Como evangelizar a Semana Santa?

1. A chamada Semana Santa, ou Semana Maior, não tem mais nem menos dias do que as outras. Designa, numa “sociedade pós-cristã”, um tempo de férias escolares e de viagens, com destinos e programas marcados pela publicidade, agora, adaptada aos tempos de crise. As celebrações cristãs desta semana são mais ou menos frequentadas segundo as zonas do país e as tradições locais, muito abaladas pela desertificação rural.
Somos filhos de uma herança cada vez menos conhecida e que também já não sabemos comunicar de modo criador. No entanto, a realidade vai-se construindo, com mais ou menos êxito, numa transfusão de memórias, recebendo e dando sinais de geração em geração para viver e fazer algo de novo. Não sei o que sou e não sou o que julgo ser (A. Silesius). Estamos sempre mergulhados no sensível, no racional e no incompreensível.

©Moni S.

©Moni S.

Continuar a ler

Economia do bem comum – modelo alternativo?

©Enrique Garcia Medina

©Enrique Garcia Medina

[Frei Bento Domingues|Público|17/mar/2013]1. Quando, perante uma situação insuportável, na Igreja ou na sociedade, no âmbito teológico ou político, se diz que não há alternativa, é sinal de que a ditadura não anda longe. Se não for passagem para uma possível superação, o simples jogo dos “prós e contras” não passa de um entretém. O importante é uma arquitectura que supere e integre o que existe de fecundo entre posições que enlouquecem no isolamento ou no choque frontal.

Na Doutrina Social da Igreja (DSI) (1), o tema do bem comum é incontornável. Para João Paulo II, constituía mesmo o seu ponto-chave.

Para Friedrich A. Hayek, o bem comum é um conceito primitivo que remonta aos instintos ancestrais de tribos de caçadores, no tempo em que as pulsões colectivistas dominavam a consciência humana.

Ao contrário deste célebre autor, a noção de justiça social e de bem comum têm outras fontes, bíblicas e greco-romanas, alimentadas por alguns Padres da Igreja. Tomás de Aquino, na linha de Aristóteles, deu a este conceito a função de princípio da sua arquitectura ético-política.

Já Santo Agostinho (2) via que a questão social não se resolve com falsos elogios à caridade: “não devemos desejar que haja indigentes para poder exercitar as obras de caridade. Dás pão ao faminto, mas melhor seria que ninguém passasse fome e não fosse necessário socorrer ninguém. […] Todas estas acções são motivadas pela misericórdia. Esquece, porém, os indigentes e logo cessarão as obras de misericórdia; mas acaso se extinguirá a caridade? Mais autenticamente amas o homem feliz a quem não há necessidade de socorrer; mais puro será este amor e muito mais sincero. Porque, se socorres o necessitado, desejas elevar-te acima dele e que ele te fique sujeito, porque recebe de ti um benefício. O necessitado, tu o ajudaste por isso te crês como superior aquele a quem socorreste”.

No pensamento de Tomás de Aquino, recolhido na DSI, o princípio dos princípios é o destino universal dos bens, que não impede a propriedade privada, mas não faz dela um absoluto. É, precisamente, o conceito de bem comum que integra os direitos e os deveres das pessoas, num todo, sem excluir ninguém. Pertence à virtude da justiça garantir que os direitos e deveres de uns não neguem os direitos e deveres de outros. Continuar a ler

Não é a Quaresma que conta, mas a Páscoa

1. A religião é o mundo que toma a direcção de Deus; o cristianismo é Deus que toma a direcção do mundo. Os seres humanos que creem Nele seguem a Sua direcção.

Esta é a posição do teólogo Urs von Balthazar. Parece-me justa, mas atrapalha a mística de olhos fechados, a preferida dos tempos que correm. Nesta Quaresma, em Portugal, chegámos demasiado depressa às expressões de “Sexta-feira Santa”: em muitas cidades do país, saíram à rua multidões que já não podiam esconder mais uma imensa desilusão e enorme tristeza. Seria importante saber qual foi o impacto destes acontecimentos nas celebrações dominicais e nas vias-sacras, entretanto muito revalorizadas. Bento XVI, no passado dia 14, num encontro com o clero de Roma, ao recordar as descobertas e opções do Concílio Vaticano II, destacou a importância de se ter começado pela reforma litúrgica. O Mistério Pascal é o centro da vida e do tempo cristão, do tempo pascal e do Domingo, dia da Ressurreição. Do encontro com o Ressuscitado saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que, hoje, o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o dia do início.

