A vida passa muito depressa

campainhasdapc3a1scoaCada Páscoa lembro-me dos tempos de juventude em que passava a Semana Santa com a família. Era muito divertido: dias seguidos sem aulas, liberdade para correr pelo campo fora, a companhia de dezenas de primos — quase todos mais velhos, o que também tinha o seu fascínio para um miúdo de 5 ou 10 anos.

No entanto, a alegria das férias era sempre ensombrada pelo pensamento de que cedo teríamos de regressar a Lisboa. Chegados a Domingo de manhã, era claro para mim que a coisa era sol de pouca dura; e esse pensamento diminuía significativamente a alegria da festa.
O que este miúdo pensava sobre uns dias de férias há 40 anos, hoje pensa sobre os anos de vida que são a nossa passagem pela terra: isto passa muito depressa.
Também por este motivo, a Ressurreição de Cristo tem um significado muito especial. A Vida pode mais do que a morte. E se o tempo que nos resta é escasso, a fé lembra-nos que isto é somente o princípio: o melhor está para vir.

RR on-line 2013-04-02  Luís Cabral

«Eis que renovo todas as coisas» (Ap 21,5)

©Luz Adriana Villa A.

©Luz Adriana Villa A.

O mundo inteiro, que celebra a vigília pascal durante toda esta noite, testemunha a grandeza e a solenidade da mesma. E com razão: nesta noite a morte foi vencida, a Vida está viva, Cristo ressuscitou dos mortos. Outrora, Moisés dissera ao povo, a propósito desta Vida: «Sentireis a vossa vida suspensa e tremereis noite e dia» (Dt 28,66). […] Que aqui se trata de Cristo Senhor, é Ele próprio que no-lo mostra no Evangelho, quando diz: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6). Ele diz-Se o caminho, porque conduz ao Pai; a verdade, porque condena a mentira; e a vida, porque comanda a morte […]: «Onde está, ó morte, a tua vitória?  Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» (1Co 15,55) Porque a morte, que sempre fora vitoriosa, foi vencida pela morte d’Aquele que a venceu. A Vida aceitou morrer para desconcertar a morte. Da mesma forma que, ao nascer do dia, as trevas desaparecem, assim foi a morte aniquilada, quando se ergueu a Vida eterna. […]

Eis, pois, o tempo pascal. Outrora, Moisés falou ao seu povo dizendo: «Este mês será para vós o primeiro dos meses; ele será para vós o primeiro dos meses do ano» (Ex 12,2). […] O primeiro mês do ano não é, portanto, Janeiro, em que tudo está morto, mas o tempo pascal, em que tudo retorna à vida. Porque é agora que a erva dos prados, de certa forma, ressuscita da morte, é agora que há flores nas árvores e que as vinhas têm rebentos, é agora que o próprio ar parece feliz com o início dum novo ano. […] Este tempo pascal é, assim, o primeiro mês, o tempo novo […] e, também neste dia, o género humano é renovado. Pois hoje, no mundo inteiro, inumeráveis povos ressuscitam, pela água do baptismo, para uma vida nova. […] E nós, que acreditamos que o tempo pascal é, na verdade, o ano novo, devemos celebrar esse santo dia com toda a alegria e exultação e júbilo espiritual, para podermos dizer, verdadeiramente, este refrão do salmo: «Este é o dia da vitória do Senhor: cantemos e alegremo-nos nele!» (117,24).

 

São Cromácio de Aquileia, bispo


«Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos.» (Jo 15,13)

©Julio Rodriguez

©Julio Rodriguez

O amor de Deus por nós é bem maior que o de um pai. É isso que comprovam as palavras do Salvador no Evangelho: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigénito» (Jo 3,16). E o apóstolo Paulo também refere: «Ele, que nem sequer poupou o Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?» (Rm 8,32) Por isso nos ama Deus mais do que um pai ama o seu filho. É evidente que Deus nos estima para além da afeição paternal: por nós, não poupou o Seu Filho ─ e que Filho! Esse Filho justo, este Filho único, este Filho que é Deus. Poder-se-á dizer mais? Sim! Foi por nós, quer dizer, pelos maus, pelos culpados, que Ele não O poupou. […]

Por isso o apóstolo Paulo, para nos advertir, em certa medida, da imensidade da misericórdia de Deus, exprime-se assim: «De facto, quando ainda éramos fracos é que Cristo morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém morrerá por um justo» (Rm 5,6-7). Com golpe certeiro, basta esta passagem para ele nos mostrar o amor de Deus. Porque, se dificilmente alguém morreria por um grande justo, Cristo provou-nos ser superior, morrendo pelos culpados que nós somos. Mas porque agiu o Senhor assim? O apóstolo Paulo explica-no-lo imediatamente pelo que se segue: «mas é assim que Deus demonstra o Seu amor para connosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós. E, agora que fomos justificados pelo Seu sangue, com muito mais razão havemos de ser salvos da ira, por meio dele» (v. 8-9).

