judaísmo, do islão e do budismo. Domingo, Francisco falou perante “uma praça que graças aos media tem a dimensão do mundo”. O mundo não vai caber na praça.

Roma enche-se a cada hora que passa. Domingo, no primeiro Angelus do Papa, o Vaticano diz que houve 150 mil pessoas em S. Pedro ou a tentar lá chegar, presas nas ruas em redor. A câmara de Roma estima que foram 300 mil e antecipa para esta terça-feira um milhão. Metro gratuito até às 14h (a missa começa às 9h30, 8h30, em Portugal) para facilitar os acessos, muitas ruas fechadas e medidas de segurança idênticas às que foram mobilizadas para o funeral de João Paulo II, quando até os comerciantes da cidade encerraram as portadas das suas lojas.

O Papa que veio da Argentina dá-se a conhecer um bocadinho mais a cada dia. Na segunda-feira, ficou a saber-se que recusou um anel de ouro, pelo que o anel do pescador será de prata dourada com a imagem de S. Pedro. Francisco vai manter o mesmo brasão – o emblema dos jesuítas, com as letras IHS, uma estrela e uma flor de nardo sob um fundo azul, representando Jesus, Maria e S. José – e o lema que usava em Buenos Aires: Miserando atque eligendo, que evoca uma passagem do Evangelho segundo S. Mateus: “Olhou-o com misericórdia e escolheu-o.”

Como o nome, Francisco, cada pormenor obedece a uma opção, mesmo que a escolha seja simplificar. E este Papa gosta de partilhar os episódios por trás de cada opção.

O lema, explicou Lombardi, vem de uma homilia de S. Beda, o Venerável, e ganhou importância para Jorge Mario Bergoglio quando, aos 17 anos, na festa de S. Mateus, “experimentou de modo muito particular a presença amorosa de Deus na sua vida”. A seguir a uma confissão, diz, “sentiu o seu coração ser tocado e percebeu a descida da misericórdia de Deus que, com um olhar terno, o chamava à vida religiosa, no exemplo de Santo Inácio de Loyola”, o fundador da Companhia dos Jesuítas.

Reflexão, oração e diálogo
Para simplificar, o Papa decidiu manter provisoriamente nos seus cargos todos os altos funcionários do Vaticano. Assim, Lombardi ainda é o porta-voz, do mesmo modo que o cardeal Tarcisio Bertone, que Francisco recebeu segunda-feira, ainda é o secretário de Estado. A decisão, conhecida ainda no fim-de-semana, deixou surpresos alguns dos que mais se surpreenderam com a eleição de Bergoglio. “O santo padre deseja reservar-se um certo tempo para a reflexão, a oração e o diálogo, antes de qualquer nomeação ou confirmação definitiva”, fez saber o Vaticano.

Francisco traz o brasão e o lema que usava em Buenos Aires, e reconduziu os responsáveis da Igreja, mas é em mudança que se pensa sempre que o Papa fala ou que chegam notícias de mais um dos seus gestos, dos passeios de autocarro no Vaticano aos telefonemas para amigos na Argentina. Bergoglio também já foi conhecer o apartamento papal. “Aqui cabem 300 pessoas”, disse. Depois, perguntaram-lhe se queria remodelações. “É lindíssimo e está bem assim”, respondeu.

Quando Bento XVI escolheu renunciar e despedir-se dos fiéis, estava aberta a porta para o fim “da Igreja tal como a conhecemos”, disse-nos o filósofo Giacomo Marramao numa conversa em Roma. “Toda a Igreja Católica vai desaparecer, não os últimos 600 anos, os 2000 anos. É o fim da função pontifical do Papa. A ideia do soberano pontífice vem da Idade Média, não é de sempre. A função de rei nasce no âmbito dos canonistas, é uma construção medieval, depois aperfeiçoada no Concílio de Trento. Mas com grande probabilidade a Igreja inicial deveria ser uma igreja colegial. Por isso, o bispo de Roma devia ser primus inter pares, o primeiro entre iguais.”

Bispo de Roma, assim começou por se apresentar Francisco, o Papa que não quer ser entronizado.

Francisco é o primeiro Papa em 600 anos a suceder a um bispo de Roma vivo. E dom Georg é o primeiro homem da Igreja a servir dois papas: secretário de Ratzinger, o arcebispo alemão Georg Gänswein seguiu Bento XVI na renúncia e continuará a acompanhá-lo na sua vida de Papa emérito. Entretanto, como é também perfeito da Casa Pontifícia, cabe-lhe gerir a agenda do Papa e tem acompanhado Francisco em todos os seus actos públicos.

Caberá a Georg fazer a ponte entre dois papas. Na segunda-feira, Lombardi confirmou que Francisco já tem “à sua disposição” o Relationem, o relatório encomendado por Ratzinger a uma comissão de cardeais depois da publicação, há um ano, de centenas de documentos retirados da secretária do Papa (Vatileaks). A correspondência retrata uma cúria podre e tem muitos protagonistas, mas Bertone é figura central.

O Vatileaks, sobre o qual tantos cardeais fizeram perguntas durante as congregações gerais que antecederam o conclave, mas também a tão esperada reforma da Cúria (o governo da Santa Sé) e do Instituto para as Obras da Religião, o banco do Vaticano, sobre todos estes temas se esperam decisões radicais de Francisco. E sobre todos eles caberá a Georg, figura inédita na história eclesiástica, informar e aconselhar o Papa.

A mensagem mais forte
Esta terça-feira, ainda não é dia de decisões radicais, mas de missa simples no Vaticano. Uma missa que inicia um pontificado de um papa com pouca obra escrita, mas com um pensamento que se conhece e se reafirma a cada dia.

Domingo, na missa que celebrou na Igreja de Sant”Anna, antes de recitar o Anjos, Francisco disse que “a mensagem de Jesus é a misericórdia”. “Para mim, digo-o humildemente, é a mensagem mais forte do Senhor.” Na sua primeira grande encíclica não escrita, o novo Papa lamentou uma sociedade “pronta a condenar em vez de acolher, capaz de julgar, mas não de se inclinar sobre a miséria da humanidade”.

“O Senhor nunca se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de lhe pedir perdão”, diria depois à janela, na praça. “Os pobres são perseguidos por reclamar trabalho e os ricos aplaudidos mesmo fugindo à Justiça”, disse Bergoglio antes de sonhar ser Papa. Quando foi eleito, contou no domingo, escolheu chamar-se Francisco a pensar nos pobres. Nesta terça-feira, começa oficialmente o seu pontificado.


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