Papa, o culto da personalidade?

“Todos” acorrem a Roma por estes dias. O mundo parou. Tanta euforia por um Papa que vem do fim do mundo.

©AFP PHOTO / VINCENZO PINTO

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Por estes dias temos assistido a uma avalanche de notícias vindas de Roma, mais concretamente, do Vaticano. Todos nós temos uma opinião para dar a respeito destes últimos acontecimentos: “este Papa será assim”…, “irá fazer isto e aquilo”…, “é necessário que faça”… “o Papa anterior era diferente porque…”. Até aqui nada de especial. Pelo menos esta eleição permitiu que as pessoas opinassem e opinem sobre uma figura que tem sido designada como o Papa do fim do mundo. Continuar a ler

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Conclave: o que é, como começa e termina

Conclave: palavra com origem no latim cum clavis (fechado à chave). O próximo tem início nesta terça-feira e irá eleger o sucessor de Bento XVI, o primeiro papa a renunciar em 600 anos.

DYLAN MARTINEZ/REUTERS

Quem são os cardeais que participam no conclave? O Colégio Cardinalício conta actualmente com 207 cardeais mas apenas 115 vão participar neste conclave. Para elegerem o novo Papa têm que ter menos de 80 anos. Além de escolherem o futuro Papa, são também seus conselheiros depois da eleição. Reconhecidos pelas suas vestes vermelhas, os príncipes da Igreja, como também são designados, são nomeados pelo Papa em exercício e assumem a função até à sua morte. No Vaticano podem ter cargos no governo, enquanto outros são arcebispos no seu país ou teólogos.

Um cardeal pode declarar-se candidato a Papa? Um cardeal só pode ser considerado um candidato pelos seus pares durante o processo eleitoral, não sendo, no entanto permitido aos cardeais chegarem a acordos, fazer promessas ou estabelecer compromissos que vinculem o Papa uma vez eleito.

Quais são os atributos indispensáveis a um futuro Papa?Deve provar as suas capacidades de “pastor de almas”, de teólogo e de diplomata. Terá de conseguir mobilizar as energias da Igreja Católica em todos os continentes e proteger a diplomacia da Santa Sé das pressões externas. Um dos requisitos é que fale italiano, a língua oficial do Vaticano, mas cada vez mais que seja um poliglota.

Liberais, progressistas, conservadores: de que forma essas etiquetas políticas se aplicam aos cardeais? Todos os cardeais partilham a mesma doutrina sobre o respeito pela vida humana, pela concepção de morte, sobre o carácter sagrado do casamento, união entre homem e mulher, sobre um padre homem à imagem de Cristo. Mas os liberais e os progressistas dão mais importância a preocupações pastorais, à procura do diálogo, enquanto os conservadores insistem na reafirmação dos princípios e da tradição.

Como se vota num conclave? A assembleia de cardeais pede ao Espírito Santo que aja sobre ela. O conclave tem início com uma missa. Os cardeais votam num boletim secreto, sendo que não se podem abster durante as votações. O Papa é eleito por uma maioria de dois terços dos votos.

Um cardeal eleitor pode recusar-se a ser Papa? A Constituição Apostólica determina que o eleito não deve fugir à responsabilidade à qual é chamado mas antes “submeter-se humildemente à vontade divina”.

O que se segue quando o Papa está eleito? Aceite a nova função, é pedido ao novo Papa que diga o nome pelo qual quer ser designado durante o seu pontificado. Os outros cardeais juram-lhe fidelidade e é tornada pública a sua escolha.

Como se sabe quando um Papa foi eleito? Os boletins de voto são destruídos após as votações da manhã e da tarde numa pequena fornalha na Capela Sistina, onde decorre a eleição. Quando um fumo negro sai de uma pequena chaminé isso significa que não se chegou à maioria de dois terços necessária para haver uma eleição. Quando esse fumo for branco está escolhido o novo Papa. O protodiácono, actualmente o cardeal francês Jean-Louis Tauran, dirige-se para o balcão central da Basílica de São Pedro e pronuncia a célebre frase Habemus papam (Temos Papa) e anuncia o nome do novo Santo Padre.

