40 dias de quaresma: Domingo III da quaresma#2

No Amor de Deus e no amor do próximo, caríssimos, consiste a força e a sabedoria da fé cristã. Não falta a dever algum da caridade quem se preocupa em cultuar ao Senhor e em ajudar o próximo. A união destas duas afeições deve ser realizada em todas as ocasiões e progredir sempre, mas agora precisa ser amplamente incrementada.

Que os quarenta dias de jejuns precedentes à festa pascal toquem o ouvido interior do coração, como se fossem a voz de João Batista, a repetir as palavras do profeta Isaías: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Is 40,3; Lc 3,4). Quer pensemos na parte do povo já na arena do certame evangélico e que incessantemente tende à palma pela corrida no estádio espiritual, quer se trate da segunda parte que, cônscia de pecados mortais, apressa-se pelo auxílio da reconciliação para o perdão; seja ainda a outra que vai ser regenerada pelo batismo do Espírito Santo e deseja despojar-se do velho Adão para se revestir da novidade de Cristo, a todas, de maneira apta e útil se proclama: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas (Lc 3,4). Quais, porém, sejam esses caminhos do Senhor, quais as veredas, aprendamo-lo da exortação do mesmo pregador que, prometendo a operação e os dons da graça divina, revelava os efeitos das transformações futuras, acrescentando a sentença da palavra do profeta: Que todo vale seja entulhado, que toda montanha e colina sejam abaixadas; que os cimos sejam aplainados, que as escarpas sejam niveladas! (Is 40,4). O vale significa a mansidão dos humildes, o monte e a colina indicam a exaltação dos soberbos. Mas, como disse a Verdade, se todo aquele que se exaltar, será humilhado; e todo aquele que se humilhar, será exaltado (Lc 14,11; 17,14), com razão, anuncia-se aos vaies a aterragem e aos montes, a depressão. Assim, a estrada plana não ocasionará tropeço, e o caminho reto não causará desvios. Embora, pois, seja estreito e apertado o caminho da vida(Mt 7,14), avança por ele sem dificuldade quem é corroborado pela verdade e a piedade. Terá prazer em caminhar se a estrada estiver bem calçada com as pedras das virtudes e não ceder devido à areia dos vícios.

Mas, para sabermos com maior exatidão quais os caminhos por onde haveremos de tender às promessas de Deus, ouçamos o ensinamento do profeta David: Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade (Sl 24,10). A vida dos fiéis tem por norma o exemplo das obras divinas. Com razão, exige Deus imitação da parte dos seus, criados à sua imagem e semelhança. Não tomaremos posse, em verdade, da dignidade desta glória a não ser que em nós se encontrem a misericórdia e a verdade. Foi por elas que o Senhor veio até os que queria salvar, por elas também devem os salvos apressar-se ao encontro de quem salva. A misericórdia de Deus fez-nos misericordiosos, e a sua verdade, verdadeiros. Pois, como a alma justa caminha pela via da verdade, a alma bondosa avança pela estrada da misericórdia. Estes caminhos jamais se dividem, como se estes bens pudessem ser buscados através de sendas diversas; ou uma coisa seja crescer em misericórdia e outra progredir por meio da verdade. Quem é estranho à verdade não é misericordioso; nem é capaz de justiça quem for estranho à piedade. Não possui nem uma, nem outra, quem não estiver enriquecido de ambas.

A caridade é a força da fé, e a fé a fortaleza da caridade. Só é verdadeiro o nome e genuíno o fruto das duas, se permanecer indissolúvel a união de ambas. Onde não estiverem juntas, de lá simultaneamente se ausentam, porque são uma para a outra auxílio e luz, até que o anelo da fé se consuma na remuneração da visão, seja imutavelmente visto e amado o que agora sem a fé não é amado, e sem o amor não é crido. Uma vez que afirma o Apóstolo: estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Jesus Cristo, mas sim a fé que age pela caridade (Gl 5,6), apliquemo-nos simultânea econjuntamente à fé e à caridade. Duas asas, pois, para um vôo muito eficaz, por meio do qual a mente pura se eleva a merecer a Deus, e a vê-lo a fim de que o peso das preocupações carnais não a faça abaixar. Aquele que afirma: Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11,6) também assevera: Mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada (1Cor 13,2). Quem quiser prestar os obséquios devidos aos divinos mistérios dos sacramentos pascais, anele com maior ardor por estas duas coisas, nas quais se concentra o ensinamento acerca de todos os preceitos, e que transformam cada fiel num sacrifício a Deus e em templo de Deus. Persista a fé em esperar o que crê, persista a caridade em impetrar o que ama; as duas coisas são peculiares a quem ama, ambas caracterizam a quem crê. Unamo-nos pela imitação da piedade àquele ao qual nos submetemos por assentimento da inteligência. É palavra de Deus: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo (Lv 19,2) e é palavra do Senhor: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36).

