Livro da semana: A Páscoa de Jesus

Porque um livro não tem de ser uma novidade para ser de qualidade! O padre François Varillon, jesuíta francês (1905-1978), ficou conhecido sobretudo entre os leitores de obras de espiritualidade (sobretudo em comunidades de vida religiosa) pelos exercícios espirituais por si orientados, segundo a tradição de Inácio de Loyola (publicado em Portugal na AO). A originalidade do pensamento de François Varillon está no modo como consegue ajudar-nos a, através da nossa leitura pessoal e espiritual do Evangelho, aprofundar o Projecto de Deus, revendo – e criticando – algumas imagens tradicionais que temos de Deus. F. Varillon vem de um contexto muito particular, o contexto francês do período pós Concílio Vaticano II em que, numa sociedade já tradicionalmente e maioritariamente não-cristã, os cristãos são chamados – por necessidade! – a aprofundar a sua fé, a dar “as razões da sua esperança” não apenas de um modo teórico ou através de fórmulas, mas num encontro pessoal, adulto e consciente, com o Evangelho de Jesus.

É o caso do terceiro volume dos Exercícios, dedicado à Páscoa de Jesus, nos quais somos convidados a percorrer as páginas bíblicas da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Ao longo destas páginas, somos colocados na pele das personagens evangélicas que se encontram com Jesus e encaramos como, em episódios da nossa experiência pessoal e quotidiana, a presença de Deus se renova. Ao mesmo tempo, somos convidados a reformular ideias “mitológicas” na expressão do autor, como a do sofrimento pelo sofrimento ou como uma pretensa vontade de Deus na morte atroz de seu Filho. Ao mesmo tempo, a Páscoa deixa de ser apenas um episódio histórico interessante ou até comovente, para se tornar o Mistério mais original e profundo da vida humana – uma vida que está em constante e permanente Passagem, Páscoa, Transformação, Renascimento. É assim que Deus actua na nossa história: divinizando, assumindo, vivificando na sua vida o que de mais humano, verdadeiro e fraterno construímos na nossa vida. Um breve excerto de uma obra que merece: «Vamos meditar sobre o Mistério Pascal. Este não é apenas o mistério central do cristianismo. É muito mais do que isso. Em certo sentido, é o próprio cristianismo. Isto significa que nunca havemos de afirmar que estamos no mundo para ser divinizados sem que acrescentemos, imediatamente, que essa divinização implica uma total transformação do que somos. O mistério da morte e da Ressurreição do Senhor significa que não nos tornamos Deus, que não somos assimilados a Deus, que não partilhamos a vida de Deus, que não somos capazes de viver uma vida divina, avançando vagarosamente ao longo de uma costa íngreme. Deus não está no fim do caminho como uma montanha está no termo de uma estrada pela qual avançamos. Pensar assim seria uma infantilidade. Seria absurdo. Deus é Deus. E entre ele e nós há um abismo. Consequentemente, não podemos vir a ser o que Deus é, partilhar a vida de Deus, viver da sua vida, não o podemos de maneira nenhuma, a não ser por uma transformação radical de nós mesmos que implica uma morte (…)

Tenhamos isto bem presente! Quando, no início, dissemos: “Estamos no mundo para ser divinizados”, isto já implicava um mistério de morte e de ressurreição. Morte? Desmistifiquemos a palavra. Trata-se da morte de todos os dias. Da morte ao egoísmo, da morte a nós mesmos, como costumamos dizer. Ressurreição? Atenção! Não se trata de uma reanimação de cadáveres. A ressurreição é a passagem da vida de Cristo ao coração da verdade. O coração da nossa fé, eu diria a base de toda a educação da fé, é que cada um dos nossos actos livres, cada uma das nossas opções, das nossas decisões, é morte e ressurreição, ou seja é sacrifício transfigurante, por conseguinte divinizante. Não há crescimento sem transformação, não há transformação sem morte.»

François Varillon sj, «A Páscoa de Jesus: Viver o Evangelho – III». ed. Apostolado da Oração, Braga 2007, 272 págs.

Rui Vasconcelos


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