[AFP|Público|12/mar/2013]

A escolha do novo papa

1. Saiba como é escolhido o Sumo Pontífice, quais os rituais históricos do conclave que tem início na tarde da próxima terça-feira e quem são os cardeais considerados favoritos para substituir Bento XVI.

Quem será o sucessor de Bento XVI

2. Veja como decorre a eleição de um papa

Eleição do novo papa

Tarefas para o próximo sucessor de Pedro

©New.va

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[José Ignacio González Faus|ihu|08/mar/2013] Na minha opinião, quando se fala de reformas na Igreja é preciso distinguir, em primeiro lugar, entre reformas mais urgentes e menos urgentes (que podem não coincidir com as que nós mais gostaríamos). Em segundo lugar, é preciso distinguir também entre reformas que vão requerer tempo (talvez muito) e outras que parecem ser de fatura imediata, bastando para isso o papa querer. Tendo isto presente, esbocei o seguinte programa:

1. A reforma mais urgente na Igreja de hoje (embora seja uma reforma lenta e constante) é que apareça como “Igreja dos pobres”. Se Deus se revelou em Jesus como Deus dos pobres e das vítimas deste mundo, uma Igreja que não tornar visível essa revelação será sempre infiel a Jesus Cristo. O novo papa, na minha opinião, deveria retomar e propor aos poderes econômicos deste mundo o ensinamento (tão simples quanto inaceitável) de Jesus de que “é impossível servir a Deus e ao dinheiro”. Ao menos para alertar tantos seres humanos que pretendem crer em Deus, mas buscam um deus compatível com o culto ao Dinheiro que o nosso mundo professa. Esta será uma reforma constante e difícil como disse, mas a Igreja deveria ter muito claro e não esquecer nunca que (como disse João Paulo II) aqui está em jogo a sua fidelidade a Cristo.

2. Em segundo lugar, é muito urgente uma reforma da cúria romana, tão reclamada pelo Vaticano II e que a cúria sempre bloqueou. Nessa infidelidade está, para mim, uma das raízes da atual crise da Igreja. A cúria não é o órgão diretor da Igreja, mas um instrumento a serviço da autoridade eclesiástica que não reside na cúria, mas em todo o colégio apostólico, com Pedro à cabeça. Ao contrário do que disse no número anterior, aqui seriam possíveis reformas imediatas que, no meu modo de ver, são urgentes. Enumerarei algumas:

2.1. Os membros da cúria deveriam deixar de ser bispos, porque a existência de bispos sem Igreja é contrária à mais originária tradição da Igreja, legislada já no cânon 6 do Concílio de Calcedônia. A hipocrisia de torná-los titulares de uma diocese inexistente, só evidencia a má consciência com que se desobedece aqui a Tradição. Tenho dados para afirmar que essa era a mentalidade de Bento XVI quando chegou à cadeira de Pedro; mas a cúria o impediu.

2.2. Derivado do anterior, Roma deveria reinstaurar a participação das igrejas locais na escolha de seus pastores, obedecendo assim também a toda a tradição que enche o primeiro milênio e que só foi quebrada devido à necessidade de impedir que os poderes civis interviessem na designação dos bispos.

2.3. E em terceiro lugar, devem desaparecer do entorno do papa todos os símbolos de poder e de dignidade mundana que ofuscam a revelação da dignidade de Deus consistente no seu aniquilamento em favor dos homens. Seria preciso suprimir os chamados “príncipes da Igreja”, título quase blasfemo para uma instituição que se funda em Jesus como sua pedra angular. O bispo de Roma deveria ser escolhido (por exemplo) pelos presidentes das diversas Conferências Episcopais, acrescentando, talvez, um grupo de religiosos e de leigos homens e mulheres. Esta reforma pode ser mais lenta que as duas anteriores. Mas a comissão de canonistas encarregada de dar caráter jurídico tem tempo para trabalhar até o próximo conclave. E entre esses títulos de poder mundano alheios a Cristo, o sucessor de Pedrodeveria deixar de ser um chefe de Estado, porque isso envergonharia o seu predecessor.

