Dois Papas estiveram juntos, algo nunca visto na História da Igreja

Os dois Papas cumprimentaram-se com um abraço, à chegada de Francisco a Castel Gandolfo ©AFP

O recém-entronizado Francisco visitou ontem Bento XVI em Castel Gandolfo, no que foi uma inédita passagem de testemunho entre dois responsáveis máximos da Santa Sé

Dois homens vestidos de branco, apenas com alguns adereços a mostrarem quem é quem: o encontro de ontem entre Francisco, o actual Papa, e Bento XVI, o Papa emérito, foi algo nunca visto em 2000 anos de História da Igreja Católica.

Apesar disso, o Vaticano teve uma cobertura bastante discreta para um acontecimento tão sem precedentes – afinal, é o primeiro encontro entre dois papas de que há registo público: um vídeo, algumas fotografias, e um relato do porta-voz do Vaticano Federico Lombardi. Continuar a ler

Histórico encontro entre Papa Francisco e Bento XVI: “Somos irmãos”

[youtube http://youtu.be/cuTSEQQdWW8]

São Francisco de Assis

Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue

Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível

O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial

E o mar se vê em seu primeiro espelho

Sophia de Mello Breyner Andresen

Siempre renuncias, Benedicto!

Tenho 23 anos e ainda não entendo muitas coisas. E há muitas coisas que não se podem entender as 8h da manhã quando te acordam …para dizer em poucas palavras: “Daniel, o papa renunciou.”
Eu apressadamente contestei: “Renunciou?”.
A resposta era mais que óbvia, “Renunciou, Daniel, o papa renunciou!”.
O papa renunciou. Assim amanheceu escrito em todos os jornais, assim amanheceu o dia para a maioria, assim rapidamente alguns tantos perderam a fé e outros muitos a reforçaram.
Poucas pessoas entendem o que é renunciar.
Eu sou católico. Um de muitos. Desses que durante sua infância foi levado à missa, cresceu e criou apatia.
Em algum ponto ao longo da estrada deixei pra lá toda a minha crença e a minha fé na Igreja, mas a Igreja não depende de mim para seguir, nem de ninguém (nem do Papa).
Em algum ponto da minha vida, voltei a cuidar da minha parte espiritual e assim, de repente e simplesmente, prossegui um caminho no qual hoje eu digo: Sou católico.
Um de muitos sim, mas católico por fim. Mas assim sendo um doutor em teologia, ou um analfabeto em escrituras (desses que há milhões), o que todo mundo sabe é que o Papa é o Papa. Odiado, amado, objeto de provocações e orações, o Papa é o Papa, e o Papa morre sendo Papa.
Por isso hoje quando acordei com a notícia, eu, junto a milhões de seres humanos, nos perguntamos “por que?”. Por que renuncia senhor Ratzinger? Sentiu medo? Sentiu a idade? Perdeu a fé? A ganhou? E hoje, 12 horas depois, creio que encontrei a resposta: O senhor Ratzinger renunciou toda a sua vida.
Simples assim.
O papa renunciou a uma vida normal.
Renunciou a ter uma esposa.
Renunciou a ter filhos. Renunciou a ganhar um salário.
Renunciou à mediocridade.
Renunciou às horas de sono pelas horas de estudo.
Renunciou a ser só mais um padre, mas também renunciou ser um padre especial.
Renunciou a preencher a sua cabeça de Mozart, para preenchê-la de teologia.
Renunciou a chorar nos braços de seus pais.
Renunciou a, tendo 85 anos, estar aposentado, desfrutando de seus netos na comodidade de sua casa e no calor de uma lareira.
Renunciou a desfrutar  de seu país.
Renunciou a seus dias de folga.
Renunciou a sua vaidade.
Renunciou a defender-se contra os que o atacavam.
Sim, isso me deixa claro que o Papa foi, em toda sua vida, muito apegado à renuncia.
E hoje, voltou a demonstrar.
Um papa que renuncia a seu pontificado quando sabe que a Igreja não está em suas mãos, mas nas mãos de alguém maior, parece ser um Papa sábio.
Nada é maior que a Igreja. Nem o Papa, nem seus sacerdotes, nem os laicos, nem os casos de pedofilia, nem os casos de misericórdia. Nada é maior que ela.
Mas ser Papa nesse tempo do mundo, é um ato de heroísmo (desses heroísmos que acontecem diariamente em nosso país e ninguém nota).
Recordo sem dúvida, as histórias do primeiro Papa. Um tal… Pedro. Como morreu? Sim, em uma cruz, crucificado igual ao teu mestre, mas de cabeça para baixo.
Hoje em dia, Ratzinger se despede de modo igual. Crucificado pelos meios de comunicação, crucificado pela opinião pública e crucificado pelos seus irmãos católicos. Crucificado pela sombra de alguém mais carismático.
Crucificado na humildade que tanto dói entender. É um mártir contemporâneo, desses que se pode inventar histórias, a esses que se pode caluniar e acusar a vontade, que não respondem.
E quando responde, a única coisa que faz é pedir perdão. “Peço perdão pelos meus defeitos”. Nem mais, nem menos. Quanta nobreza, que classe de ser humano.
Eu poderia ser mórmon, ateu, homossexual e abortista, mas ver uma pessoa da qual se dizem tantas coisas, que recebe tantas críticas e ainda responde assim… esse tipo de pessoa, já não se vê tanto no mundo.
Vivo em um mundo onde é engraçado zombar o Papa, mas que é um pecado mortal zombar um homossexual (e ser taxado como um intolerante, fascista, direitista e nazista).
Vivo em um mundo onde a hipocrisia alimenta as almas de todos nós. Onde podemos julgar um senhor de 85 anos que quer o melhor para a Instituição que representa, mas lhe indagamos com um “Com que direito renuncia?”.
Claro, porque no mundo NINGUÉM renuncia a nada. Ninguém se sente cansado ao ir pra escola. Ninguém se sente cansado ao ir trabalhar. Vivo um mundo onde todos os senhores de 85 anos estão ativos e trabalhando (sem ganhar dinheiro) e ajudam às massas. Sim, claro.
Mas agora sei, senhor Ratzinger, que vivo em um mundo que vai sentir falta do senhor.
Em um mundo que não leu seus livros, nem suas encíclicas, mas que em 50 anos se lembrará como, com um simples gesto de humildade, um homem foi Papa, e quando viu que havia algo melhor no horizonte, decidiu partir por amor à sua Igreja. Vá morrer tranquilo senhor Ratzinger.
Sem homenagens pomposas, sem um corpo exibido em São Pedro, sem milhares aclamando aguardando que a luz de seu quarto seja apagada. Vá morrer, como viveu mesmo sendo Papa: humildemente.
Bento XVI, muito obrigado por renunciar.

