Francisco, Bismarck e as bem-aventuranças

20130327-143916.jpgNuma obra cimeira, Ser e Tempo, Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, retoma a famosa fábula de Higino sobre o cuidado. O texto latino da fábula conta como Cuidado modelou uma figura a partir do barro, pedindo depois a Júpiter que lhe insuflasse o espírito, levantando-se então uma disputa sobre quem deveria dar o nome a essa figura, pois esse direito era reclamado por Cuidado, por Júpiter e pela Terra. No meio da contenda, foi escolhido Saturno como juiz, que assim decidiu: o nome para a nova criatura será “homem”, pois foi feito a partir da terra, “ex humo” (em latim); na morte, Júpiter receberá o seu espírito e a Terra acolherá o corpo. Mas quem o manterá e terá solicitude com ele enquanto viver será Cuidado. Saturno (o Tempo) escolheu Cuidado precisamente pelo papel decisivo que cuidar desempenha na formação, desenvolvimento e manutenção do ser humano até à morte, incluindo o morrer. Para Heidegger, o cuidado é um existenciário, estrutura originária da existência. O que é a existência sem o cuidado, cuidar e ser cuidado?

No passado dia 19, na Missa do início do ministério petrino do bispo de Roma – já não se fala em entronização -, o Papa Francisco dedicou a homilia precisamente ao cuidado. E disse que os cristãos guardam Cristo na sua vida, “para guardar os outros, salvaguardar a criação”.

Mas a vocação para cuidar, preveniu, “não diz respeito só aos cristãos, tem uma dimensão que antecede e que é simplesmente humana, diz respeito a todos. É cuidar de toda a criação, da sua beleza, como nos é dito no Génesis e como nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo meio ambiente em que vivemos. É o cuidar das pessoas, cuidar de todos, de toda a pessoa, com amor, especialmente das crianças, dos velhos, dos que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos cuidam um do outro; depois, como progenitores, cuidam dos filhos e, com o tempo, também os filhos assumem o cuidado dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um cuidar recíproco, na confiança, no respeito e no bem. No fundo, tudo está confiado à guarda do ser humano, e é uma responsabilidade de todos. Quando não nos preocupamos com a criação e com os irmãos, então ganha terreno a destruição e o coração torna-se árido”, “surgem planos de morte, destrói-se e desfigura-se o rosto do homem e da mulher.”

E Francisco Papa pediu um favor a todos quantos ocupam lugares de responsabilidade no âmbito político, económico ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: “por favor, sejamos ‘guardiões’ da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente; não deixemos que os sinais de destruição e de morte acompanhem o caminho deste nosso mundo”.

Mas, lembrou, para “cuidar e guardar”, precisamos de “cuidar também de nós mesmos. Recordemos que o ódio, a inveja, a soberba sujam a vida”, e é do coração que “saem as intenções boas e más: as que constroem e as que destroem”. E teve esta afirmação inesperada num Papa: “Não devemos ter medo da bondade; mais ainda: nem sequer da ternura.” Acrescentou: “O preocupar-se, o guardar, o cuidar requerem bondade, pedem ser vividos com ternura.” A ternura não é “a virtude dos débeis; pelo contrário, denota fortaleza de ânimo e capacidade de atenção, de compreensão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura”.

O bispo de Roma, sucessor de Pedro, “também tem um poder”, mas “nunca esqueçamos que o verdadeiro poder é o serviço”.

Pela simplicidade, humildade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante. Mas a Igreja é também uma estrutura complexa e um destes dias Francisco vai confrontar-se com o seu governo e ter de fazer reformas profundas na Cúria Romana, reconduzida “até novas ordens”. Aí, enfrentará problemas, pois, como se diz, já Bismarck se queixava, porque com as bem-aventuranças não conseguia governar a Prússia.

Páscoa feliz!


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