Proposta de leitura_#2

A revista italiana MicroMega lançava um volume sobre o confronto entre Fé e Razão, com textos, entre outros, do seu Director, Paolo Flores d’Arcais, e do então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger. Para o efeito, organizou um debate com ambos os autores, num lugar público de Roma, e sob moderação do jornalista Gad Lerner. O histórico diálogo foi seguido por mais de duas mil pessoas, dentro e fora do Teatro Quirino (muitas em plena rua, recorrendo-se a um amplificador improvisado).

“Existe Deus? — Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo” apresenta a transcrição desse debate, bem como dos textos de Ratzinger e Flores d’Arcais que estavam, nesse dia, a ser lançados.

Intimidade com Deus.

[youtube http://youtu.be/dM2wwF9FwVI]

Ouviste a voz do Verbo, a Palavra de Deus. […] Levanta-te e prepara o fundo da tua alma pela oração. Vai de baixo para cima, esforça-te por abrir a porta do teu coração. Quando ergueres as mãos para Cristo, as tuas ações exalarão o perfume da fé. […]

Eis como Cristo te desejou, eis como te escolheu. Se te abrires para Ele, Ele entrará; não deixará de o fazer pois prometeu-o. Abraça então Aquele que procuraste (Ct 3,4); aproxima-te d’Ele e receberás a Sua luz (Sl 33,6); demora-O, pede-Lhe que não Se vá embora tão depressa, suplica-Lhe que não Se afaste. Com efeito, a palavra de Deus corre rapidamente (Sir 43,5), não se deixa prender pela frouxidão, a preguiça não a detém. Que a tua alma, à Sua chamada, vá ao Seu encontro e persevere no caminho traçado pela Sua palavra celeste, pois Ele passa rapidamente. […]

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão

Como orar?

Marco Basaiti (det.)

1. Numa perseverança confiante

A partir do momento em que compreendemos os sentimentos paternais do Deus, a perseverança confiante na oração surge naturalmente.

“Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á” (Lucas 11, 9-10).

Pedi, procurai, batei… Pedi tudo, pedi o Espírito, procurai Deus, batei à porta do Reino: “Abre-nos, Senhor” (Lc 13, 25-27).

Batei à porta que é Cristo, Ele que é o caminho que conduz ao Pai; através das suas feridas, acedemos ao Pai, que é o primeiro a procurar-nos no seu Filho.

“Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Apocalipse 3, 20).

Portanto, quando rezo, a minha oração é o eco da oração de Deus. Sendo assim, como pode Ele recusar, recusar-Se?

Mas é preciso que a minha oração seja, antes de tudo, humilde.

2. Com a humildade das mãos vazias: o fariseu e o publicano (Lc 18, 10-14)

O importante é que a confiança que devemos ter na oração não seja fundada sobre a nossa própria “justiça”, mas unicamente na bondade misericordiosa de Deus, que é um fundamento infinitamente mais sólido.

Leiamos a parábola no presente. O fariseu e o publicano são cada um de nós. O fariseu faz valer-se da sua fidelidade às prescrições da Lei, chega mesmo a dar graças a Deus por aquilo que é, e isso é bom. Mas não é verdadeiramente consequente com ele próprio. Em lugar de fazer subir a Deus a justiça que acredita descobrir nele, atribui-a a si próprio e daí tira um motivo de orgulho pessoal. Ele não é nem um mendigo nem um “servo inútil”, está cheio de si mesmo. A sua atitude de menosprezo para o seu irmão publicano é o fruto inevitável dessa atitude.

O publicano, por seu lado, contenta-se em pedir a Deus que o perdoe, dado que se sabe pecador. A sua atitude é simples. É um homem que cumpre os seus deveres religiosos, visto que sobe ao Templo para orar, tal como o fariseu. Contudo não apresenta as suas boas acções diante de Deus. Ele sabe simplesmente que é pecador mas que o Pai é bom; entrega-se à misericórdia de Deus. Esta disposição vale-lhe o perdão, enquanto que o fariseu permanece fechado na cegueira da sua própria “justiça”.

“Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 14).

O humilde coloca a sua confiança só em Deus. Por trás desta simples parábola projectam-se as vertiginosas profundezas da doutrina sobre a fé que salva por si própria, antes de todo o mérito. A bondade, o amor gratuito do Pai são a nossa única segurança, a nossa única garantia.

“Que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4, 7).

Que liberdade nesta pobreza radical!

Ser filhos, unicamente suspensos pela bondade infinita do Pai eterno.

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