Tolentino de Mendonça: “A Igreja não precisa só de correcção, precisa de inspiração”

Para o poeta e teólogo, o novo Papa inspirou-se em Francisco de Assis para mudar através do carisma e da inspiração uma Igreja que está preparada para a mudança.

©RUI GAUDÊNCIO

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Poeta, professor de Teologia. vice-reitor da Universidade Católica, responsável pela Capela do Rato e da Pastoral da Cultural, José Tolentino de Mendonça diz que a Igreja Católica está preparada para a mudança e que o Papa Francisco está pronto a transformá-la através do carisma. Nesta entrevista, identifica as cinco mudanças que considera prioritárias para a Igreja, revisita as polémicas em torno do passado do cardeal Bergoglio, a relevância de um Papa latino-americano e a relação entre a Igreja e a crise da Europa. O escritor que escreveu um poema para Bento XVI diz que já está a ouvir o poema que o Papa Francisco começou a escrever.
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Que espera o mundo da Igreja?

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[Jorge Paulo|O Ouro de Silêncio|12/mar/2013] Que espera o mundo da Igreja? Qual a visão que o mundo tem da Igreja real? Uma séria investigação que responda a estas duas interrogações poderia ser de grande auxílio na consecução do processo de autorreforma da Igreja Católica.
Sem querer adiantar-me aos resultados de uma tal pesquisa, parece-me que o mundo espera da Igreja que seja coerente com o ideal que ousa pregar, com a mensagem originária do cristianismo. E num mundo onde a informação corre à velocidade da luz, onde a evolução é constante e vertiginosa, o mundo espera da Igreja que anuncie o fundamento seguro de toda a atitude religiosa e simultaneamente se liberte de um discurso dogmático, pré-construído, formulaico e frio. Que adote, portanto, uma linguagem mais afetiva e menos rígida; que condene menos e compreenda mais; que seja lenta no juízo negativo sobre os desenvolvimentos do mundo atual e célere na autocrítica; que insista no núcleo fundamental da mensagem cristã e prescinda do uso de fórmulas de fé que dois mil anos de existência teimaram em acumular. É que a fé é substancialmente uma atitude, mais do que a aceitação intelectual de frases pré-concebidas. Ter fé não é proclamar um rol de fórmulas que concílios e papas definiram num passado mais ou menos longínquo, mas entregar ao Absoluto a própria existência, com aquela confiança que se consolida no encontro pessoal e comunitário com o Deus pessoal de cuja bondade todos dependemos; é sentir-se amado e salvo da própria condição precária pela irrupção do definitivo na provisoriedade da história pessoal e coletiva.
Infelizmente, parece-me que o mundo tem uma visão essencialmente negativa da atuação da instituição eclesial. Sucedem-se os escândalos no interior da Igreja. A rigidez das decisões não permite a adaptação que toda a instituição tem de fazer às novas condições sociais e culturais. Falta transparência em muitos domínios, entre os quais a gestão dos dinheiros que os crentes entregam à comunidade de que fazem parte. Todo o sistema é piramidal e autocrático. É, pois, urgente a democratização da gestão das comunidades, tanto locais como universal. Uma maior participação de todos nos destinos da Igreja, para além de ser um imperativo ético, promove o sentimento de pertença e de comunhão mútua. Em vez disso, o papa é ainda o senhor absoluto, o mestre incontestável… em suma: uma espécie de deus na Terra. E o bispo é-o também na própria diocese, tal como o pároco o é no espaço da sua paróquia. Só o bom senso de muitos pastores tem salvado as comunidades de perderem definitivamente os seus fiéis. Mas temos apenas de confiar no bom senso dos responsáveis ou a própria estrutura institucional tem de garantir graus de participação democrática nos destinos das comunidades que incluam também os leigos?
De uma forma sucinta, eu diria que necessitamos de simplificação (da prática eclesial e da doutrina), transparência (na gestão das comunidades e dos dinheiros) eparticipação democrática. Eis o programa de um papa que estivesse realmente empenhado na reforma da Igreja e exigisse que a instituição se despojasse do supérfluo para abraçar o que é essencial e nesse núcleo central se empenhasse até ao limite.
Salvo melhor opinião, creio que o retorno à mensagem originária do Evangelho é a revolução de que precisamos. Não se trata de inovar por inovar, se recriar a instituição descaracterizando-a. Trata-se pelo contrário de refrescar a vitalidade da Igreja à luz daquela água viva que jorra da mensagem, do comportamento e do destino de Jesus de Nazaré. É certo que os novos tempos trouxeram problemas que não encontram resposta direta no Evangelho. Mas talvez a Igreja não tenha de se pronunciar sobre tudo. Talvez tenha de assumir com humildade que é sua tarefa anunciar os valores essenciais contidos na mensagem originária de Cristo, deixando a cada pessoa a possibilidade de formar a sua própria opinião acerca dos problemas concretos que assolam os tempos atuais. Quem sabe se a assunção de tal atitude não valorizaria a Igreja aos olhos do mundo. E precisamos tanto de um farol que atribua sentido às circunstâncias complexas e tantas vezes adversas do tempo atual!