S. Gregório Magno (c. 540-604)
Sermão 36
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM,

professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Fonte: SNPC

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Jejum: itinerário para a Páscoa

Uma prática que se repete desde os primórdios do cristianismo

©patiodosgentios

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01/mar/2013 (Zenit.org)O tempo da Quaresma, que vivemos junto com a Campanha da Fraternidade da Juventude, está sendo muito especial! Acontecimentos inéditos como a renúncia do Papa Bento XVI comoveu o mundo. Nós, porém, não podemos perder a ocasião para nossa conversão. Se já temos essa caminhada quaresmal de conversão em toda a Quaresma, agora temos ainda mais sinais que nos chamam a renovar a vida. Uma das práticas quaresmais é o jejum.

A Quaresma nos leva a renovar o nosso batismo e nos conduz à Páscoa. É um itinerário que prepara para a Noite Santa da Vigília Pascal, na qual celebramos a ressurreição de Cristo. Os exercícios quaresmais não visam um desprezo pelo corpo. Mas antes querem ser uma reflexão sobre a vida humana, suas vontades e orientações. Para onde estou direcionando minha vida?

Uma das propostas da Igreja para este rico tempo da espiritualidade litúrgica é o jejum. Embora o jejum seja uma prática muito antiga (faz parte da cultura religiosa de vários povos), porém o jejum praticado pelos cristãos tem suas raízes na experiência do povo de Deus. Ainda existem muitas pessoas que têm dúvidas em relação a esta prática cristã.

O primeiro ponto a ser refletido refere-se à natureza humana. Pelo pecado o homem se torna um ser ‘ferido’ que necessita de cura. Sua natureza criada por Deus com graça original, com o pecado torna-o um ser que tende para não vivenciar a graça. Os gestos e o próprio ser do homem trazem a marca do pecado, da quebra da comunhão com Deus, com os outros e consigo mesmo. Mas sabemos que a graça superabunda no homem. Devido à tendência da natureza humana “decaída”, tal intento não se concretizará se o homem não tiver aprendido, através da força da graça redentora de Cristo, a vencer-se a si mesmo. Ora, um desses meios de mortificação é precisamente o jejum. Ele não pode ser fim em si mesmo e nem se esgotar nos exercícios, como abstinência de alimentos. São Leão Magno nos recorda que, “aquilo que cada cristão deve praticar em todo o tempo, deve pratica-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzindo os alimentos, mas, sobretudo abstendo-se do pecado”. O Jejum é meio para a pessoa se libertar do domínio da carne e aceitar sobre si o domínio de Cristo. Espaço para a ascese, que nos ajuda a dominar as desordens das paixões e estimula o compromisso concreto com Deus e com o próximo. Além de que, a Igreja não recomenda somente o jejum neste tempo quaresmal; fazem parte também da vida de mortificação e penitência dos cristãos a oração e a esmola, que traduzimos por caridade feita ao outro. O tema da caridade foi justamente o da quaresma deste ano aprofundando a fé no Deus amor que nos conduz para amar os irmãos e irmãs com todas as consequências. Em síntese, esses sinais exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros.

O jejum é em sua essência um antídoto que a Igreja nos oferece para combater em nós toda inclinação de satisfação de nossas vontades, sejam corporais ou não. Não nos esqueçamos de que pelo pecado o homem está como que ‘ferido’, ou seja, necessitado da cura – que não é o jejum, mas Cristo. O jejum nos ajuda a buscar nossa configuração maior a Cristo. Portanto, a Quaresma, com suas práticas e exigências para uma autêntica vida cristã, irradia a força da graça divina, encorajando a todos, homens e mulheres, crianças e jovens a uma caminhada na fé, peregrinando sob a tutela da Igreja, a qual Cristo, seu Esposo, ornou com dons os mais diversos, para que todos possam encontrar nela o Senhor de suas vidas.

