O mal: atentado à integridade

O homem é um palco onde o bem se debate com o mal, pois a nossa condição exige a cada momento que cada um de nós decida livremente o que pretende fazer de si

©Carlos Ribeiro

O mal não é uma entidade. Não existe por si só, não tem substância nem consistência, não pode ser olhado nos olhos. É a ausência de bem – uma falha no ser. Ferida que corrompe até ao fundo, albergando-se na intimidade a fim de a destruir completamente.

Trata-se de algo com uma extrema crueldade que deseja aniquilar o que há de mais humano no homem: a nossa integridade. O mal manifesta-se numa vontade potente que visa erguer-se a um estatuto de deus através, não da criação, mas da destruição.

A estratégia é intemporal e imutável: dividir para dominar, fragmentar para enfraquecer. Sempre a partir de dentro, sempre numa base de confiança próxima com que, sem grande dificuldade, atinge as pontes que compõem os alicerces do nosso coração. Assim se destroem identidades, famílias, instituições… assim se vão desfazendo as partes do mundo que preferem a preguiça que esteriliza à fecundidade do amor.

Enquanto o bem cria, reúne e completa, o mal separa, desincorpora e fragmenta. Conversão, perversão: a primeira produz uma verdadeira aliança de todas as partes; a segunda faz de cada elemento um rival de cada um dos demais.

No universo, um buraco negro é algo que se consome a si mesmo, ao mesmo tempo que absorve toda a matéria e luz que lhe chega perto. Excelente metáfora da forma como opera o mal: um egoísmo que se alimenta de si próprio, atraindo a si tudo o que lhe passa perto para o dominar através da anulação.

O homem é um palco onde o bem se debate com o mal, pois a nossa condição exige, a cada momento, que cada um de nós decida livremente o que pretende fazer de si mesmo. São muitas as tentações que pairam diante de nós, caminhos de aparente facilidade que prometem tudo… mas que nunca cumprem o que prometem. No calor do momento, desculpando-nos com a nossa não omnipotência, cedemos à maldade… depois, e ainda sem consciência plena, atribuímos ao destino o que foi, afinal, da nossa responsabilidade…

Existem várias formas de mal, muitas das quais completamente estranhas à vontade humana, e essas também abrem abismos no mundo… escandalizam ainda mais porque escapam a qualquer tentativa de compreensão… o sofrimento aparentemente gratuito de inocentes é um mistério. Mas será essa a razão suficiente para sentenciar o mundo como absurdo?

Muitos pensadores julgaram que a existência do mal era facto bastante para concluírem a não existência do bem. Mas que seria o mal sem o bem? O mal mede-se pelo bem que destrói.
O mal é a prova inequívoca da existência do bem.

Culpar Deus pela presença do mal é uma tentação permanente que serve o propósito de nos escusarmos a lutar contra um inimigo que, dessa forma considerado, deixa de ser nosso, mas que, connosco nessa atitude, encontra as portas abertas para a destruição da nossa paz. Aliás, ele nunca arromba portas…

Que podemos nós contra o mal? Com tempo e em silêncio, cuidar da integridade do que somos. Nunca com pressas. Nunca com argumentos.

O mal é avesso a toda a espécie de pureza… desdobra-se em tentativas incansáveis para a destruir. Todos os dias. Fazer o bem é ser capaz de sempre amar de novo. Todos os dias. Ao milésimo dia como no primeiro…

Naquilo que nos diz respeito, o mal é sempre fruto de uma escolha… onde o bem é também sempre uma possibilidade… Se é um facto que podemos conceber um mundo onde só exista o bem, não conseguimos sequer imaginar um mundo onde apenas o mal exista.

Então, se o mal não tem valor, que sentido pode ter uma vida má?

Só o amor dá valor, sentido e paz à vida de cada um de nós.

[Por José Luís Nunes Martins|ionline|23 Mar 2013]

 


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