Livro da semana: Tomados de Assombro

Tomados de AssombroÉ certamente conhecido entre nós um pouco da vida de Carlo M. Martini (1927-2012), biblista, bispo de Milão, autor de numerosos livros de espiritualidade, e uma voz de autoridade a pedir a renovação de uma Igreja (sobretudo na Europa) cada vez mais envelhecida. No livro «Tomados de Assombro» recentemente publicado, são reunidas as últimas homilias pronunciadas publicamente por Carlo Martini, já retirado da diocese de Milão por motivo de idade e de saúde. Homilias que primam, sobretudo, pela brevidade, simplicidade e por se centrarem no texto bíblico e, na maioria das vezes, na pessoa de Jesus (qualidades infelizmente nem sempre presentes nas nossas homilias). Como refere Bento Domingues na apresentação, «são homilias breves, sem serem aforísticas; o biblista, sem pose académica, situa o tempo e o género literário do trecho evangélico e, também, com muita clareza, faz a ponte com o tempo que estamos, hoje, a viver.» Partilhamos uma destas homilias, de um belo contributo, não só para todos os que exercem este ministério, como também para todos os que, por gosto, procuramos nos textos bíblicos as boas notícias de que tanto precisamos.

João 2,1-11: «Ao terceiro dia, celebrava-se uma boa em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá».

«Quem lê, pela primeira vez, o Evangelho de João interrogar-se-á, provavelmente, por que razão o relato começa precisamente com este episódio que poderíamos definir como light, se o compararmos com o início dos outros Evangelhos, os quais, pelo contrário, nos colocam perante uma humanidade formada por leprosos, paralíticos e endemoninhados. Aqui, pelo contrário, estamos entre as pacíficas paredes domésticas de uma casa da Galileia, no momento culminante de uma bela festa, quando já se começaram a entoar canções populares e se marcou o ritmo das danças, enquanto por toda a parte se espalha o sentimento de uma alegria envolvente.

Porque é que o evangelista se coloca diante desta cena, onde a intervenção de Jesus até se poderia revelar supérflua? Com efeito, o vinho não serve para nada, a não ser para alegrar o coração, enquanto a multidão dos famintos está à porta e espera. Aliás, todos os outros “sinais” de Jesus narrados por João dizem respeito a pessoas em grave necessidade ou perigo, como o paralítico, os famintos da Galileia, Lázaro no sepulcro, ou pessoas em ansiosa busca da verdade, como Nicodemos, ou ainda, pessoas descontentes consigo mesmas, como a samaritana. Somos convidados, portanto, a procurar, nas entrelinhas do relato, os grandes significados que lhe atribui o evangelista, a começar por aquele muito simples de que a Jesus e à Mãe não interessam apenas as nossas lágrimas, mas também as nossas pequenas alegrias de cada dia. Podemos recebê-las, portanto, com gratidão e desfrutá-las no Senhor.

Partindo desta simples constatação, podemos depois, pouco a pouco, identificar no relato uma grande riqueza de símbolos que nos conduzem a realidades mais elevadas. Antes de mais, a seriedade e a santidade do matrimónio, a que Jesus quis assistir, como primeiro ato do seu ministério. Depois, a indicação inicial – por si só não estritamente necessária – do “terceiro dia”, uma expressão que, no Novo Testamento, evoca a morte e ressurreição de Jesus, fonte de toda a alegria no coração do homem. Também as palavras de Jesus “ainda não chegou a minha hora” nos recordam aquela hora para a qual Ele veio, e que agora pesa sobre nós de modo inexorável, porque, como se exprime São Paulo (cf. Rom 13,11-12), a “noite vai avançada, aproxima-se o dia” e “já é tempo de acordarmos do sono”, pois a nossa salvação está próxima.

Finalmente, o vinho, transformado por Jesus a partir da água numa quantidade quase desproporcionada, é o símbolo da alegria de Deus e do homem, e opõe-se à tristeza, à rotina quotidiana, à repetibilidade, ao tédio. É o jorrar alegre do homem que abandona as precauções e os medos e entra em ação com alegria. Nesse sentido, podemos dizer que o vinho representa o “supérfluo necessário” para a existência humana. Assim, também este episódio é digno de abrir um Evangelho como o de João, que nos introduzirá pouco a pouco nos desígnios de Deus.»

Carlo Maria Martini,

«Tomados de Assombro»,

ed. Paulinas, Lisboa 2013, 174 págs

 

Rui Pedro Vasconcelos


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