foto do dia, 11 de março de 2013

©Chris Helgren:Reuters

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A eleição do sucessor do papa emérito Bento XVI chama a atenção da imprensa mundial. Cerca de 5.000 jornalistas; mais de 1.400 veículos de imprensa; 24 idiomas; 65 países; obtiveram credenciais (autorização) para a cobertura do conclave.

De acordo com o Vaticano, estrutura semelhante ocorreu quando o papa João Paulo II morreu, em 2005, e, em seguida, houve a eleição de seu sucessor Bento XVI.

Um italiano ou um brasileiro para novo Papa?

Na véspera do início do conclave, dois nomes perfilam-se como favoritos na sucessão a Bento XVI: Angelo Scola, arcebispo de Milão, e o arcebispo brasileiro Odilo Pedro Scherer. Primeira votação dos 115 cardeais eleitores é já amanhã à tarde.

©DYLAN MARTINEZ/REUTERS

Na véspera do início do conclave, as notícias chegadas do Vaticano mudaram de tom. Enquanto os cardeais estão reunidos para a décima congregação geral, a última antes do início da escolha do novo Papa, do lado de fora os media antecipam cenários e perfis, tentando perceber quais os cardeais melhor posicionados à partida.

Uma dúvida persiste: é desta que o anel de São Pedro volta à posse de um italiano? Tal não acontece desde a eleição de João Paulo I, há 35 anos, e muitas vozes dentro do Vaticano acham que é tempo de quebrar esse ‘jejum’, o que dá força ao nome de Angelo Scola, arcebispo de Milão, o nome que reunirá, até agora, maior número de apoiantes.

Com as cautelas que o tema exige, há mesmo quem arrisque fazer a estatística com as preferências. É o caso do Vatican Insider , espaço especializado no jornal “La Stampa”, que hoje associa ao nome de Scola entre 35 a 40 votos já garantidos entre os 115 cardeais eleitores que amanhã se vão encerrar na Capela Sistina.

Outro nome se perfila como forte candidato a novo Papa: Odilo Pedro Scherer. O brasileiro, arcebispo de São Paulo e profundo conhecedor da cúria, ganhou algum protagonismo durante o período das reuniões preparatórias do conclave e será o preferido para um grupo também significativo de cardeais (25, escreve o “Vatican Insider”).

Mafalda Ganhão|ExpressoOnline|11/mar/2013

ps: ainda não li em nenhuma notícia a falar sobre a ação do Espírito Santo!

Que nome vai escolher o novo papa?

©news.va

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Jorge Pires Ferreira fez um bom trabalho de sugestão de nomes para o futuro Papa. É necessário contar sempre com a previsibilidade imprevisível do Espírito Santo. Sem grande fé no que vou escrever, gostava que o novo Papa se chama-se Bento XVII e que a Eucaristia de entronização [julgo que é assim que se chama] fosse dia 19 de março, dia de S. José (feriado no Vaticano) e dia do Pai. Um leigo a falar, nada mais.

[Jorge Pires Ferreira|Tribo de Jacob|11/mar/2013] Bento XVII? Improvável. Seria a continuidade de Bento XVI. Mas Bento XVI quis dizer “mais como eu não”. E há que cumprir o pedido. Só Angelo Scola poderia escolhê-lo, pois conhecia bem Bento XVI de diversos outros sítios. Saberia ser continuador.