Daniel

Recebi este artigo por e-mail de um amigo português, Domingos Ribeiro da Costa, que vive em Itália. Partilho pela grata surpresa ao ler o texto.

Bento XVI já entregou o anel do Pescador

O anel simboliza o poder pontifício ©GABRIEL BOUYS/AFP

O Papa emérito Bento XVI já entregou o anel do Pescador ao cardeal camerlengo para que seja inutilizado, sinal de que o seu pontificado terminou, confirmou neste sábado o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi.

Lombardi precisou que o anel do Pescador, que simboliza o poder pontifício, e o selo de chumbo que usava Bento XVI foram entregues à Secretaria de Estado, que por sua vez os entregou à Câmara Apostólica, encarregada de administrar a Santa Sé quando não há Papa e que é presidida pelo camerlengo, o cardeal Tarcísio Bertone. Tanto o anel do Pescador como o selo serão inutilizados com várias marcas em forma de cruz.

Federico Lombardi adiantou ainda que os preparativos na Capela Sistina, onde decorrerá o conclave, ainda não começaram por ser necessária autorização da Congregação dos Cardeais, que se reunirá pela primeira vez na segunda-feira. Os serviços técnicos do Vaticano já têm tudo pronto, mas de momento a capela continua aberta ao público.

A dois dias do começo das primeiras reuniões preparatórias do conclave, os cardeais continuam a chegar a Roma, onde já se encontram 141 dos 207 membros que compõem o Colégio Cardinalício.