3. Roma e toda a Igreja devem sentir como uma ofensa a Deus a atual separação das Igrejas cristãs contra a vontade expressa do Senhor. Já não é tempo de acusações, mas de unidade. E embora este seja outro ponto que possa ser longo, o próximo papa poderia criar uma espécie de Sínodo ecumênico (paralelo ao atual Sínodo de bispos, mas menos descafeinado que este) que convocasse periodicamente todas as Igrejas cristãs para tratar e discutir livremente os caminhos para a unidade. Unidade na qual podem caber grandes doses de pluralidade, porque a verdadeira unidade não é a uniformidade do único, mas a comunhão do plural. Falei de um sínodo criado por Roma, mas que também poderia ser convocado pelo Conselho Ecumênico das Igrejas, somando-se a ele a Igreja católica. Continuar a ler

Desafios para a Igreja com o novo Papa

@news.va

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A Igreja Católica leva consigo um imenso paradoxo. O sociólogo Olivier Bobineau descreveu bem a situação. “A Igreja católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção – o descentramento segundo o amor – e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial – de que a confissão é o arquétipo – colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada.”

Esta junção paradoxal é superável? Os desafios para a Igreja com o novo Papa são muitos. Ficam aí alguns, sem cuidar muito da sua ordem.

1. Desafio essencial é a conversão de todos os seus membros ao Evangelho, começando pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres. Acreditar em Jesus e tentar segui-lo. E anunciar a fé viva de sempre na linguagem do nosso tempo, articulando-a com a razão. E, contra um cristianismo reduzido a proibições, apresentá-lo como mensagem positiva e realização felicitante de sentido.

2. Outro, decisivo para o futuro: a reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja em geral (há quem se pergunte: mas a Cúria será reformável?). Tem de haver mais simplicidade (acabar com aqueles títulos todos: Eminência, Excelência, Monsenhor…) e transparência e democraticidade. Pergunta-se, por exemplo, se o actual modelo de eleição papal não sofre de endogamia, já que o Papa escolhe aqueles que elegerão o sucessor. Não se impõe um processo mais participativo e universal? Quanto às dioceses, alguém já sugeriu, em vez de dioceses gigantes, um bispo para um número mais reduzido de fiéis, que deveriam participar na sua eleição.

3. É intolerável que possa haver sequer suspeitas de que pelo Banco do Vaticano passa lavagem de dinheiro. Exige-se, pois, uma gestão eficaz e transparente. Jesus foi contundente: “Não podeis servir a Deus e a Mamôn” (o Dinheiro divinizado).

4. Tem de continuar a mão inflexível da tolerância zero no que se refere à pedofilia.

5. É uma pergunta enorme, a de um biblista belga, que me disse um dia em Bruxelas: como é que o movimento iniciado por Jesus desembocou numa instituição com um Papa chefe de Estado?

Evidentemente, onde há homens e mulheres – e os católicos são 1200 milhões – tem de haver um mínimo de instituição. O que ela não pode é ter o primado, pois este pertence às pessoas e aos seus problemas. O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas, ao serviço da paz, dos direitos humanos e do diálogo entre as nações.

6. Sem se negar, a Igreja tem de modernizar-se e, sendo verdadeiramente global, tem de estar aberta ao pluralismo. Esta abertura implicará também o acesso da mulher aos ministérios ordenados, o fim da lei do celibato, a reconciliação com a sexualidade e a revisão de questões como a pílula e o preservativo, a possibilidade da ordenação de homens casados, a comunhão para os divorciados recasados.

7. A continuação do diálogo ecuménico intracristão e inter-religioso e intercultural é um desafio irrenunciável, bem como o contributo para o debate nas questões de bioética.

