«A paz seja convosco.»

© JC VogtO desânimo dominava os sentimentos dos discípulos; os sonhos e as ideias projetados em Jesus acabaram numa cruz. Numa sala fechada numa sala, longe do mundo, faz-se presente o Filho do Homem, Aquele que venceu a morte. A única resposta que Deus poderia dar ao Seu Filho Fiel e Predileto – a Vida que está para além do tempo e do espaço. Um sopro rompe o silêncio da sala “ «A paz seja convosco.» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado” – sacramentos da Misericórdia do Pai.

Tomé, o Gémeo não se encontrava com o grupo quando Jesus veio. Incrédulo, afirma só dar crédito ao testemunho dos discípulos quando atestar com o olhar os sinais nas mãos e colocar o dedo no lado aberto de Jesus. Quando oito dias depois Jesus volta a aparecer no meio dos discípulos dirige-se a Tomé apresentando as mãos e o lado aberto. Assim surge uma das profissões de fé mais simples e profundas da Sagrada Escritura “Meu Senhor e meu Deus!”. Diante da Misericórdia ativa de Deus um clamor “Meu Senhor e meu Deus!”.

Nós somos felizes porque acreditamos sem O termos visto, olhado os sinais das mãos e dos pés e tocado no Seu lado aberto, mas dizia o Papa Francisco que “por vezes as lágrimas são os óculos para ver Jesus”. Continuar a ler

Conto de Páscoa, por João César das Neves

Rembrandt_Harmensz_van_Rijn_-_Return_of_the_Prodigal_Son_-_Google_Art_ProjectUm homem tinha três filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.” E o pai repartiu os bens entre os três. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua.
Quando o pai viu isso entrou em casa muito pesaroso. O segundo irmão, ao vê-lo tão triste, e sabendo o que tinha acontecido, disse-lhe: “Pai, aquele teu filho sempre foi má rês. Por isso te roubou. O que temos a fazer é esquecê-lo o mais depressa possível. Continuaremos felizes os três com o que ele cá deixou.”
Mas o filho mais velho, que nascera de um primeiro casamento, estava tão triste quanto o pai. Ele tinha ajudado na educação dos mais novos, e muitas vezes os tivera a seu cargo quando eram crianças. Foi ter com o pai e disse-lhe que iria abandonar tudo para acompanhar o irmão que partira. Ele bem sabia que o jovem não o quereria por perto, mas haveria de o vigiar à distância, protegendo-o se fosse preciso e mandando regularmente notícias ao pai. Nesse mesmo dia, o filho mais velho encheu um pequeno saco com o essencial e partiu atrás do irmão. Continuar a ler

Angelo Scola: a Via Sacra e a doce Memória

©Luz Adriana Villa A.

©Luz Adriana Villa A.

“O Espírito, que fez o Deus-Homem, que O tornou capaz de morrer por nós, e que o ressuscitou dos mortos, opere também em nós essas maravilhas, faça desaparecer a curiosidade do nosso estar aqui, do nosso querer revisitar os factos, da nossa tentativa repetida de imaginar aquilo que aconteceu sem nunca penetrarmos, sem nunca nos deixarmos desafiar pelo significado real da questão.”

©100mim

A vida passa muito depressa

campainhasdapc3a1scoaCada Páscoa lembro-me dos tempos de juventude em que passava a Semana Santa com a família. Era muito divertido: dias seguidos sem aulas, liberdade para correr pelo campo fora, a companhia de dezenas de primos — quase todos mais velhos, o que também tinha o seu fascínio para um miúdo de 5 ou 10 anos.

No entanto, a alegria das férias era sempre ensombrada pelo pensamento de que cedo teríamos de regressar a Lisboa. Chegados a Domingo de manhã, era claro para mim que a coisa era sol de pouca dura; e esse pensamento diminuía significativamente a alegria da festa.
O que este miúdo pensava sobre uns dias de férias há 40 anos, hoje pensa sobre os anos de vida que são a nossa passagem pela terra: isto passa muito depressa.
Também por este motivo, a Ressurreição de Cristo tem um significado muito especial. A Vida pode mais do que a morte. E se o tempo que nos resta é escasso, a fé lembra-nos que isto é somente o princípio: o melhor está para vir.