João Paulo III? Não me parece. João Paulo II esgotou, pelo menos enquanto os que viveram sob o seu pontificado andarem por cá, a junção dos nomes. Não é que João Paulo II tenha sido um grande papa. Julgo que não foi. E duvido que o seu processo de canonização avance depois do que veio ao de cima com Bento XVI. Os escândalos do dinheiro e do sexo. Mas ninguém quer assumir, julgo eu, a teatralidade, as grandes imagens de João Paulo II.
Paulo VII? É uma possibilidade. Passaram uns anos. Significaria que o novo Papa aposta na continuidade do Concílio Vaticano II. Fazer o que ainda não foi feito. O milanês Ravasi, como Montini, poderia escolher este nome.
João XXIV? Outro nome que parece esgotado. Só um reformador otimista humilde poderá voltar a usá-lo. Mas como as coisas estão, é difícil reformar com humildade. E se for otimista, poderá não querer fazer reformas. Um cardeal franciscano poderia escolher este nome. Claudio Hummes, brasileiro, não é carta descartada. E há O’Malley, capuchinho dos EUA. Mas estes poderiam ter coragem para escolher o seguinte nome. Pelo menos, de certeza que lhes passa pela cabeça, ainda que fica mal escolher o nome do fundador da ordem.
Francisco I? Sobre este nome, ler o magnífico texto Maurizio Chierici no jornal “Il Fatto Quotidiano”, traduzido aqui.
Clemente XV? É uma possibilidade para D. José Policarpo. No anterior conclave disse que se fosse eleito era este o nome escolheria. Um sinal, já, de que é um Clemente que lhe sucede em Lisboa? O Clemente XIV não foi clemente. Era franciscano e extinguiu os jesuítas. Ficou na história como “o rigoroso”.
Pio XIII? Um asiático poderia escolher este nome. O Tagle das Filipinas, por exemplo. Um africano também seria capaz de escolher tal nome. Mas não um europeu nem um americano.
Leão XIV? Demasiado feroz. Quer-se mansidão. A não ser que apareça alguém extremamente humilde, reformador e com um grande sentido de humor e uma elevada auto-estima. Há dois cardeais jesuítas ou só há um, argentino, Bergoglio? De momentonãosei quantos jesuítas há no conclave. A dificuldade está em juntar humildade a um jesuíta.

 

Tarefas para o próximo sucessor de Pedro

©New.va

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[José Ignacio González Faus|ihu|08/mar/2013] Na minha opinião, quando se fala de reformas na Igreja é preciso distinguir, em primeiro lugar, entre reformas mais urgentes e menos urgentes (que podem não coincidir com as que nós mais gostaríamos). Em segundo lugar, é preciso distinguir também entre reformas que vão requerer tempo (talvez muito) e outras que parecem ser de fatura imediata, bastando para isso o papa querer. Tendo isto presente, esbocei o seguinte programa:

1. A reforma mais urgente na Igreja de hoje (embora seja uma reforma lenta e constante) é que apareça como “Igreja dos pobres”. Se Deus se revelou em Jesus como Deus dos pobres e das vítimas deste mundo, uma Igreja que não tornar visível essa revelação será sempre infiel a Jesus Cristo. O novo papa, na minha opinião, deveria retomar e propor aos poderes econômicos deste mundo o ensinamento (tão simples quanto inaceitável) de Jesus de que “é impossível servir a Deus e ao dinheiro”. Ao menos para alertar tantos seres humanos que pretendem crer em Deus, mas buscam um deus compatível com o culto ao Dinheiro que o nosso mundo professa. Esta será uma reforma constante e difícil como disse, mas a Igreja deveria ter muito claro e não esquecer nunca que (como disse João Paulo II) aqui está em jogo a sua fidelidade a Cristo.

2. Em segundo lugar, é muito urgente uma reforma da cúria romana, tão reclamada pelo Vaticano II e que a cúria sempre bloqueou. Nessa infidelidade está, para mim, uma das raízes da atual crise da Igreja. A cúria não é o órgão diretor da Igreja, mas um instrumento a serviço da autoridade eclesiástica que não reside na cúria, mas em todo o colégio apostólico, com Pedro à cabeça. Ao contrário do que disse no número anterior, aqui seriam possíveis reformas imediatas que, no meu modo de ver, são urgentes. Enumerarei algumas:

2.1. Os membros da cúria deveriam deixar de ser bispos, porque a existência de bispos sem Igreja é contrária à mais originária tradição da Igreja, legislada já no cânon 6 do Concílio de Calcedônia. A hipocrisia de torná-los titulares de uma diocese inexistente, só evidencia a má consciência com que se desobedece aqui a Tradição. Tenho dados para afirmar que essa era a mentalidade de Bento XVI quando chegou à cadeira de Pedro; mas a cúria o impediu.

2.2. Derivado do anterior, Roma deveria reinstaurar a participação das igrejas locais na escolha de seus pastores, obedecendo assim também a toda a tradição que enche o primeiro milênio e que só foi quebrada devido à necessidade de impedir que os poderes civis interviessem na designação dos bispos.