Uma das perguntas inevitáveis é esta: para que mundo nos envia a ressurreição dominical? Mas antes quem é este nós?

J. Ratzinger, quando ainda era Papa, recordou que foi a redescoberta da teologia do Corpo Místico (Mystici Corporis) que fez crescer a fórmula: “Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o “nós”, o verdadeiro “nós” dos crentes, juntamente com o “Eu” de Cristo é a Igreja”.

Para que mundo nos envia esse “nós” que a Eucaristia dominical celebra? É o mundo a alterar durante a semana: na família, no trabalho, na escola, no desporto e no lazer, na solidariedade, no voluntariado, etc. Com uma particularidade: levar estes celebrantes a ver o mundo a partir dos excluídos. Ir da periferia para o centro. Se começarem no centro, nunca mais chegam à periferia. Seja como for, foi o método seguido por Jesus. Estragou o sábado a muita gente.

2. Dada a situação do país, para além do imenso esforço de solidariedade das comunidades cristãs, é preciso uma grande convocatória em prol da justiça para que haja paz. Como disse Sto Agostinho, na Cidade de Deus: “Eliminada a justiça, que são os Estados senão grandes salteadores?”

Para que não haja nem a tentação, nem a imagem de uma tentação, de que a Igreja quer mandar na sociedade ou no Estado, quer fazer política partidária ou formar um partido confessional, o caminho dessa convocatória deve envolver as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas, padres e bispos. Todos juntos teremos de responder à pergunta: se estamos no Ano da Fé para acolher o Vaticano II, que fazer para que o documento A Igreja no mundo contemporâneo se transforme no fermento das nossas igrejas locais perante os problemas sociais, económicos, financeiros, culturais em que nos encontramos?

O objectivo desta convocatória não é criar uma alternativa política, mas alterar a política, alterando a mente e o comportamento dos cristãos face às exigências do bem comum. Depois, é deixar a consciência de cada um em liberdade.

3. Jesus Cristo lembrou aos seus contemporâneos que, para aquilo que os interessava, sabiam ler os sinais do tempo: “Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vem chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento do sul, dizeis: vai fazer calor, e isto sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e porque não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12, 54-59)

Um dos desafios importantes do Vaticano II foi, precisamente, este: as Igrejas devem capacitar-se para saberem ler os sinais dos tempos. Hoje, as sociedades dispõem de serviços meteorológicos com muitas e úteis funções: para viajar, para a agricultura, para prever alterações na natureza e nos cuidados a ter com o meio ambiente, para não sermos vítimas dos males que semeamos. Existem também muitos centros de investigação da sociologia das religiões. Podemos conhecer o seu número, as características de cada uma, a sua geografia, se estão a crescer ou a diminuir, se são pacíficas ou agressivas.

Segundo a Fé cristã, e não só, em Deus vivemos, nos movemos e existimos. Não em regime de fuga do mundo, mas numa história em contínuas transformações que afectam não só a vida, mas a sua própria interpretação. Somos do Eterno no tempo e os tempos não são todos iguais, não têm todos as mesmas características. Os horizontes mentais vão sendo modificados por novas descobertas científicas, geográficas e culturais. Seja no plano religioso, seja na vida profana, é inevitável a pergunta que a encarnação da Fé cristã levanta: no seio das realidades terrestres em que passamos a maior parte do nosso tempo, que sentido têm as nossas actividades para a construção o reino de Deus?

A teologia dos sinais dos tempos exige esta investigação.