8. A Igreja de Cristo tem de estar ao lado dos problemas dos homens e das mulheres, a começar pelos mais fragilizados. Por isso, espera-se dela pronunciamentos sem tibieza sobre a justiça social, a condenação de doutrinas económicas que endeusam o lucro, o combate pela dignidade de todos, a salvaguarda da paz, dos direitos humanos, a preservação da natureza.

Anselmo Borges|DN|09/mar/2013

Perfil do Papa ou perfil da Igreja?

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1. Até à eleição do novo Papa, não se pode estranhar o interesse pelas curiosidades mais normais, mais cómicas, doentias ou perversas, quer acerca de Joseph Ratzinger e da sua nova etapa de vida, quer sobre a pessoa desejável para estar à frente do Vaticano.

Quanto a Ratzinger, ver-se-á se vai ou não poder cumprir a promessa de permanecer escondido do mundo. Vestido de branco, de azul ou de preto, que interessa? Para o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, foi importante esclarecer que poderá continuar a vestir-se de branco, mas que as suas vestes serão simples e diferentes das usadas pelo Papa, mas nada disse sobre as futuras relações com a Prada.

Os mais espirituais e cultos estão interessados nas orações que vai rezar, na música que irá tocar, nos livros que tem para ler e nos que vai escrever. Poderá vir a ser conselheiro do novo Papa? Aqueles que insistem em lhe chamar Papa Emérito (também haverá emérita infalibilidade?) não se apercebem de que estão a defender a coexistência de dois Papas. Será normal que venham a surgir narrativas, mais ou menos romanceadas, acerca da vida secreta de J. Ratzinger, no seu retiro. A imaginação das pessoas não vai arrefecer.

Por mim, espero que seja muito feliz e que não surja nenhum vidente a revelar quanto ele continua a sofrer com as desgraças da Igreja.

Será preciso deitar água fria nas preocupações acerca do perfil do futuro eleito. Não porque não sejam importantes, mas ainda é mais importante passá-las para segundo plano. A insistência na configuração do novo Pontífice leva, facilmente, a pensar que basta um bom Papa para ficarem resolvidos todos os problemas. Quem assim pensa esquece que, no século passado, o Vaticano teve grandes figuras à sua frente, uma delas foi mesmo um santo genial, João XXIII, que nunca perdeu o bom humor, pois sabia que o aggiornamento da Igreja não podia ser só obra sua. De João Paulo I, só ficámos com um mês de sorrisos e o projecto de dar uma volta à Cúria Romana.

2. A primeira característica do perfil do novo Papa – passe a repetida expressão – será a de alguém que entenda, de forma prática, que aquilo que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos. Não interessa uma pessoa decidida a fazer a reforma da Igreja, segundo o seu ponto de vista particular. O que importa é alguém preocupado em encontrar um método que mobilize e implique o povo cristão na alteração do actual modelo de governo da Igreja. Não interessa caiar um sepulcro.

Dizendo isto, fica tudo por dizer, pois é urgente encontrar o caminho que nas paróquias, nos movimentos, nas congregações religiosas, na nomeação dos bispos, no exercício da colegialidade, na vida das dioceses e nas suas diversas instâncias realize o confronto do projecto de Jesus – segundo o que dele podemos observar no Novo Testamento, na história da Igreja e não apenas na dos Papas -, com as urgências do mundo actual, na sua grande diversidade, submetido a processos de globalização, que acabam por acentuar o abismo entre pobres e ricos.

Seria ridículo sonhar com um método que colocasse a Igreja de quarentena, parada até que a reforma esteja pronta. É em andamento que as transformações se vão realizando e nunca se pode começar do zero. O sonho de uma Igreja, sem mancha nem ruga, constituída por pequenos grupos de santos e puros, seria a perversão das perversões.