A prova que Ele nos deu foi o ter morrido pelos culpados: uma mercê tem mais valor quando é feita a indignos. […] Porque, se Ele a tivesse concedido a santos e a homens de mérito não teria demonstrado que é Aquele que dá o que não deveria ser dado ─ teria demonstrado ser Aquele que não faz mais do que render o que é devido. Que Lhe retribuiremos, então, por tudo isto?

 

Salviano de Marselha (c. 400-c. 480), presbítero

«Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também»

Ángel Peña Martín

Ángel Peña Martín

«Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa antes de padecer» (Lc 22,15). Recordando estas palavras do nosso Salvador, se me perguntassem qual é a Páscoa que eu desejo ter convosco, responder-vos-ia: não há outra Páscoa que não a do Cordeiro imolado, a que Ele fez de Si mesmo quando Se entregou aos Seus amados discípulos. Oh doce cordeiro pascal, preparado pelo fogo do amor de Deus na Sua santíssima cruz! Alimento divino, fonte de alegria, de deleite e de consolo! Nada nos falta, uma vez que para os Teus servos Te fizeste mesa, alimento e servo. […] O Verbo, o Filho único de Deus, deu-Se a nós com um grande fogo de amor.

Quem nos apresenta esta Páscoa hoje? O servo Espírito Santo. Por causa do amor desmesurado que tem por nós, Ele não se contentou em fazer-nos servir por outros, é Ele mesmo que quer ser o nosso servo. É nesta mesa que a minha alma deseja estar […] para comer a Páscoa antes de morrer. […]

Sabei que é bom que nos apresentemos nesta mesa simultaneamente despojados e vestidos: despojados de todo o egoísmo, de toda a atracção pelo mundo, de toda a negligência e de toda a tristeza […] – porque uma má tristeza definha a alma – e envolvidos na caridade ardente de Cristo. […] Quando a alma contempla o seu criador e a bondade infinita que encontra n’Ele, não pode deixar de O amar. […] De imediato ama aquilo que Deus ama e detesta o que Lhe desagrada, porque Ele Se despojou de Si mesmo por amor. […] Por causa da Sua fome pela nossa salvação e pela honra de Seu Pai, Cristo humilhou-Se e sujeitou-Se a uma morte ignominiosa na cruz, embriagado de amor e apaixonado por nós. Esta é a Páscoa que eu desejo celebrar.

 

Santa Catarina de Siena (1347-1380), Doutora da Igreja, co-padroeira da Europa

«Antes de morrer, o Salvador entrega-Se aos discípulos»

©Luz Adriana Villa A.

©Luz Adriana Villa A.

Desce o Verbo de Deus à nossa terra,

Sem deixar a direita de Deus Pai

E, lançada a semente do Evangelho,

Chega o Senhor ao ocaso da vida.

 

Um discípulo O entrega aos inimigos;

Mas, antes de morrer, o Salvador

Entrega-Se aos discípulos, dizendo:

Sou o Pão vivo que desceu do Céu (Jo 6,51).

 

O Corpo de Jesus é alimento,

O Seu Sangue, bebida verdadeira.

Viverá para sempre o homem novo

Que tomar deste Pão e deste Vinho.

 

Nascendo, quis ser nosso companheiro,

Na Ceia Se tornou nosso alimento,

Na Morte Se ofereceu como resgate,

Na Glória será nossa recompensa.

 

Hóstia Santa, penhor de Salvação,

Perene manancial de eterna Vida,

O inimigo teima em combater-nos;

Salvai-nos com a Vossa fortaleza.

 

Ao Senhor Uno e Trino dêmos glória,

Cantemos Seu louvor por todo o sempre;

A todos nos conceda a Vida eterna,

Abrindo-nos as portas do Seu Reino.