Desafios para a Igreja com o novo Papa

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A Igreja Católica leva consigo um imenso paradoxo. O sociólogo Olivier Bobineau descreveu bem a situação. “A Igreja católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção – o descentramento segundo o amor – e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial – de que a confissão é o arquétipo – colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada.”

Esta junção paradoxal é superável? Os desafios para a Igreja com o novo Papa são muitos. Ficam aí alguns, sem cuidar muito da sua ordem.

1. Desafio essencial é a conversão de todos os seus membros ao Evangelho, começando pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres. Acreditar em Jesus e tentar segui-lo. E anunciar a fé viva de sempre na linguagem do nosso tempo, articulando-a com a razão. E, contra um cristianismo reduzido a proibições, apresentá-lo como mensagem positiva e realização felicitante de sentido.

2. Outro, decisivo para o futuro: a reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja em geral (há quem se pergunte: mas a Cúria será reformável?). Tem de haver mais simplicidade (acabar com aqueles títulos todos: Eminência, Excelência, Monsenhor…) e transparência e democraticidade. Pergunta-se, por exemplo, se o actual modelo de eleição papal não sofre de endogamia, já que o Papa escolhe aqueles que elegerão o sucessor. Não se impõe um processo mais participativo e universal? Quanto às dioceses, alguém já sugeriu, em vez de dioceses gigantes, um bispo para um número mais reduzido de fiéis, que deveriam participar na sua eleição.

3. É intolerável que possa haver sequer suspeitas de que pelo Banco do Vaticano passa lavagem de dinheiro. Exige-se, pois, uma gestão eficaz e transparente. Jesus foi contundente: “Não podeis servir a Deus e a Mamôn” (o Dinheiro divinizado).

4. Tem de continuar a mão inflexível da tolerância zero no que se refere à pedofilia.

5. É uma pergunta enorme, a de um biblista belga, que me disse um dia em Bruxelas: como é que o movimento iniciado por Jesus desembocou numa instituição com um Papa chefe de Estado?

Evidentemente, onde há homens e mulheres – e os católicos são 1200 milhões – tem de haver um mínimo de instituição. O que ela não pode é ter o primado, pois este pertence às pessoas e aos seus problemas. O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas, ao serviço da paz, dos direitos humanos e do diálogo entre as nações.

6. Sem se negar, a Igreja tem de modernizar-se e, sendo verdadeiramente global, tem de estar aberta ao pluralismo. Esta abertura implicará também o acesso da mulher aos ministérios ordenados, o fim da lei do celibato, a reconciliação com a sexualidade e a revisão de questões como a pílula e o preservativo, a possibilidade da ordenação de homens casados, a comunhão para os divorciados recasados.

7. A continuação do diálogo ecuménico intracristão e inter-religioso e intercultural é um desafio irrenunciável, bem como o contributo para o debate nas questões de bioética.

8. A Igreja de Cristo tem de estar ao lado dos problemas dos homens e das mulheres, a começar pelos mais fragilizados. Por isso, espera-se dela pronunciamentos sem tibieza sobre a justiça social, a condenação de doutrinas económicas que endeusam o lucro, o combate pela dignidade de todos, a salvaguarda da paz, dos direitos humanos, a preservação da natureza.

Anselmo Borges|DN|09/mar/2013

Perfil do Papa ou perfil da Igreja?