Aproveitemos este tempo de conversão que o Ano Litúrgico nos apresenta e abramo-nos à graça redentora de Cristo para chegarmos alegremente às comemorações de sua Páscoa. Assim ensina-nos o grande teólogo, Santo Agostinho: “Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não se pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza o nosso progresso, e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigos e tentações”. Por isso neste tempo propício somos ajudados no combate com os meios que nos dispõe a Santa Igreja: o jejum, a oração e a esmola.

Tudo isso deve nos conduzir a uma celebração penitencial que nos faz experimentar a misericórdia de Deus e renova a nossa vida cristã. Essa prática não pode faltar na Quaresma, e é um dom para todos nós. As práticas quaresmais devem nos renovar, e só se concretizarão ao recebermos a absolvição de nossos pecados.

Que tenhamos uma santa Quaresma e caminhemos pressurosos para celebrar, com corações renovados, a Páscoa do Senhor!

          † Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Deserto de jejum ou jejum de deserto?

Todos os anos ouvimos e lemos que a quaresma é um tempo de jejum, de deserto. Jesus retirou-se durante 40 dias para uma montanha desértica e durante esse tempo jejuava, meditava e orava sem cessar.
A quaresma é uma época litúrgica que é consagrada à conversão pessoal, que tem como objetivo a preparação para os grandes mistérios da nossa redenção.
O papa Bento XVI na sua mensagem quaresmal de 2009 ajuda-nos a enquadrar o jejum quer numa perspetiva histórica quer na sua atulidade.
Sua Santidade afirma que de facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública.
Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. O jejum é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia. Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus.
A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. O jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus. Jesus fez um deserto de jejum preparando-se, através da oração e meditação, para aquilo que a tradição chama de vida pública. Hoje a nossa vida pública busca por um deserto de jejum.

O deserto é árido, rude, seco, hostil. Este ambiente convida-nos a vermos as nossas vias e as nossas ações.
Podemos imitar os nossos antepassados católicos e tornar a Quaresma mais do que apenas o sacrifício de um alimento de que gostamos: podemos tornar o deserto, com toda a sua aridez, o local a partir do qual vemos a nossa vida e as nossas ações. Espiritualmente o deserto é um vazio pujante de encontros: da vontade de Deus; do que nos, realmente, nos satisfaz; de análise pessoal e comunitária; o deserdo conduz-nos, inevitavelmente, ao paraíso eterno. O deserto, escreveu o Papa Bento XVI, imagem que se opõe ao jardim, torna-se local de reconciliação e cura.

Coragem!. Só percorrendo o deserto é que alcançaremos, verdadeiramente, a reconciliação e a cura de tudo aquilo que nos afasta da amizade de Deus.

Texto escrito para a Revista Online “Teu Espaço

40 Dias de Quaresma: Sexta-feira depois das CINZAS

©Miguel Cardoso

©Miguel Cardoso

“Pedes-me um momento
 Agarras as palavras
 Escondes-te no tempo
 Porque o tempo tem asas
 Levas a cidade
 [...]
 Porque o mundo é o momento”

Pedro Abrunhosa

PARA NÓS HOJE É O MOMENTO! O jejum, ao qual a Igreja nos convida neste tempo forte, certamente não nasce de motivações de ordem física ou estética, mas brota da exigência que o homem tem de uma purificação interior que o desintoxique da poluição do pecado e do mal; que o eduque para aquelas renúncias saudáveis que libertam o crente da escravidão do próprio eu; que o torne mais atento e disponível à escuta de Deus e ao serviço dos irmãos. Bento XVI, 21/02/2007.

PORQUE HOJE pode muito bem ser O PRIMEIRO DIA DE JEJUM ALTRUISTA!

Quando (não) comer é uma oração

O que está em causa no jejum é a possibilidade de nos interrogarmos sobre algo mais fundo: aquilo que nos serve de alimento e a voracidade sonâmbula com que vivemos. 

O jejum não é uma simples desintoxicação da bulimia em que estamos mergulhados, mas um modo de exprimir que o verdadeiro alimento da nossa vida é outro.

©imissio - Expresso|Revista|09/fev/13

©imissio – Expresso|Revista|09/fev/13

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