2.3. E em terceiro lugar, devem desaparecer do entorno do papa todos os símbolos de poder e de dignidade mundana que ofuscam a revelação da dignidade de Deus consistente no seu aniquilamento em favor dos homens. Seria preciso suprimir os chamados “príncipes da Igreja”, título quase blasfemo para uma instituição que se funda em Jesus como sua pedra angular. O bispo de Roma deveria ser escolhido (por exemplo) pelos presidentes das diversas Conferências Episcopais, acrescentando, talvez, um grupo de religiosos e de leigos homens e mulheres. Esta reforma pode ser mais lenta que as duas anteriores. Mas a comissão de canonistas encarregada de dar caráter jurídico tem tempo para trabalhar até o próximo conclave. E entre esses títulos de poder mundano alheios a Cristo, o sucessor de Pedrodeveria deixar de ser um chefe de Estado, porque isso envergonharia o seu predecessor.

3. Roma e toda a Igreja devem sentir como uma ofensa a Deus a atual separação das Igrejas cristãs contra a vontade expressa do Senhor. Já não é tempo de acusações, mas de unidade. E embora este seja outro ponto que possa ser longo, o próximo papa poderia criar uma espécie de Sínodo ecumênico (paralelo ao atual Sínodo de bispos, mas menos descafeinado que este) que convocasse periodicamente todas as Igrejas cristãs para tratar e discutir livremente os caminhos para a unidade. Unidade na qual podem caber grandes doses de pluralidade, porque a verdadeira unidade não é a uniformidade do único, mas a comunhão do plural. Falei de um sínodo criado por Roma, mas que também poderia ser convocado pelo Conselho Ecumênico das Igrejas, somando-se a ele a Igreja católica. Continuar a ler

Fumaça branca, preta ou amarela? [slideshow]

© Grzegorz GALAZKA / SIPA

[Chiara Santomiero|Aleteia.org|08/mar/2013] O sinal mais visível da importância do conclave virá do telhado da Capela Sistina, sempre que forem queimadas as cédulas das votações para eleger o papa.

São dois os fornos onde serão queimados os votos. Funcionários do vaticano já montaram a estrutura metálica que os ligará à chaminé.

O forno mais antigo, com formato cilíndrico de cerca de um metro, remonta a 1939, e é o que vai realmente queimar as cédulas escritas por cada cardeal com o nome de seu candidato para a cátedra de Pedro. Em seu tampo superior estão marcadas as datas de eleição e os nomes dos últimos seis papas, de Pio XII a Bento XVI.

Mas a fumaça produzida pela queima dessas cédulas não é suficiente para ser vista saindo pela chaminé e alcançando os céus de Roma, seja na cor preta, quando não houve eleição, ou na cor branca, quando houve a escolha.

Desde 2005, foi instalado um novo forno, que é capaz de auxiliar na produção da fumaça suficiente para anunciar o resultado das votações.

O n. 66 do Ordo Rituum Conclavis indica que, ao se confirmar a eleição do novo papa, é justo que, com o auxílio técnico, se faça sair pela chaminé da Capela a fumaça branca, como sinal visível da eleição.

O segundo forno foi ideia de João Paulo II, que também acrescentou ao ritual o som dos sinos da Basílica de São Pedro, como forma de confirmação da fumaça branca e expressão de alegria pela eleição do papa. Todos esses elementos foram testado pela primeira vez na eleição de Bento XVI, em 2005.

Até então, antes do conclave, para verificar o correto funcionamento do sistema, estava em uso também a fumaça amarela.

Para se obter a fumaça preta, as cédulas eram marcadas com cera. Então se adicionava um pouco de palha úmida e se tinha o resultado.

Nesse tempo, a fumaça branca servia para, do Quirinal, que era o palácio dos papas, sinalizar para a Guarda dar o salve e anunciar para toda cidade a recente eleição de seu novo bispo e sucessor de Pedro.

Mas apesar de todas as precauções, muitas vezes se criaram dúvidas sobre a cor da fumaça.