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1. Até à eleição do novo Papa, não se pode estranhar o interesse pelas curiosidades mais normais, mais cómicas, doentias ou perversas, quer acerca de Joseph Ratzinger e da sua nova etapa de vida, quer sobre a pessoa desejável para estar à frente do Vaticano.

Quanto a Ratzinger, ver-se-á se vai ou não poder cumprir a promessa de permanecer escondido do mundo. Vestido de branco, de azul ou de preto, que interessa? Para o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, foi importante esclarecer que poderá continuar a vestir-se de branco, mas que as suas vestes serão simples e diferentes das usadas pelo Papa, mas nada disse sobre as futuras relações com a Prada.

Os mais espirituais e cultos estão interessados nas orações que vai rezar, na música que irá tocar, nos livros que tem para ler e nos que vai escrever. Poderá vir a ser conselheiro do novo Papa? Aqueles que insistem em lhe chamar Papa Emérito (também haverá emérita infalibilidade?) não se apercebem de que estão a defender a coexistência de dois Papas. Será normal que venham a surgir narrativas, mais ou menos romanceadas, acerca da vida secreta de J. Ratzinger, no seu retiro. A imaginação das pessoas não vai arrefecer.

Por mim, espero que seja muito feliz e que não surja nenhum vidente a revelar quanto ele continua a sofrer com as desgraças da Igreja.

Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas. Quem assim pensa esquece que, no século passado, o Vaticano teve grandes figuras à sua frente, uma delas foi mesmo um santo genial, João XXIII, que nunca perdeu o bom humor, pois sabia que o aggiornamento da Igreja não podia ser só obra sua. De João Paulo I, só ficámos com um mês de sorrisos e o projecto de dar uma volta à Cúria Romana.

2. A primeira característica do perfil do novo Papa – passe a repetida expressão – será a de alguém que entenda, de forma prática, que aquilo que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos. Não interessa uma pessoa decidida a fazer a reforma da Igreja, segundo o seu ponto de vista particular. O que importa é alguém preocupado em encontrar um método que mobilize e implique o povo cristão na alteração do actual modelo de governo da Igreja. Não interessa caiar um sepulcro.

Dizendo isto, fica tudo por dizer, pois é urgente encontrar o caminho que nas paróquias, nos movimentos, nas congregações religiosas, na nomeação dos bispos, no exercício da colegialidade, na vida das dioceses e nas suas diversas instâncias realize o confronto do projecto de Jesus – segundo o que dele podemos observar no Novo Testamento, na história da Igreja e não apenas na dos Papas -, com as urgências do mundo actual, na sua grande diversidade, submetido a processos de globalização, que acabam por acentuar o abismo entre pobres e ricos.

Seria ridículo sonhar com um método que colocasse a Igreja de quarentena, parada até que a reforma esteja pronta. É em andamento que as transformações se vão realizando e nunca se pode começar do zero. O sonho de uma Igreja, sem mancha nem ruga, constituída por pequenos grupos de santos e puros, seria a perversão das perversões.

3. Uma das grandes vergonhas pelas quais a Igreja, no seu conjunto, passou, e está a passar, tem a ver com a pedofilia que envolveu várias figuras da hierarquia católica. Sem o combate a este flagelo, nenhum programa de um novo Papa, ou melhor de um novo governo da Igreja, terá qualquer credibilidade. O melhor é erradicar as instituições que possam encobrir esse tipo de práticas e não consentir que pessoas que tenham essas tendências possam ter qualquer acção pastoral que as coloque junto de crianças.

O programa de um novo governo da Igreja não pode estar polarizado apenas por esta questão. Existem, actualmente, vários projectos em curso, na Igreja Católica. Destaco a redescoberta de uma memória, ora esquecida ora atraiçoada, o Vaticano II. A Nova Evangelização é um horizonte que o Ano da Fé procura activar.

João Paulo II, durante o seu pontificado, tentou que a Igreja tivesse uma visibilidade mundial através das suas viagens e intervenções. Por maiores que sejam as críticas ao seu método, não há dúvida de que a Igreja passou a fazer parte de todos os noticiários. Durante esse tempo, foram neutralizadas todas as vozes, experiências e iniciativas que seguiam ou propunham outros caminhos. O cardeal Ratzinger, um teólogo do Concílio e de mérito reconhecido, assustado com a pluralidade crítica de expressões teológicas, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou-se de as neutralizar.