Segundo Lombardi, em Roma residem permanentemente 75 cardeais, e outros 66, vindo de vários países, já indicaram morada na cidade. Os restantes deverão chegar entre 4 e 6 de Março.

Na segunda-feira, a primeira reunião de cardeais começará cerca das 9h30 locais (8h30, hora de Lisboa) e a segunda por volta das 17h locais (16h, hora de Lisboa).

Os cardeais irão analisar a possibilidade de o conclave poder ser antecipado.

A norma estabelece que o conclave comece entre 15 e 20 dias após o início da sede vacante, para permitir a todos os cardeais chegarem a Roma. Mas como a maioria dos cardeais viajou para Roma para acompanhar os últimos dias do pontificado de Bento XVI, existe a possibilidade de o conclave poder ser convocado para 11 de Março.

LUSA|02/mar/2013 

Bento XVI e os(as) jovens

©News.va

©News.va

Segundo analistas, ao contrário de seu antecessor, Bento XVI tem dificuldades em perceber suas plateias e se comunicar com elas, estando mais preocupado com sua mensagem. “Comunicação é o maior problema deste papado”, diz o Pe. Thomas Reese, jornalista e pesquisador da Universidade Georgetown (EUA) . Como compensação, em seus encontros com a juventude, o papa tenta fazer uso do know-how e o carisma acumulados por João Paulo II, embora sem seu talento. Assim, em maio de 2007, Bento XVI se reuniu no Estádio do Pacaembu com 38 mil jovens “de confiança” selecionados por paróquias e sua mensagem foi o convite a abraçar a castidade. Em visita à Fazenda Esperança, dedicada à recuperação de drogados, Bento XVI conclamou os traficantes a pensarem no mal que provocam e acrescentou: “Deus vai-lhes exigir satisfações”. Comentando essa atitude, que classificou de ingênua, o jornalista Clóvis Rossi questiona se essa peroração é eficaz e se é uma atitude cristã dar de ombros à colossal violência e esperar que Deus aja diretamente junto aos criminosos.

Para compreender a relação do papa com os jovens, serão analisados seis discursos, duas mensagens preparatórias e uma entrevista aos jornalistas por ocasião das três JMJ internacionais em que se envolveu. Nesses discursos foram rastreados três eixos: Auto-referência; Igreja e Mundo; Visão da Juventude.  Continuar a ler

Assim Bento XVI revelou o seu coração. Artigo de Enzo Bianchi

©REUTERS/Alessandro Bianchi

©REUTERS/Alessandro Bianchi

Havia a necessidade desse testamento. Se o coração de muitos católicos havia sido profundamente abalado pela repentina renúncia de Bento XVI ao ministério petrino, as suas palavras na última audiência pública na Praça de São Pedro iluminaram ainda mais aquela decisão.

Foi significativa a escolha do trecho da Carta aos cristãos de Colossos, em que o apóstolo Paulo dá graças a Deus pelo testemunho oferecido por aquela comunidade: uma escolha feita pelo papa para poder expressar, na linha das palavras apostólicas, o seu agradecimento ao Senhor e à Igreja pela sua fé e pela sua caridade.

Esse discurso revela bem o coração de Bento XVI: há oito anos, ele aceitou com verdadeira obediência se tornar papa, fazendo ao Senhor uma pergunta: “Por que me pedes isto?”. Aos 78 anos, ele estava consciente da sua própria velhice, de não ter feito nada para ser eleito, de ter que “fazer um trabalho” duro e cansativo. Foi chamado a guiar um navio em mar agitado – um mar às vezes também em tempestade – e voltado para uma meta com os ventos contrários. Hoje, com a sua fé, ele confessa que nunca se sentiu sozinho, nem mesmo quando o Senhor parecia dormir, e alguns barqueiros não ajudavam a manter a rota, mas faziam confusão.