Houve até um anúncio em falso. Em 1958, o patriarca de Veneza, Angelo Giuseppe Roncalli, Papa João XXIII, foi eleito na tarde de terça-feira 28 de outubro, depois de várias votações. Mas já na primeira rodada de votos, no domingo anterior, por alguns segundos, uma fumaça branca saiu pela chaminé, dando ao mundo a falsa notícia da eleição. Em seguida a fumaça escureceu, e todos ficaram confusos e voltaram a esperar.

Quando João Paulo I foi eleito papa, por muito tempo ficou a incerteza sobre a cor da fumaça que saía pela chaminé da Capela Sistina. O mesmo aconteceu com Bento XVI, mas, nesse caso, para dissipar as dúvidas, os sinos da Basílica ressoaram.

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Conclave para escolher sucessor de Ratzinger começa na terça-feira

©VINCENZO PINTO:AFP

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(|Público|08/mar/2013) Os 115 cardeais eleitores e os que por terem mais de 80 anos já não poderão participar no próximo conclave decidiram que o encontro para escolher o substituto de Bento XVI terá início na próxima terça-feira, 12 de Março, um mês depois da renúncia do Papa alemão.

Coube ao porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, anunciar o resultado da votação feita pelos cardeais reunidos desde segunda-feira nas Congregações Gerais, um pré-conclave que serve para garantir a administração dos assuntos da Igreja em período de sede vacante e para preparar o encontro em que o novo Papa será eleito.

As Congregações vão continuar ainda por alguns dias em Roma, esperando-se novos encontros para sábado e ainda para segunda-feira. Na terça, os cardeais mudam de cenário, transferindo-se para novos aposentos, mais próximos da Capela Sistina, onde decorrem as votações.

Para a manhã de dia 12 está marcada a missa que antecipa a eleição – da parte da tarde será feita a primeira votação.

A partir daí, tudo depende da contagem dos votos e do eventual consenso que estes debates pré-conclave tenham podido começar a construir em torno de um dos nomes.

Os cardeais farão votações sucessivas até que um deles obtenha uma maioria de dois terços, 77 votos. Então, sairá fumo branco da chaminé, ainda a ser montada no Vaticano, e os 1200 milhões de católicos poderão ver o rosto do novo sumo pontífice.

Um Papa com desafios únicos e que vai assumir as rédeas de uma Igreja atormentada por “individualismos” e “pecados”, num momento de crise de fé, um peso que Ratzinger sentia não poder mais carregar, como explicou em todas as intervenções públicas desde a renúncia, inédita em 600 anos.

Novo papa deve “estar habilitado a uma mundialização”

Manuel Clemente, bispo do Porto, sublinhou hoje que o novo papa deve “estar habilitado a uma mundialização” e “não pode ser eurocêntrico, porque o mundo já não o é”.

Antes de participar no debate “Justiça e Sociedade”, no Centro de Estudos Judiciários, Manuel Clemente referiu que “não arrisca” um perfil do sucessor de Bento XVI, papa emérito, mas referiu que “os cardeais certamente pensarão muito bem no que representa hoje o papado”.

“Mesmo para crentes e não crentes, uma grande instituição mundial, como é a igreja católica, tem de ter, no seu centro, alguém muito habilitado a essa mundialização também”.

Num dia em que os cardeais estiveram reunidos em congregações gerais, para decidir quando será marcado o conclave, Manuel Clemente acrescentou que o novo papa deve saber “corresponder àquilo que vem da velha Europa, e também de outros continentes”, como a América – “sobretudo a América Latina” – a África e “algumas regiões da Ásia”.

Agência Lusa|4/mar/2013

Perfil do Papa ou perfil da Igreja?

©news.va

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1. Até à eleição do novo Papa, não se pode estranhar o interesse pelas curiosidades mais normais, mais cómicas, doentias ou perversas, quer acerca de Joseph Ratzinger e da sua nova etapa de vida, quer sobre a pessoa desejável para estar à frente do Vaticano.

Quanto a Ratzinger, ver-se-á se vai ou não poder cumprir a promessa de permanecer escondido do mundo. Vestido de branco, de azul ou de preto, que interessa? Para o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, foi importante esclarecer que poderá continuar a vestir-se de branco, mas que as suas vestes serão simples e diferentes das usadas pelo Papa, mas nada disse sobre as futuras relações com a Prada.