Neste momento, já não estamos nos anos 80/90. Estamos no século XXI. De que é que precisa a Igreja para escutar os desafios do mundo de hoje e participar na descoberta de novos caminhos para uma civilização que já não sabe de que terra é?

Frei Bento Domingues|Público|03/mar/2013

Ao lado do essencial

Nativity Scene, St. Peter's Square, 2012-2013

Nativity Scene, St. Peter’s Square, 2012-2013

Quando Jesus nasceu foi dito d’Ele: “Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 35). Parece que essa propriedade se mantém no Seu Vigário, pois muito do que se tem dito nestes dias acerca de Bento XVI manifesta mais a atitude pessoal de quem fala do que o problema que julga analisar.

A Igreja é a instituição mais comentada fora dela. Por todo o lado se proclamam opiniões taxativas sem lhe pertencer, ou sequer simpatizar. O Cristianismo é, sem dúvida, o tema com mais treinadores de bancada. Pelo seu lado o Papado, que é o seu elemento mais criticado, exerce a espantosa atracção que se vê. Não conseguem gostar dele, nem deixar de falar disso. O fenómeno merece análise.

É verdade que a Igreja Católica constitui uma realidade única no mundo. Existindo há 2000 anos, hoje com 1200 milhões de fiéis, é facilmente a maior e mais influente instituição da história. Bento XVI, o 265.º Papa, é também caso único. A mais antiga monarquia, a do Japão iniciada em 660 a. C., tem actualmente “apenas” o seu 125.º imperador, enquanto o Dalai Lama, que pode ser considerado o líder mundial mais parecido, é só o 14.º desde 1357. Em termos meramente estéticos e intelectuais é fascinante.

No entanto, essas análises incluem um elemento inesperado pois, em geral, os comentadores, sendo alheios, não fazem o menor esforço para entrar dentro da lógica daquilo que consideram. Mas não tomam isso como um obstáculo à qualidade do seu juízo. É evidente que quem emite opiniões sobre ciência, música, jardinagem ou alpinismo faz um esforço para entender essas entidades, mesmo que se mantenha exterior ao próprio. Ninguém escreve sobre indígenas do Pacífico, cinema japonês ou cultura punk sem procurar dominar o respectivo ponto de vista. No caso da Igreja isso não sucede, o que leva a generalidade dos críticos a pronunciar candidamente os dislates mais flagrantes, sem perceber que está totalmente ao lado da questão. O motivo desta situação é um fenómeno curioso.

Como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias, a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo no fenómeno que consideram: Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus. Do mesmo modo, toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus, e espera do Senhor a continuação desta história. Ignorar isto é como discutir música sem som ou alpinismo sem montanhas.

Olhar para os recentes acontecimentos desta forma, ou seja a partir de dentro, muda completamente as conclusões. Bento XVI não renunciou por causa da Cúria, que é igual há séculos, ou devido a escândalos e ataques, iguais aos que acompanharam cada momento do pontificado. Nem sequer foi por motivos de saúde, apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está plenamente convencido ser essa a vontade de Deus. Ele acha mesmo que é isso que aquele Senhor que segue atenta e minuciosamente em cada passo da vida há muito anos, e a quem entregou cada gota da sua existência, quer que ele faça.

Ver assim as coisas também muda totalmente as conversas que estes dias se multiplicam sobre o próximo Papa. Aqueles para quem essa eleição terá consequências, porque seguirão realmente na sua vida o novo “Cristo na terra”, como lhe chamava S. Catarina de Sena, vêem as coisas de outra forma. Eles estão pouco preocupados se ele será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. Essas são as questões das escolhas na ONU ou Comité Olímpico, mas o Conclave nada tem a ver com isso.

Para os eleitores o propósito é, como diz a Constituição Apostólica que regula o processo, ter “em vista unicamente a glória de Deus e o bem da Igreja” (Universi Dominici Gregis, 83). Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.

 JOÃO CÉSAR DAS NEVES|DN|25/02/13

O que faz a Igreja durante a Sé Vacante?