RR on-line 2013-04-02  Luís Cabral

Cristo ressuscitou, Aleluia.

Tlim, tlim, tlim, tlim, tlim, tlim: já se ouvem as campainhas do compassado em direção à Igreja matriz. A igreja está toda imaculada para celebrarmos a missa da aurora. Os mordomos continuam pela rua principal a procissão até à igreja: tlim, tlim, tlim, tlim, tlim (de quando em vez, tlão, tlão…).

Celebrada a missa da aurora sai o compasso. O pároco pede aos mordomos e a todos os que acompanham o compasso: hoje anunciamos uma grande alegria, Cristo Ressuscitou! Por isso, não se esqueçam de dar esta notícia a todos, mas com um sorriso na cara. Sois portadores da grande NOTÍCIA.

Depois do pequeno almoço na casa paroquial, esta tudo a postos: o rapaz da campainha (que vai à frente a anunciar a chegada); as meninas com as recordações; os mordomos com as suas toalhas brancas; o representante do padre e, claro, a caldeirinha. Cada uma das seis cruzes começa a percorrer o seu trajeto, previamente estabelecido.

Neste dia há sempre os famosos comentários estão atrasados este ano; nunca passaram tão cedo aqui, andam muito rápido; agora fazem o favor de provar isto e aquilo; estão tão lindas as cruzes; ai que menina tão linda, é filha de quem?…

 E de casa em casa se cumpre o ritual:

Cristo ressuscitou! Aleluia, aleluia!

Todos respondem: Aleluia, aleluia!

Paz nesta casa e a quantos nela habitam

Todos respondem: Aleluia, aleluia!

Que a bênção de Cristo ressuscitado (asperge a sala com água benta) assista a este lar e nele haja amor e paz, pão e saúde, hoje e sempre.

Todos respondem: Aleluia, aleluia!

Toda a vila cheira a PÁSCOA: casas perfumadas a cabrito; rua enfeitadas com as flores do campo; a correria de casa em casa para beijar a cruz na casa dos vizinhos, amigos e conhecidos. Um dia de imensa alegria. Um dia em que a tradição ainda é o que era

Terminada a parada dos bombeiros no quartel, as pessoas começam a cantar à força toda ialeleuia, ialeluia… até se chegar à igreja.

O dia termina com a bênção e agradecimentos do pároco e mais uma vez ialeleuia, ilaleluia…

Isto mesmo estamos hoje a viver em Vila Verde, Braga. Somos 14 mordomos. Todos primos. Caso estejas por perto, faz-nos uma visita.

Cristo ressuscitou! Aleluia, aleluia!

Bento Oliveira

Escrito para a revista online O Teu Espaço

«Porque buscais entre os mortos Aquele que vive?» (Lc 24,5)

©Nicole Cambré

©Nicole Cambré

Para mim, irmãos, «viver é Cristo e morrer é lucro» (Fil 1,21). Irei, pois, para a Galileia, para o monte que Jesus nos indicou (Mt 28,16). Vê-l’O-ei e adorá-l’O-ei antes de morrer, para não mais morrer depois; porque «todo aquele que vê o Filho e acredita n’Ele tem a vida eterna»: «ainda que esteja morto, viverá»» (Jo 6,40; 11,25).