Os mais espirituais e cultos estão interessados nas orações que vai rezar, na música que irá tocar, nos livros que tem para ler e nos que vai escrever. Poderá vir a ser conselheiro do novo Papa? Aqueles que insistem em lhe chamar Papa Emérito (também haverá emérita infalibilidade?) não se apercebem de que estão a defender a coexistência de dois Papas. Será normal que venham a surgir narrativas, mais ou menos romanceadas, acerca da vida secreta de J. Ratzinger, no seu retiro. A imaginação das pessoas não vai arrefecer.

Por mim, espero que seja muito feliz e que não surja nenhum vidente a revelar quanto ele continua a sofrer com as desgraças da Igreja.

Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas. Quem assim pensa esquece que, no século passado, o Vaticano teve grandes figuras à sua frente, uma delas foi mesmo um santo genial, João XXIII, que nunca perdeu o bom humor, pois sabia que o aggiornamento da Igreja não podia ser só obra sua. De João Paulo I, só ficámos com um mês de sorrisos e o projecto de dar uma volta à Cúria Romana.

2. A primeira característica do perfil do novo Papa – passe a repetida expressão – será a de alguém que entenda, de forma prática, que aquilo que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos. Não interessa uma pessoa decidida a fazer a reforma da Igreja, segundo o seu ponto de vista particular. O que importa é alguém preocupado em encontrar um método que mobilize e implique o povo cristão na alteração do actual modelo de governo da Igreja. Não interessa caiar um sepulcro.

Dizendo isto, fica tudo por dizer, pois é urgente encontrar o caminho que nas paróquias, nos movimentos, nas congregações religiosas, na nomeação dos bispos, no exercício da colegialidade, na vida das dioceses e nas suas diversas instâncias realize o confronto do projecto de Jesus – segundo o que dele podemos observar no Novo Testamento, na história da Igreja e não apenas na dos Papas -, com as urgências do mundo actual, na sua grande diversidade, submetido a processos de globalização, que acabam por acentuar o abismo entre pobres e ricos.

Seria ridículo sonhar com um método que colocasse a Igreja de quarentena, parada até que a reforma esteja pronta. É em andamento que as transformações se vão realizando e nunca se pode começar do zero. O sonho de uma Igreja, sem mancha nem ruga, constituída por pequenos grupos de santos e puros, seria a perversão das perversões.

3. Uma das grandes vergonhas pelas quais a Igreja, no seu conjunto, passou, e está a passar, tem a ver com a pedofilia que envolveu várias figuras da hierarquia católica. Sem o combate a este flagelo, nenhum programa de um novo Papa, ou melhor de um novo governo da Igreja, terá qualquer credibilidade. O melhor é erradicar as instituições que possam encobrir esse tipo de práticas e não consentir que pessoas que tenham essas tendências possam ter qualquer acção pastoral que as coloque junto de crianças.

O programa de um novo governo da Igreja não pode estar polarizado apenas por esta questão. Existem, actualmente, vários projectos em curso, na Igreja Católica. Destaco a redescoberta de uma memória, ora esquecida ora atraiçoada, o Vaticano II. A Nova Evangelização é um horizonte que o Ano da Fé procura activar.

João Paulo II, durante o seu pontificado, tentou que a Igreja tivesse uma visibilidade mundial através das suas viagens e intervenções. Por maiores que sejam as críticas ao seu método, não há dúvida de que a Igreja passou a fazer parte de todos os noticiários. Durante esse tempo, foram neutralizadas todas as vozes, experiências e iniciativas que seguiam ou propunham outros caminhos. O cardeal Ratzinger, um teólogo do Concílio e de mérito reconhecido, assustado com a pluralidade crítica de expressões teológicas, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou-se de as neutralizar.

Neste momento, já não estamos nos anos 80/90. Estamos no século XXI. De que é que precisa a Igreja para escutar os desafios do mundo de hoje e participar na descoberta de novos caminhos para uma civilização que já não sabe de que terra é?

Frei Bento Domingues|Público|03/mar/2013

Um papa africano, um papa libanês?

Mais importante do que a origem ou nacionalidade, importa que o novo Papa tenha “consciência da universalidade da Igreja e das mudanças demográficas na Igreja Católica”, diz o director da Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja, da Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma.

