“Coragem” vem de “coração”

©MAX ROSSI/REUTERS

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Dezasseis de Março, três dias depois de ter sido eleito Papa, Francisco reuniu-se com os jornalistas de todo o mundo no Vaticano. A sala estava cheia. Seis mil pessoas aguardavam as palavras do novo Papa que, a cada aparição pública, já fizera o mundo parar para o ouvir.

No meio de tudo isto, da emoção e expectativa que havia na sala, o fotógrafo da Reuters Max Rossi decidiu fazer este close up aos sapatos de Francisco.

Não foi uma distracção. Mostrar os sapatos pretos, gastos e confortáveis de Francisco é notícia.

É uma das mil formas com que o novo Papa nos está a mostrar ao que vem. Na noite em que foi eleito regressou ao hotel de autocarro com os cardeais; no primeiro dia do seu pontificado apareceu no “Papamóvel” sem cobertura à prova de bala; não quis um anel de ouro; pediu um crucifixo simples; rezou com cardeais do Oriente, coisa que não acontecia há sete séculos; disse que quer uma “Igreja pobre para os pobres”, que “o verdadeiro poder é o serviço” (“humilde” e “concreto”, explicou).

Já todos percebemos – religiosos e ateus – que vamos ouvir este Papa.

Os sapatos não são tema novo. Muito se falou dos sapatos vermelhos que Bento XVI recuperou, se seriam Prada, etc. Ratzinger calçava sapatos vermelhos porque há séculos que o púrpura imperial é a cor dos sapatos papais. E o próprio João Paulo II, que como Francisco quebrou a tradição e usou sapatos castanhos que encomendava da Polónia, foi enterrado com sapatos vermelhos, que também é a cor da morte e dos mártires.

Mais do que coragem de quebrar a tradição, os sapatos pretos de Francisco são um gesto político. E a “coragem”, aprendi há dias, vem da palavra latina “coração” ou “acto de coração”. Do tempo em que coração era visto como a sede da coragem, o lugar onde estava a “energia moral” que precisamos de ter perante o perigo, como dizem os dicionários contemporâneos.

Bento XVI surgiu várias vezes em público de camauro (o chapéu que parece um gorro de Pai Natal e que tinha sido usado pela última vez por João XXIII nos anos 1960) e de mozzetta (a pequena capa vermelha que cobre os ombros e que também não era usada desde Paulo VI, nos anos 1970). É improvável que Francisco vá usar seja o que for que está nos armários do Vaticano.

Não seria ouvido com a mesma atenção se tivesse um camauro na cabeça? Provavelmente não. O novo Papa quer usar o poder da palavra sem a ajuda dos sinais de poder dos rituais. E com isso está a comover o mundo. Pede-nos para nos “protegermos a nós próprios” e diz que temos de vigiar o nosso coração, o órgão da coragem, porque é “dali que saem as intenções boas e más, as que constroem e as que destroem”.

[BÁRBARA REIS|Público|24.03.13]


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