DEUS NÃO TEM PLANOS, TEM SURPRESAS!

Image1. A «caminhada« quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível, surpreendente amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), baptizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Actos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,37-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Baptismal.

 2. Deus não tem planos, tem surpresas. É, portanto, sempre desmedido e surpreendente quanto vem de Deus. Brota do excesso de Deus, que supera em muito as nossas necessidades e capacidades. Aí está, neste Domingo V da Quaresma, a imensa lição do Evangelho de João 8,1-11. Esta passagem parece uma incrustação no IV Evangelho, pois interrompe o discurso de Jesus durante a Festa das Tendas (7,1-8,59), não aparece nos manuscritos mais antigos e nos códices antigos mais importantes dos Evangelhos, nem nos Padres gregos. Omitem-na nos seus comentários Orígenes, João Crisóstomo, Teodoro de Mopsuéstia, Cirilo de Alexandria, Teófilo, Tertuliano, Cipriano, Hilário e Taciano. Os Padres latinos Ambrósio, Agostinho e Jerónimo conhecem-na noutro lugar. Alguns manuscritos situam esta perícope no Evangelho de João depois de 7,36, outros depois de 7,44, outros depois de 7,52, ou mesmo no final, depois de 21,25. Outros ainda introduzem-na no Evangelho de Lucas (depois de 21,38). Por outro lado, a perícope não tem o estilo joanino. Está, de facto, mais perto do estilo lucano.

 3. Fixemos a nossa atenção no movimento do texto. Jesus SENTA-SE como MESTRE, para ensinar, e SENTADO como MESTRE permanece na cena até ao fim. Apenas se inclina para o chão, e de novo se endireita, nunca deixando, porém, a posição de SENTADO. Portanto, permanecendo SENTADO, está sempre na cátedra a ensinar. Nele tudo é lição. São lição os seus gestos; são lição as suas palavras.

 4. Entram na cena os «impecáveis» do costume: os escribas e os fariseus. Desta vez não vêm sós. Trazem uma mulher apanhada em flagrante adultério. Eles conhecem a Lei de Moisés, que citam a propósito, para dizer que tais mulheres devem ser apedrejadas. Mas, roídos de malícia, querem saber o que, sobre este assunto preciso, tem a dizer o MESTRE Jesus. Só isto: permanecendo SENTADO como MESTRE, inclinou-se, e, COM O DEDO, escrevia no chão. Continuar a ler

QUARESMA NÃO É FICAR AQUI, NO PENÚLTIMO

©Garcia Fernandes - A Transfiguração - 1537 - Museu Nacional de Arte Antiga

©Garcia Fernandes – A Transfiguração – 1537 – Museu Nacional de Arte Antiga

1. Baptizado no Jordão enquanto estava em oração (nota típica de Lucas), tentado, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial baptismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Baptismo consumado!) em que nós somos por Ele baptizados com o fogo e com o Espírito Santo (ainda o luminoso texto de Lc 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje a Transfiguração, Luz incriada e inacessível (Lc 9,29; cf. S1 104,2; 1 Tm 6,16) que investe a Humanidade de Jesus, experiência momentânea da Ressurreição, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial baptismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Também aqui temos a nota típica de Lucas de que Jesus subiu ao monte para orar, acontecendo a Transfiguração do Rosto e das vestes enquanto orava (9,28).

 2. Baptizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Baptismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» – «o Eleito» (Lc 3,22; 9,35), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Dt 18,15-18. Como dispunha a Lei antiga, que requeria duas ou três testemunhas (Dt 17,6), testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos, os quais são igualmente transfigurados / confirmados, não no Rosto e nas vestes, mas no coração, para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele.

 3. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado. É para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os profetas e os Salmos, falam acerca d’Ele! (Lc 24,27 e 44; Jo 5,39 e 46; Act 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Só em Lucas temos o assunto falado: «falavam do Êxodo d’Ele que se consumaria em Jerusalém!» (9,31). Passagem deste mundo para o Pai, Liberdade definitiva, cumprimento do Êxodo antigo!

 4. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial baptismal até à Cruz: «Mestre, belo é estarmos aqui e fazermos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias» (Lc 9,33). Aqui significa deter-se no penúltimo e provisório e recusar caminhar para o último e definitivo! Lc 9,33 (e Mc 9,6) anotam correctamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido baptizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, baptizado /confirmado, levar por diante a missão filial baptismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

 5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os baptizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração da Humanidade do Senhor, a divinização por graça.

 6. Em consonância com a manifestação de Luz do Evangelho da Transfiguração (Lc 9,28-36), aí está o Lume Aceso, que é Deus, a passar pelo nosso mundo (Gn 15,5-12 e 17-18). Abraão representa-nos. Tem dúvidas. Deus dissipa-lhas, comprometendo-se com ele e connosco. O ritual que sela este compromisso é antigo, mas ainda hoje se pratica entre os beduínos. Cortam-se ao meio animais puros, e põe-se uma metade diante da outra. A seguir os contraentes passam entre as carnes divididas dos animais, proferindo uma auto-maldição, do género: «Suceda-me o que sucedeu a estes animais, se eu não for fiel à palavra dada!». Note-se que, no texto de hoje, caiu sobre Abraão (e nós com ele) um sono profundo, dom de Deus (veja-se o mesmo sono no Evangelho de hoje: Lucas 9,32), e é só Deus, no fogo, que passa por entre as carnes divididas dos animais. Só Ele, portanto, se compromete. Nós, ensonados e ensonhados, somos apenas beneficiários deste compromisso de Deus de levar a nossa história em direcção a Cristo, que é a verdadeira descendência de Abraão (Gl 3,16), que Abraão vê e saúda de longe (Hb 11,13), cheio de alegria (Jo 8,56). A meta de Abraão torna-se clara e define e alumia a estrada que segue. Por isso, Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. É tão simples, tão novo e tão decidido este sono / sonho dado a Abraão, a Pedro, João e Tiago! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Is 51,2). E partir com ele daqui, do penúltimo e provisório, ao encontro de Cristo Transfigurado / Ressuscitado.

 7. A Carta de Paulo aos Filipenses (3,17-4,1) põe outra vez tudo às claras: ou agarrados aqui ao penúltimo e provisório, ou a caminho do último, da cidade dada por Deus aos seus filhos e filhas, vida nova e transfigurada e conformada à Humanidade glorificada de Cristo.

 8. A Quaresma é esta estrada de Luz e de Jesus.

D. António Couto|MesadePalavras

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

©imissio

©imissio

Vem pelo cais uma criança a correr

Traz uma pomba branca pela mão
Uma criança não tem onde morrer
O seu único haver é o coração.

 1. Sobre esta terra térrea e escura há-de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lucas 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lucas 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lucas 1,78; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20), Rebento tenro na terra germinando (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações duros e escuros como o breu.

  2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria (Lucas 1,31; 2,21). Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus omnipotente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

 3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê (forma verbal: anatéllô), que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa alegria.

 4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, «compor no coração as palavras que acontecem e não esquecem» (Lucas 2,19), estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Números 6,22-27).

 5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão.

 António Couto

in Mesa da Palavra