A felicidade de ser igual aos outros

E qual será o problema de procurar a felicidade? Não é a felicidade uma legítima aspiração individual?

Perdi o primeiro Dia Internacional da Felicidade.

Ignorava que 20 de março tinha sido oficialmente consagrado como tal pelas Nações Unidas e por isso, em vez de celebrar o dia com uma das atividades que a literatura de auto-ajuda consagra como ideais para a felicidade – pensar de forma positiva, acreditar em mim, meditar, autoconhecer-me, repetir cem vezes os meus objetivos de vida –, passei um dia como outro qualquer, na felicidade “ruminada” dos portugueses, como o sociólogo Albertino Gonçalves tão bem descreveu.

A nova efeméride parece ter sido mais um passo na escalada da obsessão ocidental pela felicidade, havendo já cursos superiores sobre felicidade, investigações científicas sobre felicidade, um campo da Psicologia Positiva, 48 palestras TED sobre felicidade, fóruns de felicidade, clubes universitários de felicidade, milhões de livros sobre como atingir a felicidade, etc., etc.

E qual será o problema de procurar a felicidade? Não é a felicidade uma legítima aspiração individual?

Sem dúvida, como desejo específico e inimitável de cada um de nós. A partir do momento em que a felicidade passa a ser uma preocupação, quase uma imposição, coletiva, algo de sinistro surge nela. Até porque essa felicidade surge quase sempre como uma anulação de sentimentos extremos como a tristeza, a fúria, a frustração, o ciúme ou a raiva, como se tais emoções fossem negativas ou pecaminosas, e não estados naturais do fluir humano.

A raiva, por exemplo, que o dicionário define como ódio, agressividade, irritação contra uma injustiça ou frustração percebida, mas também como desejo intenso, paixão amorosa ou delírio divinamente inspirado, é uma emoção que pode ser destruidora, mas que também nos assinala como indivíduos únicos no mundo, afirma a nossa diferença interior e move-nos a mudar as coisas à nossa volta. É a raiva que faz reinventar o mundo, não a felicidade.

O filósofo Michel Foucault acreditava que a história da humanidade era a história da forma como o Estado nos tenta tornar cada vez mais iguais aos outros: nos corpos, nas ideias, nos comportamentos e nas emoções. A felicidade de massas talvez seja apenas mais um passo nesse sentido, até que um dia a tristeza, o luto ou o ressentimento já não sejam emoções únicas no nosso íntimo, mas perigosas ameaças à felicidade internacional.

Jorge Palinho|P3|12/abril/2013


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