[|Público|10/mar/2013]

Venha o novo Papa

1. O Código de Direito Canónico (Cân.401) reza assim: roga-se ao bispo diocesano, que tiver completado 75 anos de idade, que apresente a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice. O cardeal Ratzinger, quando foi eleito Papa, isto é, bispo da diocese de Roma, testemunha da fé apostólica de Pedro e Paulo, em comunhão e ao serviço dos bispos das outras dioceses da Igreja Católica, já tinha 78 anos. Quanto à idade, um bispo diocesano merece mais cuidados do que um Papa, que tem uma responsabilidade muito mais ampla e pesada.

O alarido em torno da renúncia de Bento XVI deve-se à estranha ideia de que ele desempenhava um cargo vitalício. A possibilidade de um Papa renunciar está prevista no Direito Canónico (Cân. 332 § 2). O próprio Bento XVI, em 2010, mostrou que poderia vir a ser confrontado com essa situação: “Quando um Papa tem clara consciência de que já não está em grau de cumprir os deveres do seu ofício, física, psicológica e espiritualmente, tem o direito, e em algumas circunstâncias, também o dever, de se demitir”.

Muitos de nós fomos testemunhas das dificuldades físicas que João Paulo II enfrentou, durante anos, ao não atender a esse critério. É certo que foi encontrada, para uso interno, uma “mística da imolação” pelo bem da Igreja, que convenceu apenas os já convencidos. Era demasiado evidente que ele já não se encontrava em condições de responder às enormes carências e responsabilidades da Igreja no século XXI. A falta de atenção aos sintomas de uma certa degradação, em determinados ambientes eclesiásticos e na Cúria Romana, assim como a persistência do sistema de abafar as vozes discordantes, acabaram por adiar uma reforma que se mostra cada vez mais urgente.

2. Em 1999, durante o Sínodo Internacional dos Bispos, convocado por Wojtyla, para analisar a Europa, após a queda do Muro de Berlim, o então arcebispo de Milão, cardeal Martini, surpreendeu os outros padres sinodais, ao evocar o “sonho” de um novo Concílio que tivesse a coragem de discutir os problemas mais espinhosos: “A eclesiologia de comunhão do Vaticano II”, a carência já dramática de padres, a posição da mulher na sociedade e na Igreja, a participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, o tema da sexualidade, a disciplina católica do matrimónio, o ecumenismo e as relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia.

Era essa uma agenda crucial, que os Papas Wojtyla e Ratzinger nunca tiveram coragem de enfrentar, mas à medida que o tempo passa, tudo se vai complicando de forma dramática.

Bento XVI espelhou a situação, subjectiva e objectiva em que se encontra: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.”

3. Até à eleição do novo Papa, vão surgir muitas projecções, dentro e fora da Igreja, segundo os grupos e as tendências, acerca das possíveis figuras, desejadas ou não, para ocupar a cátedra de Pedro. Muito em breve, a lista dos papabili, ao ritmo do sobe e desce, irá circular e cada um poderá ir construindo também a sua. Bento XVI já balizou o espaço no qual os eleitores se devem mover: “Procurar alguém que perceba o ritmo deste tempo de rápidas mudanças e seja capaz de identificar quais são as questões, de grande relevância para a vida da fé, no governo da barca de S. Pedro e no anúncio do Evangelho”. Para esta tarefa, a assistência do Espírito Santo está divinamente garantida, mas Ele não costuma agir sozinho, nem substituir o discernimento dos eleitores.

A graça não substitui a natureza e sendo assim, o importante é garantir um método de eleição, humanamente fiável, no interior da vida da Igreja, cujas preocupações têm de ser as de Cristo. Para governar a barca de Pedro, além de comprovada capacidade de liderança espiritual, cultural e pastoral, o Papa deve mostrar, sobretudo, um grande gosto de escutar e de consultar, não só os seus irmãos no episcopado, mas sobretudo a vida concreta das pessoas, dentro e fora das comunidades cristãs, em diálogo com todas as correntes que atravessam as sociedades. Em todo o caso, o Papa, bispo de Roma, não deveria poder ser escolhido por tempo indeterminado, nem ultrapassar a idade de 75 anos, aquela que está marcada para todos os bispos. A Igreja não pode ser uma monarquia absolutista e vitalícia.

Frei Bento Domingues|Público|17/02/13

©Venhaonovopapa_170213_Publicop42

©Venhaonovopapa_170213_Publicop42