 

Hino de Laudes da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo


hora tércia

[Esta música proposta para  hoje, enquanto rezas]

[youtube http://youtu.be/EnlW3ztvDec]

A linguagem da cruz é loucura para aqueles que estão no caminho da perdição, mas poder de Deus para aqueles que seguem o caminho da salvação. Na verdade, assim está escrito: «Hei-de arruinar a sabedoria dos sábios e frustrar a inteligência dos inteligentes».

cf. 1 Cor 1, 18-19

Liturgia das horasVós que subistes a Jerusalém para sofrer a paixão e assim entrar na glória do Pai, conduzi a vossa Igreja à Páscoa da eternidade.

Vós que, levantado na cruz, quisestes ser trespassado pela lança do soldado, curai as nossas feridas.

Vós que convertestes o madeiro da cruz em árvore da vida, concedei abundantemente os frutos dessa árvore aos que renasceram pelo Baptismo.
Vós que, suspenso na cruz, perdoastes ao ladrão arrependido, perdoai-nos também a nós, pecadores.

Senhor, tende piedade de nós.

Dizer: tira do mal o bem e da injustiça a justiça

© Francisco Martin«Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo» (Jo 6,70). O Senhor devia dizer: «Escolhi onze de vós»; terá ele escolhido um demónio, haveria um demónio entre os eleitos? […] Diremos nós que, ao escolher Judas, quis o Salvador cumprir através dele, contra sua vontade, sem que ele soubesse, uma obra tão grande e tão boa? Isto é próprio de Deus […]: fazer que as más obras dos maus sirvam o bem […]. O mau faz que todas as boas obras de Deus sirvam o mal; o homem de bem, ao contrário, faz que as más acções dos maus sirvam o bem. Haverá alguém tão bom quanto o Deus único? O próprio Senhor diz: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10,18) […]

Haverá quem seja  pior do que Judas? De entre os discípulos do Mestre, de entre os Doze, foi ele o escolhido para guardar a bolsa e prover aos pobres (Jo 13,29). Mas depois de tal dom, é ele quem recebe dinheiro para entregar Aquele que é a Vida (Mt 26,15); perseguiu como inimigo Aquele a Quem tinha seguido como discípulo […]. Mas o Senhor fez que tão grande crime servisse o bem. Aceitou ser traído para nos resgatar: eis como o crime de Judas se transmuta em bem.

Quantos mártires terá Satanás perseguido? Mas, se não o tivesse feito, não celebraríamos hoje o triunfo daqueles […]. O mau não pode contrariar a bondade de Deus. Ainda que Satanás seja um artesão do mal, o supremo Artesão não permitiria a existência do mal se não soubesse servir-Se dele para que tudo concorra para o bem.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja

Semana das alianças malditas

©Aaron Favila:AP

©Aaron Favila:AP

1. Páscoa ou férias da Páscoa? Para uma minoria cristã, a Semana Santa significa a celebração do processo de transformação espiritual da vida humana. Para os mais idosos, acorda recordações inesquecíveis de infância, diferentes, segundo as tradições de cada zona do país. Para os marcados pela secularização, o turismo ainda pode aconselhar a Semana Santa em Braga ou em Sevilha, mas as “fugas” dependem das modelizações da crise na vida de cada um e nas famílias. A fuga mais geral é ficar em casa.

Na Igreja Católica, embora sabendo que uma andorinha não faz a Primavera, vive-se um momento de esperança. A facilidade e a rapidez com que simples e breves sinais preanunciaram mudanças indispensáveis mostram até que ponto estávamos e estamos saturados de “Inverno”. Dentro e fora da Igreja, a urgência de um outro rumo global só a não deseja quem cresce à custa do afundamento dos outros. A miopia financeira nunca perceberá que não é o império do dinheiro que salvará o mundo. Continuar a ler

40 dias de quaresma: Segunda-feira da Semana Santa

©Nesiho Asiraki

©Nesiho Asiraki

Prepara-se o caminho da Morte e da Ressurreição. Mas antes, mais uma vez a revelação do sentido de tudo o que aconteceu e vai acontecer: o serviço. A credibilidade de Jesus surge, entre outras coisas, porque amou, em gestos e palavras, de modo especial os oprimidos e aqueles que não correspondiam aos parâmetros da época. Quem deseja um poder que exclui, separa ou anula o que lhe pode fazer sombra (mesmo em nome da fé), não compreende, nem vive, o dia que celebramos hoje. Jesus é Rei e Senhor “que veio para servir e não para ser servido”… o suficiente para baralhar qualquer sistema.

Pensamento de Paulo,sj