Livro da semana: Quem és Tu, Senhor?

Gosto muito de uma frase do Papa Paulo VI, expressa penso que durante o Concílio Vaticano II: «Cristo é o nosso princípio, Cristo é a nossa vida e nosso guia, Cristo é a nossa esperança e nosso fim». Fico sempre muito contente quando é publicado um livro dedicado à pergunta sobre quem é, afinal, Jesus de Nazaré – ajuda-nos, no fundo, a regressar ao fundamento. Foi o que aconteceu recentemente, pela mão do Cardeal Gianfranco Ravasi, biblista, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura e conhecido entre nós pelas suas obras traduzidas em Portugal e pela sua presença no evento «Átrio dos Gentios» em Braga.

«Quem és Tu, Senhor?» é um percurso pelos Evangelhos sobre a figura de Jesus de Nazaré. Com uma linguagem acessível, em diálogo com a literatura e a arte, sem se deter em demasiadas questões históricas ou de interpretação dos textos evangélicos – que também são necessárias – Ravasi apresenta-nos um retrato de Jesus segundo três etapas: «Encontros com o Crucificado Ressuscitado» (os relatos e testemunhos da Ressurreição de Jesus), «A identidade de Jesus: um perfil a descobrir» (algumas questões históricas sobre a vida de Jesus, como a sua formação, os seus traços judaicos, o celibato) e «Anunciador da Alegria» (os modelos de comunicação de Jesus: as parábolas, os milagres e as controvérsias), para terminar numa reflexão sobre a missão evangelizadora do cristão no contexto cultural europeu («Uma Alegria a Anunciar). Um excerto, bem enquadrado no âmbito do site IMissio, sobre Jesus como comunicador.

«Jesus é um comunicador fascinante. Parte do mundo feito de terrenos áridos, de sementes e de semeadores, de plantas daninhas e de messes, de vinhas e de figueiras, de ovelhas e de pastores, de cachorrinhos, de pássaros, de lírios, de cardos, de plantas de mostarda, de peixes, de escorpiões, de serpentes, de abutres, de caruncho, de ventos, de siroco e de nortada, de relâmpagos faiscantes e de chuvas ou de canícula. Nos seus discursos há crianças que brincam nas praças, banquetes nupciais, construtores de casas e de torres, assalariados rurais e rendeiros, prostitutas e administradores corruptos, porteiros e servos que esperam, donas de casa e filhos difíceis, devedores e credores, ricos egoístas e pobres reduzidos à fome, magistrados indiferentes e viúvas indefesas, mas corajosas; há moedas pequenas e grandes, há tesouros escondidos e mesas com alimentos puros e impuros, segundo as regras kasher judaico, e outras coisas ainda (…)

Cristo restabelece uma comunicação pessoal, direta, aberta à relação, fundada sobre o «tu» do outro que se encontra com Ele. Não é um guru que profere oráculos, nem um intelectual sofisticado e desdenhoso, nem um mestre esotérico. Além disso, Jesus aprecia tudo o que é concreto e essencial. Não fala por cima do ombro aos seus interlocutores, não se perde em banalidades, mas aponta para as expectativas decisivas, para as perguntas inquietantes, para as verdades últimas que explicam o presente. Cristo é, além disso, um anunciador global: não é um intelectual que confia apenas na mente e nas letras, mas também não é apenas um agente sociopolítico. Palavras e sinais, mensagem e ação, espírito e corporeidade estão unidos entre si numa revelação integral que conhece a proximidade total do outro. Não é por acaso que os Evangelhos atribuem a Cristo todo o espectro dos verbos expressivos: dizer, falar, fazer, escutar, ver, ir, caminhar, sair, entrar, chorar, exultar, gritar, lamentar-se, confiar, e assim de seguida.

Por fim, a comunicação de Jesus está orientada para o envolvimento, é um apelo, uma interpelação que solicita a adesão e que pode gerar a rejeição. Essa comunicação, se for aceite, torna-se comunhão, intimidade, amizade profunda: ‘Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai’ (Jo 15,15). Estas componentes deveriam ser estruturais, inclusive para a comunicação eclesial. Na verdade, como escreve Cesare Bissoli, «Jesus não é um modelo a copiar, mas a recriar; mais do que imitação que copia servilmente, deve ser seguimento obediente’, capaz de incarnar nas novas e mudadas coordenadas histórico-culturais. Todavia, não é apenas o conteúdo, mas também o modo de comunicação de Cristo, que tem muito a dizer-nos ainda hoje» (pág. 112ss).

Gianfranco Ravasi, 

«Quem és Tu, Senhor? Encontros e desencontros com o Homem que mudou a história»,

ed. Paulinas, Lisboa 2013, 138 págs.

Rui Vasconcelos


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