3. Uma das grandes vergonhas pelas quais a Igreja, no seu conjunto, passou, e está a passar, tem a ver com a pedofilia que envolveu várias figuras da hierarquia católica. Sem o combate a este flagelo, nenhum programa de um novo Papa, ou melhor de um novo governo da Igreja, terá qualquer credibilidade. O melhor é erradicar as instituições que possam encobrir esse tipo de práticas e não consentir que pessoas que tenham essas tendências possam ter qualquer acção pastoral que as coloque junto de crianças.

O programa de um novo governo da Igreja não pode estar polarizado apenas por esta questão. Existem, actualmente, vários projectos em curso, na Igreja Católica. Destaco a redescoberta de uma memória, ora esquecida ora atraiçoada, o Vaticano II. A Nova Evangelização é um horizonte que o Ano da Fé procura activar.

João Paulo II, durante o seu pontificado, tentou que a Igreja tivesse uma visibilidade mundial através das suas viagens e intervenções. Por maiores que sejam as críticas ao seu método, não há dúvida de que a Igreja passou a fazer parte de todos os noticiários. Durante esse tempo, foram neutralizadas todas as vozes, experiências e iniciativas que seguiam ou propunham outros caminhos. O cardeal Ratzinger, um teólogo do Concílio e de mérito reconhecido, assustado com a pluralidade crítica de expressões teológicas, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregou-se de as neutralizar.

Neste momento, já não estamos nos anos 80/90. Estamos no século XXI. De que é que precisa a Igreja para escutar os desafios do mundo de hoje e participar na descoberta de novos caminhos para uma civilização que já não sabe de que terra é?

Frei Bento Domingues|Público|03/mar/2013

“Também para mim foi uma alegria caminhar convosco ao longo destes anos”, Bento XVI

Venerados e queridos Irmãos!

 É com  grande alegria que vos recebo e ofereço a cada um de vós a minha saudação mais cordial. Agradeço ao cardeal Angelo Sodano que, como sempre, soube fazer-se intérprete dos sentimentos do Colégio inteiro: Cor ad cor loquitur. Obrigado de coração,  Eminência. E gostaria de dizer – retomando a referência da experiência dos discípulos de Emaús – que também para mim foi uma alegria caminhar convosco ao longo destes  anos, na luz da presença do Senhor ressuscitado.

Como disse ontem diante dos milhares de fiéis que encheram a Praça de São Pedro, a vossa proximidade e o vosso conselho  foram para mim de grande ajuda no meu ministério. Nestes oito anos, vivemos com fé momentos muito agradáveis de luz radiosa no caminho da Igreja, juntamente com momentos nos quais algumas nuvens se adensaram no céu. Procurámos servir Cristo e a sua Igreja com amor profundo e total, que é a alma do nosso ministério. Demos esperança, a que vem de Cristo, que só pode iluminar o caminho. Juntos podemos dar graças ao Senhor que nos fez crescer na comunhão, e juntos pedir-lhe  para que vos ajude a crescer ainda nesta unidade profunda, de modo que o Colégio dos Cardeais seja como uma orquestra, onde as diversidades – expressão da Igreja universal  –  concorram  sempre para a harmonia superior e concorde.

Gostaria de vos deixar um pensamento simples, que me está muito a peito: um pensamento sobre a Igreja, sobre o seu mistério, que constitui para todos nós – podemos dizer – a razão e a paixão da vida. Deixo-me ajudar por uma expressão de Romano Guardini, escrita precisamente no ano em que os Padres do Concílio Vaticano II aprovavam a Constituição Lumen gentium, no seu último livro, com uma dedicatória pessoal também para mim; portanto as palavras deste livro são-me particularmente queridas. Diz Guardini: A Igreja «não é uma instituição pensada e construída sob um projecto…. mas uma realidade viva… Ela vive ao longo do tempo, no futuro, como todos os seres vivos, transformando-se… E no entanto na sua natureza permanece sempre a mesma, e o seu coração é Cristo». Foi a nossa experiência, ontem, parece-me, na Praça: ver que a Igreja é um corpo vivo, animado pelo Espírito Santo e vive realmente pela força de Deus. Ela está no mundo, mas não é do mundo: é de Deus, de Cristo, do Espírito. Vimos isto  ontem. Por isso é verdadeira e eloquente também outra famosa expressão de Guardini: «A Igreja desperta nas almas». A Igreja vive, cresce e desperta nas almas, que – como a Virgem Maria – acolheram a Palavra de Deus e a conceberam por obra do Espírito Santo; oferecem a Deus a própria carne  e, precisamente na sua pobreza e humildade, tornam-se capazes de gerar Cristo hoje no mundo. Através da Igreja, o Mistério da Encarnação permanece para sempre presente. Cristo continua a caminhar através dos tempos e em todos os lugares.

