O amor é o contra-egoísmo

©Carlos Ribeiro

Cada vez mais pessoas estão preocupadas consigo mesmas. Cuidam de si de uma forma tão dedicada que se poderia supor que estão a construir algo de verdadeiramente belo e forte; mas não… os resultados são normalmente fracos e frágeis. Gente manipulável que se deixa abater por uma simples brisa… cultivam o eu como a um deus, mas são facilmente derrubados pela mínima contrariedade.

Tendo a originalidade por moda não será paradoxal que a sociedade esteja a tornar-se cada vez mais uniforme? Como a multidão tende sempre a nivelar-se por baixo, estamos a tornar-nos cada vez piores.

Hoje parece não haver tempo nem espaço para um cuidado mais fundo com a nossa essência – são poucos os que hoje têm amigos verdadeiros com quem aprendem, a quem se dão e de quem recebem valores essenciais.

Por medo da solidão quer-se conhecer gente, cada vez mais gente. Talvez o facto de se buscar uma quantidade de amizades mais do que a qualidade das mesmas explique por que, afinal, há cada vez mais solidão… sempre que prefiro partir em busca do novo, escolho abandonar aquele(s) com quem estava.

O sucesso das redes virtuais é hoje um sintoma, um resultado, do mal estar fundo de quem se sente só, de quem busca o encontro com o outro, mas não quer ir até à sua presença; de quem busca palavras de apoio, mas não está disposto a abrir-lhes o seu coração e a escutá-las intimamente… perdem-se horas, dias e anos assim. Parece um exército de eremitas narcisos. Se precisam tanto do outro, porque se deixam ficar atrás do teclado? Longe do braço e do abraço do amor do outro?

A vaidade não eleva o sujeito, afoga-o. Sucumbe porque lhe falta a ligação vital ao outro, essa humildade que engrandece, essa pobreza que nos faz ricos através do sorriso do outro.
O amor é uma espécie de compromisso com a felicidade do outro. A vontade e o empenho real pelo bem do próximo. Um contra-egoísmo. Esqueça-se a auto-estima, o amor próprio ou a auto-ajuda… amar é esquecer-se de si. Deixar-se para trás. Mais adiante, virá a lúcida consciência de que é só quando me dou genuína e gratuitamente que me encontro. Que preciso de sair de mim para, através do outro, ver como sou. Ali, paradoxalmente, longe do espelho. Onde as palavras importantes se escutam com os ouvidos e os sorrisos verdadeiros são dados olhos nos olhos.
A sociedade está progressivamente mais pobre, com gente que, ao invés de ter uma interioridade autónoma capaz de sonhar e de lutar por um caminho seu, tem por alma uma mera caixa de reação aos contextos, previsível, estável… triste. Muito.

Só uma revolução das vontades fundas, uma tomada do poder individual das dimensões mais livres e criativas do homem, poderá inverter esta tendência de degradação essencial da alma humana.
Ninguém se encontra na solidão. Ninguém pode sequer sonhar de forma verdadeira se não tem com quem partilhar os seus desejos íntimos. Ninguém chegará sequer perto da felicidade se não viver abraçado a alguém. Ninguém se completa a si mesmo. Ninguém se basta.

O egoísta e o vaidoso não percebem que a nossa felicidade não passa por cuidarmos de nós mesmos, mas dos outros. Que só esquecendo-nos de nós e entregando o melhor de nós mesmos conseguiremos permanecer para sempre naqueles a quem assim amámos.
Ser é amar, e amar é dar-se.

É urgente cuidar da dimensão mais funda da nossa existência, fazendo prevalecer o amor sobre todas as vaidades, com a felicidade por fim e a verdade por regra… depois, no mundo, entregarmo-nos bondosamente ao outro, iluminando as trevas, pois que o Amor é a luz do mundo.

José Luís Nunes Martins

JornalI|9 Fev 2013

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“O caminho de perfeição” de Teresa de Jesus: o poder de uma metáfora

Santa Teresa de Jesus

O título da obra de S. Teresa de Jesus, conhecida comoCaminho de perfeição, está cheio de aberturas sugestivas a uma imensa riqueza de conteúdos humanos, culturais e espirituais. Enquanto usa a metáfora do caminho, remete para a conceção da vida humana como uma viagem, que dá unidade à diversidade de episódios e de experiências e decorre entre progressos e retrocessos, sucessos e fracassos, perdas e ganhos, conquistas e derrotas, ditas e desditas. Vista como metáfora da existência humana vivida ou por viver, o caminho aparece como narrativa com sentido.

Está, por isso, muito representada nas literaturas clássicas. Na Odisseia de Homero, fazemos o caminhointerior do ser humano que, através de motivos míticos, regressa às origens, às raízes, à identidade, à consciência das suas capacidades mas também da radical finitude. AOdisseia é um périplo através dos sentimentos humanos mais profundos: perigos e sofrimentos que espreitam a cada esquina da vida, fidelidade inabalável, refinada hospitalidade, visão da presença e intervenção do divino na história humana, o frequente diálogo com o divino através da invocação dos deuses, a procura dramática da liberdade e dos valores humanos.

Na Eneida, o caminho épico do herói Eneias é o fio condutor dos combates e da dor, dos encontros e desencontros, das contrariedades e da glória do ser humano na procura da realização pessoal.

A epopeia dos Lusíadas ou a descoberta do caminhomarítimo para a Índia é a história de um povo, dos seus momentos mais dramáticos, das partidas e chegadas, das pelejas e memórias, dos medos e amores, da esperança…, narrada nas peripécias de uma viagem; é a aventura à procura de sentido para a vida.

 A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto sugere o que ocaminho supõe de busca do absoluto, de provas ou provações e de aquisição de conhecimentos.

O peregrino, expondo-se a perigos e sacrifícios e enfrentando medos e obstáculos, significava as dificuldades da vida e exorcizava-as. Caminhar ajudava a tornar-se «outro». Narrar a vida no interior de uma viagem era contemplar a vida como narrativa, desafiando a identificação entre o «decurso» ou «discurso» da vida e o da memória escrita. Continuar a ler