Agora, irmãos, em que é que a alegria do vosso coração é uma prova do vosso amor a Cristo? Por mim, eis o que penso […]: se chegastes um dia a amar Jesus, vivo, morto ou volvido à vida, neste dia em que os mensageiros proclamam a Sua ressurreição na Igreja […], o vosso coração exulta e exclama: «Trouxeram-me esta notícia: Jesus, meu Deus, vive! E a esta notícia, o meu coração, que estava entorpecido de dor, que definhava de desânimo e estava prestes a sucumbir ao desespero, o meu coração recobrou vida.» Com efeito, o som desta alegre mensagem reanima os pecadores que jaziam na morte. Sem ela, não nos restaria senão desesperar e enterrar no esquecimento aqueles que Jesus, subindo dos infernos, teria deixado no abismo.

Mas tu reconhecerás que o teu espírito retomou plenamente vida em Cristo se puderes dizer do fundo do coração: «Se Jesus vive, isso me basta! […] Se Ele vive, eu vivo, porque a minha vida depende d’Ele. Mais ainda, Ele é a minha vida, Ele é meu tudo. Que pode então faltar-me se Jesus vive? Mesmo que tudo o resto me faltasse, isso não teria nenhuma importância para mim, desde que Jesus esteja vivo!»

Bem-aventurado Guerric d’Igny , abade cisterciense


Páscoa é Páscoa

«Páscoa é Páscoa. Simplesmente.
Sem IVA nem adjectivo pascal.

Páscoa é lua cheia, inconsútil, inteira,
sementeira de luz na nossa eira.

Deixa-a viver, crescer, iluminar.

Afaga-lhe a voz e o olhar.

Não lhe metas pás, não lhe deites cal.

Não lhe faças mal.

Não são notas enlatadas, brasas apagadas.

É música nova, lume vivo e integral.

Não é paragem, mas passagem,
aragem a ferver e a gravar em ponto cruz

a mensagem que arde no coração dos dois de Emaús.
A Páscoa é Jesus.»

António Couto, «A Nossa Páscoa», Lisboa 2013.

A todos os amigos e leitores do iMissio, os desejos de uma Bela Páscoa!
Rui Vasconcelos, Livraria Fundamentos

Semana das alianças malditas

©Aaron Favila:AP

©Aaron Favila:AP

1. Páscoa ou férias da Páscoa? Para uma minoria cristã, a Semana Santa significa a celebração do processo de transformação espiritual da vida humana. Para os mais idosos, acorda recordações inesquecíveis de infância, diferentes, segundo as tradições de cada zona do país. Para os marcados pela secularização, o turismo ainda pode aconselhar a Semana Santa em Braga ou em Sevilha, mas as “fugas” dependem das modelizações da crise na vida de cada um e nas famílias. A fuga mais geral é ficar em casa.

Na Igreja Católica, embora sabendo que uma andorinha não faz a Primavera, vive-se um momento de esperança. A facilidade e a rapidez com que simples e breves sinais preanunciaram mudanças indispensáveis mostram até que ponto estávamos e estamos saturados de “Inverno”. Dentro e fora da Igreja, a urgência de um outro rumo global só a não deseja quem cresce à custa do afundamento dos outros. A miopia financeira nunca perceberá que não é o império do dinheiro que salvará o mundo. Continuar a ler

Não é a Quaresma que conta, mas a Páscoa

1. A religião é o mundo que toma a direcção de Deus; o cristianismo é Deus que toma a direcção do mundo. Os seres humanos que creem Nele seguem a Sua direcção.

Esta é a posição do teólogo Urs von Balthazar. Parece-me justa, mas atrapalha a mística de olhos fechados, a preferida dos tempos que correm. Nesta Quaresma, em Portugal, chegámos demasiado depressa às expressões de “Sexta-feira Santa”: em muitas cidades do país, saíram à rua multidões que já não podiam esconder mais uma imensa desilusão e enorme tristeza. Seria importante saber qual foi o impacto destes acontecimentos nas celebrações dominicais e nas vias-sacras, entretanto muito revalorizadas. Bento XVI, no passado dia 14, num encontro com o clero de Roma, ao recordar as descobertas e opções do Concílio Vaticano II, destacou a importância de se ter começado pela reforma litúrgica. O Mistério Pascal é o centro da vida e do tempo cristão, do tempo pascal e do Domingo, dia da Ressurreição. Do encontro com o Ressuscitado saímos para o mundo. Neste sentido, é uma pena que, hoje, o domingo se tenha transformado em fim-de-semana, quando na verdade é o primeiro dia, é o dia do início.