Tessie Osagie, 35 anos, nigeriana a viver em Ferrara há 13, só fica convencida que o Papa Bento XVI renunciou quando vir o próximo ser escolhido pelos cardeais na Capela Sistina, no Vaticano.

Veio a Roma tratar do visto na embaixada, e passou por São Pedro num dia chuvoso, traz um gorro, e luvas. O companheiro de viagem fica a ouvir, sem comentar. “Não acredito que tenha renunciado porque estava doente. O Papa João Paulo II esteve até morrer…”, diz com ar desconfiado sobre o que foi ouvindo nas notícias. “Porquê?”, interroga como quem acha que a resposta não é a oficial. “Ele era o líder da Igreja….” Tessie Osagie é cristã, da Igreja Pentecostal, tem algumas críticas ao catolicismo, e espera, por isso, que a Igreja “abra as suas portas a toda a gente”.

É na Europa que se elege o novo Papa e é da Europa que têm vindo os papas. Mas os cristãos do resto do mundo superam os europeus: segundo o Pew Research, dos dois mil milhões de cristãos, metade são católicos, e os números são mais expressivos na Ásia, na América Latina, e em África (dos europeus, só a Alemanha e a Rússia estão no top 10 com mais cristãos). Por isso alguns têm levantado a questão: será que o novo Papa deveria ser escolhido entre os cardeais fora da Europa?

Para o padre jesuíta Nuno Gonçalves, director da Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja, da Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, “o importante é o novo Papa ter uma grande consciência da universalidade da Igreja e das mudanças demográficas na Igreja Católica, da expressão do cristianismo na África, Ásia e grande vitalidade da América Latina”. E acrescenta: “Ao mesmo tempo, deve ser uma pessoa que saiba transmitir a mensagem do evangelho aos países secularizados do Ocidente.”

O rosto de Tessie Osagie abre-se quando lhe perguntamos o que acha da hipótese de o próximo Papa ser africano. Tem-se falado nos media que na lista dos favoritos estão os cardeais Francis Arinze, da Nigéria, Peter Appiah Turkson, do Gana, Marc Ouellet do Canadá, ou o arcebispo Angelo Scola (Bento XVI apontou 67 dos 118 cardeais que vão escolher o próximo Papa, 37 deles são da Europa). “Se acordasse e visse um Papa negro ficaria tão feliz!”, diz.

“Um Papa negro faria o que os outros fariam – lutar pela paz, pela família, para que as igrejas sejam acolhedoras. Mas mostraria que estamos a mudar. Há muitas discriminações e mostraria que éramos capazes de nos amar mais uns aos outros. Se um Papa negro fosse eleito, espero que fosse recebido como o Obama na América, apenas como o presidente, independentemente da cor.”

Seminarista da Igreja Maronita, religião católica oriental que reconhece a autoridade do Papa mas tem rituais próprios, o libanês Joe Eiol, 27 anos, admira a atitude de Bento XVI, porque normalmente os líderes em posições tão altas “agarram-se ao poder”. Por isso, como “cristão, ver um líder máximo renunciar ao poder mais alto faz-nos sentir orgulhosos”.

Ele não levanta a questão racial, mas a religiosa para falar da importância de ter um Papa da sua região. Ao lado da irmã e de uma amiga, ambas de visita turística – “trouxemos a renúncia do Papa”, brincam – Joe Eid não quer especificar se considera importante que o próximo Papa seja de fora da Europa. Acredita que “os cardeais e o Espírito Santo irão escolher a melhor pessoa para este momento histórico”. “Mas vamos rezar” pela decisão certa, diz Delicia Eid.

Mas Joel Eid ficaria contente se fosse eleito um Papa libanês, sim. “Temos interacção com outras religiões. Temos fé com elas. Sofremos por causa desta interacção. Se um Papa libanês fosse eleito, a Igreja teria outra perspectiva sobre o diálogo entre o catolicismo e as outras religiões.” Porquê? “Não é fácil lidar com este tema e viver num ambiente islâmico. Se houvesse um Papa libanês o mundo iria abrir-se a este diálogo.”

|Público|13/fev/2013