Como evangelizar a Semana Santa?

1. A chamada Semana Santa, ou Semana Maior, não tem mais nem menos dias do que as outras. Designa, numa “sociedade pós-cristã”, um tempo de férias escolares e de viagens, com destinos e programas marcados pela publicidade, agora, adaptada aos tempos de crise. As celebrações cristãs desta semana são mais ou menos frequentadas segundo as zonas do país e as tradições locais, muito abaladas pela desertificação rural.
Somos filhos de uma herança cada vez menos conhecida e que também já não sabemos comunicar de modo criador. No entanto, a realidade vai-se construindo, com mais ou menos êxito, numa transfusão de memórias, recebendo e dando sinais de geração em geração para viver e fazer algo de novo. Não sei o que sou e não sou o que julgo ser (A. Silesius). Estamos sempre mergulhados no sensível, no racional e no incompreensível.

©Moni S.

©Moni S.

Em contexto de “Nova Evangelização”, a pergunta inevitável é esta: como evangelizar a Semana Santa? Que fazer para que se torne um intenso retiro consagrado à revisão e transformação da vida? O seguimento de Cristo não é um ritual nem sequer o ritual da Semana Santa. Os fanáticos das rubricas nas cerimónias religiosas ficam satisfeitos ao cumprir um regulamento. Chamam àquilo a Liturgia da Igreja, embora sejam os seus coveiros paramentados.
É verdade que o ser humano, como os outros animais, não pode viver sem rituais, mas quando não procura o seu sentido profundo, torna-se seu escravo. É a lição que a liberdade de Jesus, em relação ao culto do seu povo, nos deixou.
Numa celebração comunitária não se pode prescindir da beleza dos ritos enquanto fontes poéticas e musicais da vida nova. A improvisação, aliás, prevista nos começos do cristianismo, só é possível quando é fruto de um sopro divino e não da negligência.

2. Em todas as celebrações, a referência primordial é o que aconteceu, há dois mil anos, com Jesus de Nazaré: o seu percurso, a sua palavra, as suas opções e o preço que teve de pagar, para não trair o que nele havia de mais íntimo. A fé das comunidades do Novo Testamento nunca conseguiu desligar-se dessa história, mas não era só para a evocar e interpretar, ainda que de mil maneiras. O que nessa história há de salvífico atinge todos os tempos e lugares, se for acolhido no processo de transformação da vida, na liturgia ou no quotidiano: “estarei convosco até à consumação dos séculos” Quais são os gestos, as palavras, as atitudes, os acontecimentos, os estilos de vida que nos dizem hoje que Cristo é nosso contemporâneo?
Não há celebração da Semana Santa sem a dupla leitura da Paixão de Cristo e a Adoração da Cruz. Quem vê de fora pode julgar que é para alimentar um cristianismo sacrificial, mil vezes denunciado. Mas quem nelas participa também se sente interrogado. Jesus sofreu muito, mas pode-se ficar com a ideia de que ele já sabia o desenlace feliz “ao terceiro dia”. Por outro lado, se tinha de passar por aquilo para fazer a vontade de Deus, que Deus ou que Pai era aquele? Adorar a cruz? Jesus alguma vez a adorou? Afinal, a cruz foi-lhe imposta pelos judeus, pelos romanos ou por Deus?
Antes de mais, os textos do Novo Testamento nasceram para superar o absurdo de um Messias crucificado. O que é que realmente se passou com Jesus para chegar aquele ponto? Foi apanhado de surpresa? E Deus, porque o deixou passar por aquela tragédia?
Só um pretensioso insensato poderia tentar responder, em algumas linhas, a este monte de interrogações. Direi, apenas, a minha convicção.
3. Nietzsche, que tanto atacou o cristianismo sacrificial, reconheceu que o Nazareno gostava da vida. Perante a crucifixão de Jesus, todas as tentativas para entender esse acontecimento, sejam elas de adversários, de amigos ou de seguidores, deixam sempre um grande vazio, a impressão de que há algo que escapa a todas as indagações, sejam elas de que tipo forem. Estamos perante o incompreensível. O que não podemos é acrescentar-lhe elaborações ridículas.
Parto do princípio de que gostar de sofrer é uma doença. Nada no Novo Testamento nos diz que Jesus precisava de psiquiatra. A desqualificação ia em sentido contrário: era um comilão e um beberrão (Lc. 7, 34). Mas não são doentes as pessoas que sofrem por muito amar. Uma coisa é amar o sofrimento e outra, muito diferente, é ser capaz de dar a vida por amor.
Jesus aparece na cruz perdido no sofrimento, num sofrimento sem qualquer sentido: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? No entanto, o centurião romano, vendo como havia expirado, confessou: de facto este homem era Filho de Deus (Mc.15, 33-39).
S. Paulo, depois da experiência que teve de Cristo, que lhe transformou a vida, não suportava que o aconselhassem a apresentar Jesus Cristo, pondo de lado a crucifixão. Paulo não cede: “os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que, para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus”.
Jesus é Cristo, é o Messias, precisamente porque é, apenas, o poder e a sabedoria do puro amor.

Frei Bento Domingues


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