Uma das perguntas inevitáveis é esta: para que mundo nos envia a ressurreição dominical? Mas antes quem é este nós?

J. Ratzinger, quando ainda era Papa, recordou que foi a redescoberta da teologia do Corpo Místico (Mystici Corporis) que fez crescer a fórmula: “Nós somos a Igreja, a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente isto é válido no sentido que o “nós”, o verdadeiro “nós” dos crentes, juntamente com o “Eu” de Cristo é a Igreja”.

Para que mundo nos envia esse “nós” que a Eucaristia dominical celebra? É o mundo a alterar durante a semana: na família, no trabalho, na escola, no desporto e no lazer, na solidariedade, no voluntariado, etc. Com uma particularidade: levar estes celebrantes a ver o mundo a partir dos excluídos. Ir da periferia para o centro. Se começarem no centro, nunca mais chegam à periferia. Seja como for, foi o método seguido por Jesus. Estragou o sábado a muita gente.

2. Dada a situação do país, para além do imenso esforço de solidariedade das comunidades cristãs, é preciso uma grande convocatória em prol da justiça para que haja paz. Como disse Sto Agostinho, na Cidade de Deus: “Eliminada a justiça, que são os Estados senão grandes salteadores?”

Para que não haja nem a tentação, nem a imagem de uma tentação, de que a Igreja quer mandar na sociedade ou no Estado, quer fazer política partidária ou formar um partido confessional, o caminho dessa convocatória deve envolver as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas, padres e bispos. Todos juntos teremos de responder à pergunta: se estamos no Ano da Fé para acolher o Vaticano II, que fazer para que o documento A Igreja no mundo contemporâneo se transforme no fermento das nossas igrejas locais perante os problemas sociais, económicos, financeiros, culturais em que nos encontramos?

O objectivo desta convocatória não é criar uma alternativa política, mas alterar a política, alterando a mente e o comportamento dos cristãos face às exigências do bem comum. Depois, é deixar a consciência de cada um em liberdade.

3. Jesus Cristo lembrou aos seus contemporâneos que, para aquilo que os interessava, sabiam ler os sinais do tempo: “Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: vem chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento do sul, dizeis: vai fazer calor, e isto sucede. Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e porque não discernis o tempo presente? Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12, 54-59)

Um dos desafios importantes do Vaticano II foi, precisamente, este: as Igrejas devem capacitar-se para saberem ler os sinais dos tempos. Hoje, as sociedades dispõem de serviços meteorológicos com muitas e úteis funções: para viajar, para a agricultura, para prever alterações na natureza e nos cuidados a ter com o meio ambiente, para não sermos vítimas dos males que semeamos. Existem também muitos centros de investigação da sociologia das religiões. Podemos conhecer o seu número, as características de cada uma, a sua geografia, se estão a crescer ou a diminuir, se são pacíficas ou agressivas.

Segundo a Fé cristã, e não só, em Deus vivemos, nos movemos e existimos. Não em regime de fuga do mundo, mas numa história em contínuas transformações que afectam não só a vida, mas a sua própria interpretação. Somos do Eterno no tempo e os tempos não são todos iguais, não têm todos as mesmas características. Os horizontes mentais vão sendo modificados por novas descobertas científicas, geográficas e culturais. Seja no plano religioso, seja na vida profana, é inevitável a pergunta que a encarnação da Fé cristã levanta: no seio das realidades terrestres em que passamos a maior parte do nosso tempo, que sentido têm as nossas actividades para a construção o reino de Deus?

A teologia dos sinais dos tempos exige esta investigação.

[|Público|10/mar/2013]