Permaneçamos unidos, queridos Irmãos, neste Mistério: na oração, especialmente na Eucaristia quotidiana, e assim servimos a Igreja e a humanidade inteira. Esta é a nossa alegria, que ninguém nos pode tirar.

Antes de vos saudar pessoalmente, desejo dizer-vos que continuarei a estar convosco com a oração, especialmente nos  próximos dias, a fim de que sejais plenamente dóceis à acção do Espírito Santo na eleição do novo Papa. Que o Senhor vos mostre o que Ele quer. E entre vós, entre o Colégio Cardinalício, está também o futuro Papa ao qual já hoje prometo a minha reverência e obediência  incondicionadas. Portanto, com afecto e reconhecimento, concedo-vos de coração a Bênção Apostólica.

2013-03-01 – L’Osservatore Romano

Papa humilde, Pontificado profundo, as sementes germinarão

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Cidade do Vaticano (RV) – A Praça São Pedro viveu hoje uma das memoráveis audiências gerais das quartas-feiras, ocasião em que o Papa dirige sua catequese aos milhares de fiéis e peregrinos que – provenientes de várias partes do mundo – todas as semanas têm este habitual encontro com o Sucessor de Pedro.
Na data de hoje um motivo especial, a última audiência geral do Pontificado de Bento XVI.
Entre os mais de 150 mil presentes, o pregador da Casa Pontifícia, o frade capuchinho, Pe. Raniero Cantalamessa, a quem a Rádio Vaticano perguntou com quais sentimentos participou desta última audiência do Santo Padre:
Pe. Raniero Cantalamessa:- “Com os sentimentos de todos os outros fiéis católicos que vieram aqui para dar o adeus ao Papa, demonstrar-lhe seu afeto e acompanhá-lo também neste momento que somente ele e Deus sabem quanto deve ser íntimo e sofrido.”

RV: Como acolheu este gesto do Papa?
Pe. Raniero Cantalamessa:- “Acolhi este gesto com serenidade; muitas coisas já o faziam prever, por aquilo que escrevera e dissera em entrevistas, que esta seria a sua disposição no caso em que as forças não lhe fossem mais compatíveis. Creio que tenha dado um exemplo enorme de desapego do poder, porque parece ser muito mais fácil apegar-se do que desapegar-se do poder. Retornar à vida simples, contemplativa – como ele disse – é também uma lição para toda a Igreja. E nós precisamos de tempos de contemplação. E se o Papa sente essa necessidade, ele que trabalha para Cristo todo o tempo, creio que os outros deveriam muito mais sentir a necessidade de subir o Monte Tabor, como disse outro dia Bento XVI.”

RV: Qual é a recordação que o senhor tem da sua experiência de pregador pontifício?
Pe. Raniero Cantalamessa:- “Novamente, admiro a sua humildade, primeiro do Cardeal Ratzinger, que no seu período em Roma estava sempre em um dos primeiros assentos, nunca faltava. E, depois, também como Papa, sempre esteve presente. Isso nunca deixa de me impressionar, nestes 34 anos em que desempenho este ofício: que o Papa venha ouvir a pregação de um simples sacerdote.”