A fé sólida que ele sempre teve o faz dizer que ele não se sentiu sozinho, e ele havia dito isso em um momento crítico vivido na sua cúria, embora na realidade a solidão faça parte de quem preside uma Igreja com uma responsabilidade própria e única como a do bispo de Roma. Durante o seu pontificado, porém, ele sempre insistiu no fato de que os católicos devem crer e creem que a Igreja é de Cristo, não é nem do papa, nem dos cardeais, nem dos bispos, nem de qualquer “personagem católico”.

Essa distinção entre pessoa e serviço levaram o papa à renúncia, evento novo e grave – segundo as palavras do papa –, mas ditado pelo seu amor à Igreja. Aquilo que ele dizia sobre o descentramento necessário a toda autoridade na Igreja com relação ao Senhor Jesus Cristo, o papa também o realizou e o mostrou concretamente.

E aqui nos é dada uma demonstração do que significa obedecer à voz de Deus presente na consciência de cada pessoa: Bento XVI rezou, pediu a luz divina, depois tentou julgar se a escolha vinha por amor à Igreja ou por amor a si mesmo, avaliou se estava realmente na lógica do bem comum, do bem máximo da Igreja, a comunhão, e portanto, com decisão, firmeza, parrésia, isto é, franqueza, manifestou o que lhe havia sido pedido a partir do santuário da sua consciência.

Nestes dias, depois do ato da sua renúncia, sucedem-se muitas interpretações sobre o porquê dessa decisão. Acredito que é bom aceitá-la nos termos afirmados e reiterados por ele mesmo. É um papa que nunca usou a mentira, sempre considerada por ele como um das três interditos fundamentais da ética humana e cristã.

Com o discurso na última audiência, Bento XVI nos deixa um testamento, cheio de fé e de esperança, oferecido sem uma liturgia de triunfo, sem nenhuma autocelebração, sem uma despedida cenográfica e de “grande evento” espetacular. Um testemunho que nos lembra que só “a palavra de verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida”.

Eu conheci o teólogo Ratzinger, depois o cardeal e, pouco após a sua eleição, tive uma longa audiência em que pude ouvi-lo e ler junto com ele alguns temas eclesiais urgentes: o ecumenismo e a vida religiosa. Depois, encontrei-o outras vezes, encontrando nele sempre afeto e atenção, além da benevolência com a qual quis me nomear como especialista em dois sínodos gerais dos bispos.

A última vez me surpreendei, cumprimentando-me quando eu ainda estava distante: “Ah, eis um velho conhecido, o prior de Bose!”. Ele também me expressou um desejo que eu espero que possa satisfazer, embora ele não seja mais o papa, mas permanecerá sempre um como um testemunho do senhorio de Cristo e de ninguém mais.

Não sou um adulador, mas expresso a Bento XVI um “obrigado” convicto pela sua fé e pela sua humildade, por aquilo que ele foi em toda a sua vida de cristão, de teólogo, de bispo e de cardeal, por aqueles que foram os seus oito anos como papa e pelo seu gesto de renúncia que ajudará todos também a ter uma visão do primado petrino mais aderente ao Evangelho, que quer que o papa seja “humilde sucessor do Pescador da Galileia” e “servo dos servos do Senhor”.

A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 28-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Lido aqui!

As palavras de Bento XVI em Castel Gandolfo

©News.va

©News.va

Obrigado!
Obrigado de coração.
Caros amigos, estou feliz por estar convosco, circundado pela beleza do criado e pela vossa simpatia que me faz muito bem, obrigado pela vossa amizade, pelo vosso afecto.
Sabeis que este meu dia é diferente dos precedentes, já não sou Sumo Pontífice da Igreja Católica, até às 8 horas da noite sou ainda, depois não. Sou simplesmente um peregrino que inicia a última etapa da sua peregrinação nesta terra. Mas gostaria ainda, de trabalhar, com o meu coração, com o meu amor, com a minha oração, com a minha reflexão, com todas as minhas forças interiores, para o bem comum e o bem da Igreja, da humanidade. E sinto-me muito apoiado pela vossa simpatia. Vamos para a frente juntos com o Senhor para o bem da Igreja e do mundo.
Obrigado.
Abençoo-vos de todo o coração.
Seja bendito Deus omnipotente, Pai, Filho e Espírito Santo.
Obrigado, boa noite,
Obrigado a todos vós.