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Cidade do Vaticano (RV) – Segundo a Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, 84: Em tempo de Sé Vacante, e sobretudo durante o período em que se desenvolve a eleição do sucessor de Pedro, a Igreja está unida em modo todo particular com os sagrados Pastores e especialmente com os Cardeais eleitores do Sumo Pontífice e implora a Deus o novo papa como dom de sua bondade e Providência.
À exemplo da primeira comunidade cristã, da qual se fala no Ato dos Apóstolos (cf. At 1,14), a Igreja Universal, espiritualmente unida com Maria, Mãe de Jesus, deve perseverar unanimemente na oração; assim, a eleição do novo Pontífice não será um fato isolado do Povo de Deus e dizendo respeito somente ao Colégio dos eleitores, mas, num certo sentido, uma ação de toda a Igreja. Estabeleço, por isto, que em todas as cidades e nos outros lugares, pelo menos os mais distintos, assim que se tenha a notícia da vacância da Sé Apostólica e, de modo particular, da morte do Pontífice, após a celebração das solenes exéquias, se elevem humildes e insistentes orações ao Senhor (cf. Mt 21,22; Mc 11,24), para que ilumine a alma dos eleitores e os torne assim concordes na sua tarefa, que se obtenha uma solícita, unânime e frutuosa eleição, como exige a saúde das almas e o bem de todo o Povo de Deus.

85. Recomendo isto em modo vivíssimo e cordialíssimo ao veneráveis Padres Cardeais que, em razão da idade, não gozam mais do direito de participar à eleição do Sumo Pontífice. Pelo especialíssimo vínculo com a Sé Apostólica que a púrpura cardinalícia comporta, se coloquem a frente do Povo de Deus, reunido particularmente nas Basílicas Patriarcais da Cidade de Roma e também nos lugares de culto das outras Igrejas Particulares, porque com a oração assídua e intensa, sobretudo enquanto se desenvolve a eleição, se obtenha do Onipotente Deus a assistência e a luz do Espírito Santo necessária aos Irmãos eleitores, participando assim eficazmente e realmente ao árduo trabalho de prover a Igreja universal de seu Pastor.
86. Peço, depois, àquele que será eleito de não subtrair-se à tarefa a qual é chamado, pelo temor do seu peso, mas, de submeter-se ao desígnio da vontade divina. Deus, de fato, ao impor-lhe o ônus, o sustenta com sua mão, para que ele não seja incapaz de carregá-lo; ao conferir a ele o árduo encargo, Ele também lhe ajuda a carregá-lo e, dando-lhe dignidade, lhe dá também a força de não falhar sob o peso da tarefa.

É a nossa vez

[youtube http://youtu.be/hz1I3K4UQfI]

A Igreja é chamada católica ou universal porque está espalhada por todo o mundo, de uma à outra extremidade da terra, e porque universalmente e sem erro ensina toda a doutrina que os homens devem conhecer, sobre as coisas visíveis ou invisíveis, celestes ou terrestres. É chamada católica também porque conduz ao verdadeiro culto toda a classe de homens, autoridades e súbditos, doutos e incultos. É católica finalmente porque cura e sara todo o género de pecados, tanto os da alma como os do corpo, e possui todo o género de virtudes, qualquer que seja o seu nome, em obras e palavras e nos mais diversos dons espirituais.

Com toda a propriedade é chamada Igreja, quer dizer, assembleia convocada, porque convoca e reúne a todos na unidade, tal como o Senhor determina no Levítico: «convoca toda a assembleia para a entrada da tenda da reunião» (8,3) […]. E, no Deuteronómio, diz Deus a Moisés: «convoca o povo para junto de Mim, a fim de ouvirem as Minhas palavras» (4,10). […] Também o Salmista proclama: «eu Te darei graças na solene assembleia, e Te louvarei no meio da multidão» (Salmo 35/34,18) […].

Mas foi a partir das nações gentias que depois o Salvador instituiu uma segunda assembleia, a nossa Santa Igreja dos cristãos, acerca da qual disse a Pedro: «e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela» (Mt 16,18). […] E logo que a primeira assembleia fundada na Judeia foi destruída, multiplicaram-se por toda a terra as Igrejas de Cristo. Delas falam os Salmos, que dizem: «Aleluia! Cantai ao Senhor um cântico novo, louvai-O na assembleia dos fiéis!» (149,1). […] E é a respeito desta nova Igreja Santa e Católica que Paulo escreve a Timóteo: «quero que saibas como deves proceder na casa de Deus, esta Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade» (1Tm 3,15).

São Cirilo de Jerusalém (313-350)