RV: Como acompanhar pastoralmente tantos fiéis que estão vivendo um momento também de desorientação?
Pe. Raniero Cantalamessa:- “Penso que esta desorientação poderia, ao invés, traduzir-se num momento de edificação da Igreja, mostrando – como o Papa nos recordou – que o verdadeiro cabeça da Igreja é Jesus Cristo, portanto, no sentido profundo a sé não está vancante! Porque Cristo está vivo, ressuscitou, é Ele quem guia a Igreja mediante todos os movimentos e as pessoas que se alternam.”

RV: Qual o balanço que o senhor faria deste Pontificado?
Pe. Raniero Cantalamessa:- “Creio que ninguém possa fazê-lo, assim imediatamente. O Pontificado é algo grande, que precisa de espaços para ser avaliado em seu verdadeiro sentido. E como este foi um Pontificado profundo, que se construiu a partir de idéias, de princípios, creio que as sementes germinarão.”

RV: Qual seria, a seu ver, um aspecto de Bento XVI talvez pouco valorizado, pouco evidenciado, inclusive pela imprensa?
Pe. Raniero Cantalamessa:- “A imprensa ocupa-se somente daquilo que é exterior, daquilo que vê… talvez não tenha colhido a interioridade deste homem: a interioridade intelectual e espiritual que se expressa com discrição, sem tons fortes, que é típica, porém, de uma personalidade muito profunda.”

Lido em News.va

A radicalidade da oração

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Última Audiência de Bento XVI ©news.va

Não abandono a cruz. Permaneço apenas de um modo novo junto do senhor crucificado. “Já não sou portador do poder do Governo da Igreja, mas continuarei, no recinto de São Pedro, ao serviço da oração”. Se dúvidas houvesse ficaram na sua última audiência, esclarecidas. O Papa não foge, não abdica, não vai gozar de uns anos sabáticos dedicados à reflexão e à música. Não voltará à sua condição de brilhante teólogo não irá viajar pelo mundo ou a fazer conferências. Não. Vai continuar, a sua mesma missão, dedicando-se a uma tarefa fulcral para o governo da Igreja. Não parte, fica. Tal como João Paulo II, também ele permanecerá junto à cruz até ao fim.

E se o Papa polaco fez do seu pontificado uma catequese da vida mostrando ao mundo (que abomina a doença e foge da velhice), o valor sagrado da vida desde a concepção até à morte natural, Bento XVI, na sua racionalidade germânica, oferece-se também ele em catequese. Mostrando-nos agora o que na Vida de um cristão é verdadeiramente essencial, importante e prioritário. Num mundo vergado ao activismo mais produtivista ele abdica do óbvio poder da acção deixando-a humildemente ao sucessor, e às suas redobradas forças, para escolher o mais difícil: confiar inteiramente na força da oração contemplativa.

E o que é a oração? Nada, a inutilidade perfeita, dirá o mundo. Tudo. Responde o Papa, guiado pela sua própria razão iluminada pela força da sua fé inquebrantável. Porque sabe e não duvida que essa mesma força moverá montanhas. Pedi e obtereis. Batei e abrir-se-vos-á. Disse o mestre.

E Bento XVI que podia limitar-se a pregar brilhantemente essa doutrina mostra-nos como se faz quando se acredita, como ele, que a barca da Igreja, não é dele, “não é nossa” mas pertence ao próprio Cristo que nunca a abandona.

Já em 2005 o então cardeal Ratzinger, a escassos dias de ser Papa, numa dorida oração da nona estação da via sacra nos falava da sua visão da Igreja como uma barca que parece pronta a afundar-se e “ mete água por todos os lados”. Oito anos depois está agora para todos os cristãos bem mais óbvia a fragilidade da barca e a violência da tempestade. Mas, por mais que as lutas de poder lhe transfigurem o rosto e as suas vestes se sujem com os pecados daqueles que deveriam servi-la, acima de tudo os sacerdotes, como não teme repetir-nos, ainda por estes dias, o próprio Papa, ele é também o primeiro a recordar-nos: descansemos, porque só aparentemente o Senhor dorme. Continuar a ler